Um estudo recente publicado na Perspectives on Psychological Science mostrou que uma pessoa comum fala hoje 12.792 palavras por dia. Em 2007, eram 15.959. Hoje, pessoas falam cerca de 30% menos do que falavam há duas décadas. A queda está associada à chamada economia da conveniência, que substituiu inúmeras interações presenciais por aplicativos, autoatendimento e comunicação digital.


A pesquisa, conduzida por Valeria Pfeifer, da Universidade do Missouri-Kansas City, e Matthias Mehl, da Universidade do Arizona, reuniu dados de 22 estudos entre 2005 e 2019, com mais de 2 mil participantes. Entre os jovens com menos de 25 anos, a queda foi 44% maior do que entre os adultos mais velhos. Seus impactos estão chegando de forma cada vez mais evidente ao ambiente corporativo.


Para Juliana Algodoal, fonoaudióloga especialista em comunicação corporativa e linguagem no trabalho, o problema não está apenas na redução das palavras, mas na diminuição dos espaços de conversa que sustentam confiança, escuta, colaboração e pertencimento dentro das organizações.


Juliana afirma que estamos observando uma redução das relações de fala. Quando isso acontece, as conexões sofrem impacto. E uma liderança sem conexão perde capacidade de gerar empatia, alinhamento e coesão dentro das equipes.


Para ela, a queda das conversas dentro das empresas aumenta as dificuldades de coesão dentro de uma equipe. Some a leitura de sinais não verbais, como hesitação, alegria ou desconforto durante o trabalho. Isso mexe diretamente na conexão do time e pode até afetar a saúde mental de quem para de ser ouvido.


O tema é importante porque muitas empresas estão discutindo produtividade, trabalho híbrido, engajamento e saúde mental. Para Juliana, existe um risco de as organizações confundirem informação com comunicação.

Um estudo do Instituto Reciclar apontou a comunicação como o maior problema dentro das empresas hoje, citado por 83% dos entrevistados. O papel da liderança nesse cenário é direto. O líder tem que ter escuta e fala eficiente para ser considerado um bom líder e, sem interações entre o time, isso fica ainda mais difícil.


Um ponto de atenção, de acordo com Juliana, é o desaparecimento das microconversas, os papos rápidos de corredor, café ou intervalo, que sempre ajudaram a construir vínculos de confiança entre colegas de trabalho e seus líderes.


Juliana afirma que, quando as pessoas deixam de viver essas pequenas interações, perdem repertório social e capacidade de lidar com diferentes perfis. O impacto reflete na colaboração, no pertencimento e na qualidade das relações de trabalho.


Para a especialista, a redução das conversas não acontece apenas dentro das empresas. Ela reflete uma transformação mais ampla da sociedade, impulsionada pela tecnologia e pela busca constante por eficiência. Quando as oportunidades de conversa diminuem, também diminuem as oportunidades de entender o outro, criar vínculos e desenvolver empatia.


Na prática, Juliana acredita que as organizações precisarão voltar a valorizar momentos de interação que durante anos foram vistos como improdutivos. Conversas informais, trocas de corredor, encontros presenciais e espaços de escuta podem se tornar ativos estratégicos para fortalecer cultura, engajamento e colaboração.

“Estamos economizando minutos de conversa, mas podemos estar perdendo algo muito mais valioso, que é a capacidade de construir relações. Comunicação não é apenas uma ferramenta de gestão. É o que sustenta confiança, alinhamento e pertencimento dentro dos times”, conclui a fonoaudióloga.

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