A batalha de Sedan em 1871 selou o destino da Europa Ocidental. Ali os prussianos esmagaram os franceses e capturaram Napoleão III, o imperador. O exército prussiano venceu por dois motivos. Em primeiro lugar porque a sua logística era fundada em trens, que transportavam tropas, mantimentos, munições e armamentos pesados. O segundo motivo: os canhões alemães já eram de recarga, enquanto a artilharia francesa era formada majoritariamente por canhões de bronze de carregamento pela boca.


O PT viveu a sua Sedan. Já havia sentido esse sabor com Fernando Haddad, em 2018, mas nesse domingo, 4, foi pior porque o seu próprio imperador foi derrotado. Lula perdeu porque não percebeu que a política mudou. Ainda consegue fazer comícios internos em que fala interminavelmente por horas. Faz passeatas lotadas, que perturbam o tráfico, em dias de semana e irritam o cidadão. Acha que a política ainda deve ser feita lastreada na realidade objetiva dos fatos. Adicionalmente, tem um projeto de país que cheira ao século passado. Já os seus adversários cultivam a tecnopolítica e pregam a ruptura. É uma mensagem de revolta e revolução. O povo, cansado de uma existência sem perspectiva de futuro, quer ver o circo pegar fogo. Quer ver cabeças rolarem.

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A tecnopolítica é disruptiva. Mira o fim do Estado. É diferente do neoliberalismo, que pregava a redução do Estado. Na tecnopolítica, a guerra é feita cotidianamente, pelos novos militantes profissionais, ou influenciadores digitais das big techs que faturam e militam 24 horas por dia. A tecnopolítica tem vários fluxos de fontes de renda e está associada aos aliados externos. Ela se passa no mundo digital, onde a verdade é relativa e lastreada numa lógica da presença permanente de um ou vários “inimigos”. A tecnopolítica também escolhe os seus representantes reais para atuar em diversos espectros religiosos, onde os seres humanos buscam amparo: ali é sempre mais fácil martelar e “vender” certas realidades, ainda que estejam desconectadas de fatos do mundo real.


A ascensão das mídias digitais e da hegemonia das big techs nas comunicações globais acompanha o fenômeno da ascensão da direita alternativa, que, nos Estados Unidos se manifesta sob o sobrenome Donald Trump; na França, Le Pen; na Holanda, Geert Wilders; na Alemanha, o partido leva o nome AfD. Em todos esses países, a direita alternativa saiu na frente nas redes com um discurso revolucionário, antissistema, disruptivo. Ela também esmaga a direita convencional, como se vê na nova configuração do Congresso Nacional que emerge das urnas. É nesse contexto global que a cena brasileira se apresenta com as suas particularidades. O antipetismo não explica o bolsonarismo, mas ajuda a compreender a sua capacidade de convergir distintos segmentos do eleitorado para o mesmo campo, face ao fato de que nenhuma das alternativas que se apresenta como terceira via demonstra fôlego para chegar ao segundo turno.


Neste primeiro turno do pleito presidencial, dois exércitos se enfrentaram nas urnas. Aquele que estava tecnicamente mais preparado trucidou o seu rival. E o fez porque o de Lula, talvez por arrogância, se deixou enganar pela errônea ideia de que seria o favorito, bastando para isso a máquina e indicadores econômicos de emprego e renda, numa campanha convencional. Esqueceu-se que as pessoas enxergam e diagnosticam a realidade a partir de suas percepções, e essas são formadas em boa parte pela forma como fatos são enquadrados, interpretados e apresentados. Lula esqueceu-se de que o seu adversário tem um aliado externo, com um diagnóstico em tempo integral e detalhado dos eleitores, e capacidade para distribuir conteúdo e potencial para influenciar indecisos na reta final. Estados com potentes big techs integram neste momento um clube muito restrito no contexto geopolítico global. Os prussianos quando disputaram Sedan sabiam de como o apoio externo era importante e construíram-no pouco a pouco.


Essa é uma parte da história. A outra é que Lula promete mais do mesmo, reformas e novas reformas, enquanto o seu adversário deste segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL), prega uma revolução. O eleitor que anda cansado da peleja diária preferiu a segunda. Com as conquistas das urnas, Flávio Bolsonaro poderá remover o último obstáculo que lhe faltava para garantir que o seu poder seja absoluto, o Supremo Tribunal Federal (STF). Um Supremo, que parece ignorar estar na alça de mira, com parte de seus integrantes dando motivos para serem arrastados ao centro da cena eleitoral.


Depois de Sedan, a França perdeu o seu segundo Império e começou a Terceira República. Paris viveu uma Revolução, chamada de a Comuna de Paris. Quanto aos prussianos, fundaram a partir de Versalhes o Segundo Reich: mudaram para sempre o cenário Europeu com a criação daquilo que hoje denomina-se Alemanha. Napoleão III nem sequer voltou à França. Deixou Sedan diretamente para o exílio. A Lula ainda resta uma pequena chance, ínfima. Mas para o Estado brasileiro a guerra já está perdida. Os verdadeiros vencedores não apareceram ainda, mas já sabem que a presa foi abatida e os frutos virão a seguir. Quanto ao povo, que sonha com uma revolução, poderá acordar diante de espelhos em que verá, de frente, quem são os reais perdedores.

 


Nikolas

Com 3.119.318 de votos, o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL) registrou um novo recorde nacional para a Câmara dos Deputados. Considerando o quociente eleitoral de 214.711 votos, sozinho, além de garantir a própria cadeira, Nikolas elegeu mais 14 dos 21 deputados federais do PL da bancada mineira. O segundo mais votado da legenda é o presidente estadual, Zé Vítor, que obteve 145.006 votos, 7.742 a menos do que na eleição de 2022. A distância entre o primeiro e o segundo parlamentar do PL mineiro é de 2.974.312 votos.


Captação

Não apenas Zé Vítor perdeu votos entre 2022 e 2026. Na bancada do PL eleita, exceção aos deputados federais Eros Biondini, Rosângela Reis, Marcelo Álvaro Antônio e ao deputado estadual Caporezzo, outros nove parlamentares anotaram perdas em suas bases entre os dois pleitos. Aí se incluem por exemplo Vinicius Diniz, filho do deputado federal Hercílio Diniz (MDB), que repassou as bases ao filho. A votação dele caiu de 122.819 para 80.567.

 

Territórios

Deputados federais de outros partidos políticos com base territorial em cidades principalmente de porte médio viram as suas bases serem “esvaziadas” por Nikolas em 2022. Para se proteger, todos eles buscaram ampliar a presença em outros municípios.

 

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Na Assembleia Legislativa, dos 68 deputados estaduais que se candidataram à reeleição, 53 foram reeleitos, um índice de sucesso de quase 78%. Serão 24 novos deputados na Assembleia. Considerando-se os últimos 24 anos, os índices de renovação: em 2002, foi registrado o maior índice de renovação do período: 46,75%. Em 2006, as mudanças ocorreram em 40,25% das vagas. A renovação nas eleições de 2010 e 2014 ficou em 36,36% e 33,77%, respectivamente. Já em 2018 a renovação foi de 40,3%, caindo para 32,5% em 2022 e agora para 31,2%.

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