"Medicina, direito, administração e engenharia são atividades nobres, necessárias à vida. Mas, poesia, beleza, romance, amor, são as coisas pelas quais vivemos." — A Sociedade dos Poetas Mortos
Estou a 9.353 quilômetros de casa. Ainda assim, sinto o cheiro de pão de queijo. Mineiro carrega o aroma dessa iguaria impregnado na alma, como quem traz na bagagem invisível as montanhas azuladas do horizonte e o gosto da prosa mansa ao pé do fogão à lenha. O café, vá lá! O mundo aprendeu a fazer café com o nosso café. Nesse quesito, estamos em casa até na China, até nos confins onde o sol nasce diferente e as palavras são cheias de consoantes.
Aliás, estamos cada vez mais presentes nos quatro cantos do planeta. Entrei num supermercado em Munique, onde me encontro hoje, e deparei com nosso rastro em inúmeras prateleiras. Da carne ao melão, do arroz ao feijão — sim, feijão, esse companheiro inseparável de toda refeição que se preze. Tudo ostentando a rubrica verde e amarela, como medalhas de uma guerra silenciosa que travamos nos campos. Enchemos o estômago de boa parte do mundo com um agro cada vez mais tecnologizado, quase futurista. Satélites sugerem o dia de plantar e de colher, como se a terra fosse um paciente cujos sinais vitais precisam ser monitorados à distância. Vaca com chip, boi com peso mais controlado do que o dos próprios donos — uma ironia que meu avô, homem simples, saboreava com sorriso discreto de quem conhece as contradições humanas.
Andando meio perdido pelo centro histórico da cidade, em meio a rostos de gente do mundo inteiro, não pude deixar de pensar na beleza e na tragédia da raça humana. Olhos puxados, turbantes coloridos, cabelos verdes, vermelhos, gente bela e bem nutrida perambulando pelas ruas largas e limpas. O contraste é brutal quando se chega próximo à estação de trem, onde a pobreza e a marginalidade se acomodam nos cantos escuros, como sombras que o progresso prefere não enxergar. O comboio da miséria do mundo desembarcou por aqui também, trazendo suas malas de sonhos rasgados e desesperanças. Compreensível. Preferível ser miserável vivo no frio europeu do que miserável morto no calor sufocante do próprio país, onde até a esperança evapora.
A Europa que um dia pilhou suas colônias com a voracidade de quem saqueia uma casa em chamas, agora tenta barrar a todo custo ético a entrada dos bisnetos daqueles que um dia lhes renderam a riqueza de hoje. É o velho truque de trancar a porta depois de esvaziar a despensa alheia. A história tem dessas ironias, que fica escondida nos porões dos monumentos suntuosos que preenchem os olhos dos turistas.
Junto com os imigrantes, chegaram também as doenças típicas do subdesenvolvimento, essas companheiras indesejadas da pobreza. O aquecimento global deu sua contribuição, facilitando a imigração também de mosquitos transmissores de doenças tropicais diversas. Dengue em Berlim, Chikungunya em Milão — o mundo globalizado não escolhe apenas o que quer importar.
Ao longo de quase três décadas venho ao Congresso Europeu de Microbiologia e Infectologia, agora rebatizado como Global ESCMID. Evento de altíssimo nível, com mais de 17 mil participantes do mundo inteiro trocando experiências científicas e debatendo as mais diversas áreas da especialidade. São dias de imersão em palestras, pôsteres, discussões acaloradas sobre resistência bacteriana, novos antimicrobianos, técnicas diagnósticas revolucionárias. Um banquete de conhecimento servido em bandeja de prata.
A cada ano que passa, saio deste evento com um sentimento dúbio, dividido como quem assiste a um filme magnífico sabendo que jamais viverá aquela história. Feliz por aprender coisas novas, rever amigos espalhados pelo planeta e circular perdido pelas ruas do primeiro mundo, onde tudo funciona com a precisão de um relógio suíço. Triste por perceber que, a cada ano que passa, ficamos mais distantes dos avanços científicos que testemunhamos. Minha sensação é semelhante à do cachorro vendo o espeto de frango assado girando na vitrine da padaria da esquina — olhos fixos, saliva escorrendo, barriga roncando, mas uma vitrine intransponível separando o desejo da realidade.
Ver todos os avanços e tecnologias disponíveis para diagnosticar e tratar nossos pacientes e não as ter no momento em que precisamos é uma tortura refinada, quase kafkiana. Eles podem ter nossas Minas Gerais, nosso arroz com feijão e até nossos Aedes. Fazemos transplantes complexos, tratamos doenças que desafiam a lógica médica, realizamos procedimentos sofisticados em terapia intensiva que salvariam vidas em qualquer canto do planeta. Mas ficamos a ver navios quando precisamos diagnosticar e tratar as complicações infecciosas resultantes desses mesmos procedimentos. É como construir um arranha-céu sem elevador.
Caro leitor, você e praticamente toda a população brasileira desconhece o fato de não termos como diagnosticar a tempo e a hora (com raras ilhas de excelência onde políticos se internam) as infecções com as quais convivemos hoje nos nossos hospitais. Mesmo se tivéssemos os métodos diagnósticos, ficaríamos ainda mais frustrados: os antibióticos que por aqui gorjeiam alegremente não gorjeiam no nosso quintal. Quando chegam, para entrar no nosso arsenal terapêutico, passam por uma gincana burocrática e econômica que só vira realidade terapêutica depois de uma década, quando cai a patente e o custo reduz a ponto de se tornar palatável para nossos gestores. Até isso acontecer, vamos empurrando com a barriga, improvisando, rezando — e só as funerárias lucram, essas sim sempre pontuais e eficientes.
Em uma das sessões que assisti desse evento, a colega Dra. Marjan Wouthuyzen-Baker da Suíça, apresentou um dado estarrecedor. O trabalho foi publicado por Rubin et al na revista JAMA em 2023;329(16):1333-1336. Esse trabalho mostra que uma evidência contundente do ponto de vista científico, demora cerca de 17 anos para ser incorporada como prática. Fiquei pensando na minha trajetória pessoal. Há cerca de 40 anos venho tentando convencer nossos administradores e colegas que o diagnóstico microbiológico é fundamental para tratarmos adequadamente nossos pacientes. Pasteur (1822–1895) deve se revirar no túmulo todos os dias quando fica sabendo que vivemos até hoje no obscurantismo microbiológico da idade média na maioria dos nossos hospitais. Culturas que ficam disponíveis no dia da missa de sétimo dia dos pacientes não servem de consolo para a família e nem mesmo para os médicos e gestores. Em tempos de microrganismos cada vez mais resistentes, cada minuto conta e significa vidas perdidas ou salvas.
Todo sistema de saúde, seja público ou privado, paga o preço pela falta de visão gerencial, por essa miopia crônica que enxerga apenas o trimestre seguinte. Pagam caro para fazer procedimentos complexos e prolongar a vida dos pacientes, mas jogam tudo pela janela no momento em que não dispõem de métodos para diagnosticar e tratar as complicações infecciosas geradas pelos mesmos procedimentos que pagaram. É como comprar um carro de luxo e abastecer com gasolina adulterada.
Como fui criado em Ibiá, onde a gente aprende desde cedo a chamar as coisas pelo nome, pergunto com a franqueza de quem não tem tempo para rodeios: tem base?!
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