Lavar as mãos, literalmente, é fundamental para evitar toda sorte de doenças. Dentro e fora dos hospitais, bactérias, vírus, fungos e parasitas viajam através delas, discretos e camuflados na inconsciência mecanizada de todos nós, profissionais de saúde.

Mas será que é isso e pronto? Problema resolvido, infecção debelada, mundo em paz? Óbvio que não. As coisas sérias da vida raramente se resolvem apenas com água e sabão. Álcool costuma ajudar bem mais. Hipócrates que o diga. Usou vinho para lavar feridas e recebeu a benção de Baco.

Não podemos esquecer que as infecções importam, em última instância, para quem as tem: o paciente. E quem é esse paciente, afinal? Onde vive? Como vive? Teve tempo de ser feliz — ou ao menos tentou, entre uma conta atrasada e um ônibus perdido?

Humanizar a assistência é humanizar quem a realiza de fato. Tudo o mais é meio: robô, inteligência artificial, administrador, computador, software e demais parentes eletrônicos da eficiência. São importantes? Sem dúvida. Podem ajudar muito — e, às vezes, atrapalhar ainda mais. Basta uma pane e pronto: instala-se o pânico. Escrever em folha de papel com a própria mão virou habilidade para poucos.

Os meios, quanto mais perfeitos, melhor. Os seres humanos também, decerto — mas aqui a perfeição é sempre um horizonte, nunca um endereço. E são esses seres imperfeitos que deveriam lavar as mãos antes de tocar o paciente, e com uma frequência trocista não o fazem, distraídos com a própria importância.

Neste mês que se aproxima, completo cinquenta anos de ingresso na Faculdade de Medicina da UFMG. Meio século, se pensarmos bem, é tempo suficiente para trocar de casa, de cidade, de convicções e até de amores. De lá para cá, tudo mudou: o estetoscópio virou aplicativo, o prontuário virou nuvem, o exame que demorava uma semana agora chega antes do café esfriar. Tudo mudou, menos o ser humano. Esse permanece intacto, teimosamente parado no meio do turbilhão, como boia velha em rio que já mudou de curso três vezes. Imperfeito e maravilhoso — as duas coisas ao mesmo tempo, sem desconto uma da outra.

É ainda com esse indivíduo capenga e genial que as máquinas voam e o coração muda de peito. Curioso: confiamos a ele os maiores milagres da engenharia e da cirurgia, e ao mesmo tempo sonhamos, em surdina, em livrar-nos dele. O sonho do capital — esse capital que nunca dorme, mas também nunca abraça ninguém — é substituí-lo por máquinas e maximizar o lucro. Foi assim na indústria; por que não seria assim na assistência à saúde, essa última fronteira de afeto obrigatório?

O motivo, cá entre nós, é simples e quase cômico de tão óbvio: o produto final é um humano. Uma pessoa tão imperfeita e maravilhosa quanto quem cuida dela — e isso nenhuma planilha resolve. Ela precisa de um olhar, de um toque de carinho, de um abraço que não vem catalogado em nenhum protocolo. Só humanos acolhem humanos. Dependendo do nível de carência, animais também — e aqui confesso que meu cachorro, o Sushi, entende de consolo mais do que muito diploma emoldurado.

Certa vez um estatístico me confessou com entusiasmo, que seu sonho era virar um software. Fiquei observando aquele indivíduo de carne, osso e ironia, desejando ser convertido em algoritmo — e pensei: que equívoco mortal. Essa metamorfose talvez seja factível para quem lida com as atividades meio, mas não se aplica a quem cuida de gente. E há mais: o ser humano já tem uma capacidade de renovação infinitamente mais rápida que qualquer atualização de sistema. As células da pele, da boca, do intestino se renovam a cada instante, silenciosamente, sem pedir licença nem cobrar assinatura mensal.

Certo é que as células responsáveis pela consciência, pelo caráter e pela ética não têm a mesma plasticidade generosa. Ao contrário: muitas vezes regridem, enrijecem, esquecem todos esses princípios pelo caminho, como quem perde as chaves e some numa gaveta de más intenções. É por isso que se vê, de vez em quando, gente com quarenta anos de profissão e a alma do tamanho de uma moeda.

Gente é gente, máquina é meio. E entre os dois há um abismo que nenhuma inteligência artificial, por mais artificial que seja, conseguirá atravessar sozinha.

Lembro-me de um plantão de madrugada, há uns bons anos, quando um paciente idoso, sozinho no quarto, sem parentes por perto e sem esperança de visita, apenas pediu que eu ficasse mais um minuto sentado ali. Não havia protocolo para aquilo. Não havia código de faturamento para aquele minuto. Havia apenas ele, eu, e o silêncio do hospital lá fora, respirando em compasso com os monitores. Fiquei. E até hoje não sei dizer se foi ele quem precisou de mim, ou eu que precisei daquele minuto para lembrar por que escolhi essa profissão em vez de outra qualquer, mais hermética, mais limpa, mais parecida com planilha.

Por tudo isso — e talvez só por isso — eu digo: há um momento em que não se deve lavar as mãos. É quando elas seguram a mão de alguém que treme, que chora, que teme. É quando o gesto mais limpo do mundo é justamente sujar-se um pouco de dor alheia, sem pressa de higienizar-se depois. A assepsia é indispensável no campo operatório e no bisturi; no consolo, é quase um insulto.

Cinquenta anos depois de entrar na faculdade, aprendi — devagar, como se aprendem as coisas que valem a pena — que a medicina  é uma ciência que sonha ser exata, praticada por gente inexata. E ainda bem que é assim. Porque um mundo de médicos perfeitos, calibrados, assépticos e eternos seria, sem dúvida, mais eficiente. Mas seria, também, um mundo sem mãos para segurar as nossas.


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