Uma mulher me disse uma vez: “Aprendi a ser sozinha no meu casamento”. Ela não estava só, tinha marido, filhos, mas ela se sentia só. Aprendeu a ser só no meio de um monte de gente. Ana Suy, psicanalista, autora do livro “A gente mira no amor e acerta na solidão”, diz que “nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra, nossa vida se dá na relação com várias pessoas”. Ela comenta que “não queremos ser amados apenas pela presença, mas também pela nossa falta. ´Será que alguém sentiu minha falta?´”, questiona.

Sempre que a frase “Aprendi a ser sozinha no meu casamento” me vem à mente, eu fico pensando nas diversas formas de solidão, na ilusão de que existe alguém no mundo que vai preencher o que falta em nós, na ilusão de que o amor vai nos salvar de nós mesmos. E mulher é assim: a gente aprende que, sem um homem, estamos sozinhas, mesmo que estejamos em um grupo só de mulheres. Aquelas mulheres ali, sozinhas, estão muito bem na companhia umas das outras, mas sem um homem junto, estão sós aos olhos dos outros.

Nós, humanos, somos seres faltantes, mas parece que, para as mulheres, a parte que falta é maior aos olhos da sociedade. “Você precisa de um homem pra chamar de seu”, já dizia Erasmo Carlos. Mesmo que esse homem seja um traste abusivo, um encostado, um folgado, pelo menos você não está sozinha. Quantas vezes nós, mulheres, ouvimos coisas assim ao longo da vida? “Mulher precisa de homem para ser completa.” Mulher tem que agradar o homem, tem que saber do que eles gostam. Homem aprende a escolher o que ele gosta. Mulher agrada, homem é agradado. Mulher se esforça, homem espera.

A mulher que aprendeu a ser sozinha no casamento, hoje não está mais casada, ficou na gaiola enquanto ele foi dar seus voos solos em busca de quem o agradasse mais. Ela ficou cuidando dos filhos; ele também cuida… quando dá. E quando a gente vai envelhecendo sozinha? Quando passou a vida cuidando e não tem que lhe cuidar?

No Japão, a solidão, impulsionada pelo envelhecimento rápido da população, se tornou uma crise social grave. Um dos fenômenos é o Kodokushi, quando pessoas, especialmente idosos, morrem sozinhas em casa e só são encontradas dias ou até semanas depois. Outro é o Hikikomori: isolamento social extremo. São pessoas que passam meses ou anos trancados em casa, inclusive os jovens. O governo reconheceu oficialmente a solidão como uma questão de interesse nacional, e criou políticas públicas e órgãos dedicados ao tema. 

Aqui no Brasil já vimos casos extremos da solidão de mães atípicas, mulheres que foram abandonadas pelos genitores dos seus filhos, e obrigadas a serem cuidadoras, 24 horas por dia, de crianças e adolescentes com deficiência. Aquele homem que ela chamava de seu a abandonou, abandonou os filhos. Aquele homem a favor da família sumiu quando não ficou satisfeito com um determinado diagnóstico.

Um caso que me marcou foi o de Belo Jardim (PE). Em 2025, uma mãe de 33 anos e seu filho de 4, com deficiência, foram achados sem vida em casa em avançado estado de decomposição. A mãe sofreu um mal súbito, e a criança acabou morrendo por falta de assistência. Mônica e seu filho haviam se mudado para uma casa no bairro de São Pedro, 15 dias antes de serem encontrados mortos.

Os vizinhos estranharam o sumiço da família e acionaram as autoridades após um forte odor começar a exalar de dentro da residência. Outro caso, em  São Sebastião do Paraíso (MG), Ana Paula, uma mãe de 39 anos, sofreu um infarto fulminante em casa. Seu filho de 6 anos, autista não verbal, permaneceu 12 dias trancado sozinho com o corpo da mãe. A criança sobreviveu consumindo o que encontrou na cozinha e foi resgatada por familiares que estranharam o sumiço.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Diante desse cenário de abandono, a recém-criada Política Nacional de Cuidados reconhece que o ato de cuidar não pode mais ser um fardo solitário e desamparado, carregado quase exclusivamente pelas mulheres, a nova legislação busca transformar o cuidado em uma responsabilidade compartilhada entre o Estado, a sociedade e as famílias. O plano representa um pacto de humanidade: uma tentativa institucional de garantir que nenhuma mãe ou filho seja esquecido no silêncio de uma casa, e que a solidão deixe de ser uma sentença de morte.

compartilhe