A compreensão do papel da tecnologia no avanço da prosperidade humana avançou de uma visão ferramental, para uma visão infraestrutural, depois para uma visão de ecossistema, para enfim chegar a uma visão da tecnologia como ampliação das capacidades humanas.
Atualmente, organismos internacionais como a OCDE e a ONU trabalham com uma visão integrada em que o desenvolvimento tecnológico depende simultaneamente de capital humano, infraestrutura digital, inovação, instituições eficientes e inclusão social. Por isso, a tecnologia não é mais vista apenas como um instrumento de produção, mas como parte de um sistema que transforma conhecimento em produtividade, bem-estar e oportunidades.
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Essa construção teórica permite a análise dos planos de governo dos principais candidatos à presidência usando uma régua comum e o que fica claro é que embora todos defendam a tecnologia, cada um escolhe um elo diferente da cadeia que conecta tecnologia e desenvolvimento social.
Zema enfatiza produtividade; Caiado, soberania tecnológica; Lula, inclusão e transformação produtiva; Bolsonaro, eficiência do Estado; Renan, poder nacional; e Augusto Cury, capacidades humanas. O problema é que ninguém pensa a tecnologia a partir do seu devido local, ou seja, um sistema dinâmico complexo que só gera resultados efetivos quando conhecimento, inovação, instituições e inclusão atuam de forma integrada. A visão segmentada e estereotipada que todos apresentam tende a ser ineficiente e incapaz de realmente gerar resultados.
O plano de Caiado é claramente influenciado pelas estratégias contemporâneas adotadas pelos EUA, União Europeia e Coreia do Sul. Ciência, tecnologia e inovação aparecem integradas a uma política nacional de competitividade e educação. Na minha visão foi o plano mais sofisticado tecnicamente, porém a experiência internacional mostra que a implementação de um plano desse porte demanda estabilidade institucional, continuidade administrativa e investimentos sustentados por muitos anos. Três características que estão escassas em um país politicamente radicalizado, com situação fiscal degradada e capacidade institucional em declínio.
O plano do Lula integra ciência, inovação e transformação digital a uma estratégia mais ampla de combate às desigualdades e reindustrialização sustentável. O plano possui uma excelente densidade estratégica, pois enxerga a tecnologia como parte de um projeto nacional envolvendo diversos setores e principalmente vinculando-a à transição ecológica. O problema é que assim como no plano anterior as propostas dependem de forte coordenação estatal e capacidade de execução federativa, exatamente os dois aspectos políticos em que o Brasil mais patina atualmente.
O plano de Flávio Bolsonaro é fortemente orientado para digitalização governamental e uso intensivo da IA nos serviços públicos. O plano é coerente, mas muito limitado ao âmbito público e sem uma visão da tecnologia como propulsora de desenvolvimento. Não há nenhuma preocupação com o atual sistema de ciência do país, nenhuma preocupação em como isso conversa com outros temas estratégicos e emergentes e como pode se tornar um caminho de desenvolvimento efetivo.
O plano de Zema parte de uma crença liberal clássica, ou seja, a de que a função do Estado é remover obstáculos ao investimento privado e criar um ambiente favorável à inovação. O problema é que ao subordinar a política científica ao mercado o plano ignora ciência de base, estratégia de longo prazo e a intencionalidade governamental na condução do seu sistema de inovação.
O plano do Renan é provavelmente o mais ousado dos seis, ele possui forte influência de modelos asiáticos (principalmente chinês e dos tigres asiáticos) e de políticas industriais agressivas. O problema central é a exequibilidade em um contexto democrático, além disso, embora descreva objetivos do país como potência tecnológica, não detalha ou indica os caminhos institucionais, fiscais e estratégicos correspondentes.
Enquanto os demais candidatos usam a tecnologia principalmente para crescimento econômico ou soberania, Augusto Cury a associa à educação emocional, empreendedorismo e saúde. O problema é a baixa densidade operacional, quase todas as metas são extremamente ambiciosas, mas vistas a partir de uma perspectiva segmentada e sem qualquer norte financeiro ou operacional.
A tecnologia claramente deixou de ser um assunto secundário para ocupar posição de destaque nos planos de governo, porém a capacidade deles de responder às necessidades da população e em construir caminhos viáveis para o país ainda é bastante limitada.
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Mesmo depois de décadas de evolução, continuamos vendo a tecnologia de maneira restrita e segmentada e com isso perdemos a capacidade de, a partir dela, construirmos um sistema que transforma conhecimento em produtividade, bem-estar e oportunidades de forma integrada e escalável.
