Jane Doe (pseudônimo legal usado nos Estados Unidos para mulheres cuja identidade é desconhecida ou precisa ser protegida) era uma estudante da Universidade Cornell, que denunciou ter sido vítima de um estupro coletivo perpetrado por sete membros da fraternidade Chi Phi, em outubro de 2024.


Na época, a moça, então com 20 anos, relatou ter visitado a sede da fraternidade Chi Phi. Lá, ela foi pressionada a consumir álcool, maconha e dopada com cetamina (essa última sem ela saber do que se tratava). A cetamina é uma droga que causa dissociação e perda do controle corporal. O amigo dela mandou uma mensagem no grupo de Snapchat da fraternidade sinalizando que tinha ‘free pussy’, o que quer dizer uma mulher disponível no quarto, para usar palavras mais polidas.


Pelas horas seguintes, ela foi estuprada em looping por sete membros da fraternidade, todos estudantes da Cornell. No grupo onde a mensagem foi enviada tinham 57 homens. Os 50 que não participaram dos abusos seguiram com sua vidinha, não chamaram a polícia, não impediram os colegas, não mandaram nem um ‘what the fuck, man’ no grupo.


A moça decidiu denunciar. Foi à polícia, fez perícia, levou para a universidade. Segundo dados atualizados de organizações como a Rape, Abuse & Incest National Network (Rainnn) divulgados em estatísticas recentes de segurança pública, aproximadamente 73% dos casos de violência sexual não são reportados à polícia.


A moça fez o que a maioria não consegue fazer: denunciar. A promotoria responsável pelo caso entendeu que não havia provas suficientes para enquadrar a falta de consentimento, visto que ela usou a cetamina. A escola expulsou dois dos sete alunos. Os outros cinco tiveram que escrever uma redação sobre ‘por que eu não devo drogar e estuprar a minha colega’. Foram suspensos por uns dias e receberam recomendação de ir a workshops sobre o tema.


Essa foi a punição da diretoria da Cornell, composta por quatro homens. Óbvio que seriam apenas homens. Assim como os 50 que viram as mensagens no grupo e não fizeram nada. Homens protegem homens.


A diretoria pensou: ‘Esses meninos têm um futuro brilhante pela frente, de que adianta puni-los por um erro se não tem como voltar atrás’. Esses cinco alunos se formaram e hoje integram o mercado de trabalho como cidadãos de bem. Depois de escrever uma redação. Acontece que agora em setembro, Jane Doe decidiu mover uma ação judicial pública contra a universidade, a fraternidade e os sete estupradores. O caso chegou à imprensa americana e se espalhou mais do que fofoca de prédio.


Com a repercussão, o Ministério Público reabriu o caso. Na internet, já circulam fotos e dados completos dos sete homens. Talvez eles sofram algum tipo de consequência. Talvez eles tenham suas vidas abaladas, pelo menos por alguns anos. Depois passa. Assim como passou para o goleiro Bruno, que voltou a jogar e está cheio de fãs.

 

Misoginia existe. É mais fácil odiar uma mulher por ter ficado bêbada e fumado maconha, do que odiar sete homens por terem violentado uma mulher inconsciente. Ela precisa sofrer as consequências pelas suas escolhas, eles não.


O pensamento geral é de que ela mereceu passar por isso porque ela escolheu fumar e beber com colegas. A punição para casos como esse têm o objetivo de mostar a todos os estudantes, dessa e de outras universidades, que violência sexual tem consequência. E que outras Jane Does entendam que denunciar é o caminho.


* Texto de Carolina Cunha e Bebel Soares

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