Os acontecimentos do mês de outubro tem me feito repensar sobre a série “O conto da aia”. Entre tantos vilões da ficção contemporânea, poucos encarnam a hipocrisia humana com tanta precisão e crueza quanto o Comandante Fred Waterford, o homem responsável pelo regime totalitário de Gilead em “The Handmaid's Tale”. Criado por Margaret Atwood, é interpretado na série por Joseph Fiennes, cuja atuação foi muito elogiada por conseguir humanizar um personagem monstruoso, tornando-o ainda mais ameaçador através de uma postura contida e manipuladora.
Waterford é o burocrata sorridente, o homem comum que instrumentaliza a fé e o Estado para mascarar as próprias fraquezas. Sua trajetória mostra como o absolutismo corrompe e como a obsessão pelo controle esconde um ego profundamente frágil. Fred Waterford é um narcisista sem moral. Ele projeta a imagem de um líder piedoso, um patriarca benevolente focado em "salvar o mundo" da crise de fertilidade. No entanto, por trás da fachada de retidão, reside um homem dependente da validação daqueles que ele mesmo subjuga. Fred é incapaz de sustentar relações de igualdade, o que leva seu casamento com Serena Joy ao colapso.
Ele busca intimidade com sua aia, June Osborne, batizada como Offred (Subsecus/Frida de Fred) por pertencer ao Comandante. Fred confunde a submissão forçada dela com afeto. Ao quebrar as leis de seu próprio regime para jogar Scrabble ou levá-la ao bordel clandestino Jezebels, o Comandante expõe sua verdadeira natureza: as regras totalitárias servem para controlar a massa, enquanto o topo da pirâmide desfruta do privilégio da transgressão.
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O conservadorismo de Fred é apenas uma fantasia de poder. Para o mundo, ele impõe regras cruéis e a vigilância absoluta; na intimidade, ele é o primeiro a quebrar as próprias leis que criou, buscando no submundo tudo aquilo que ele mesmo proibiu.
O sadismo de Waterford é institucional e passivo-agressivo. Ele não precisa empunhar armas ou chicotes; o aparato estatal que ele ajudou a desenhar faz o trabalho sujo de torturar, mutilar e silenciar. Ele objetifica e escraviza mulheres. Numa fala abominável, um parceiro dele diz: "Pede permissão até para ir ao banheiro agora, doutrinamos, doutrinamos". Ah, não, me confundi. Essa fala foi de uma conversa que aconteceu aqui no Brasil; é que a ficção está se misturando demais com a realidade.
A covardia de Fred se torna ainda mais evidente à medida que a trama avança para o seu desfecho. Quando destituído de sua posição de autoridade e capturado, Fred não demonstra a altivez de um ideólogo convicto. Em solo canadense, sob custódia, ele veste imediatamente o manto da vitimização, tentando barganhar segredos de Estado em troca de sua liberdade e conforto. A falta de remorso pelas atrocidades que cometeu revela uma personalidade sociopática, blindada pela autojustificação de que seus atos serviam a um "bem maior".
O desfecho de Fred Waterford na trama é muito satisfatório, uma catarse narrativa. Caçado na floresta pelas mulheres que ele escravizou e traumatizou, sua morte ocorre pela fúria das aias lideradas por June.
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A desconstrução final do personagem se dá pelo medo: nos momentos derradeiros, desprovido de ternos sob medida, escoltas armadas e rituais sagrados, Waterford morre como um homem pequeno, aterrorizado pelas consequências do mundo que criou. Para os leitores e espectadores, a saga de Fred deixa uma lição atemporal sobre os perigos do extremismo moralizante. Como já dizia Nelson Rodrigues, “por trás de todo paladino da moral, vive um canalha”.
