Uma cobrança silenciosa acompanha as mulheres desde muito cedo. Começa ainda na infância, quando ouvimos frases como “você já está mocinha”, “tenha responsabilidade”. Enquanto isso, os garotos recebem outra mensagem: “é coisa de menino”, “ele amadurece depois”, “homem demora mais para crescer”.

E assim naturalizamos duas trajetórias completamente diferentes. As meninas aprendem cedo a cuidar, ceder, organizar, perceber o humor dos outros e antecipar problemas. Muitas se tornam pequenas adultas antes mesmo da adolescência.

Já os meninos costumam receber um tempo extra. Tempo que parece não acabar nunca. Não estou falando de videogame, futebol ou coleções de bonecos. O problema nunca foi o hobby. O problema é quando transformamos a falta de responsabilidade em um traço aceitável da masculinidade.

Conheço homens de 40, 50 anos que continuam passando horas diante do console de videogame. Alguns equilibram lazer, família e trabalho de maneira admirável. Outros, porém, fazem do entretenimento um esconderijo permanente das responsabilidades da vida adulta. Mesmo assim, raramente alguém questiona sua maturidade.

No universo do esporte, isso também acontece. Diversos atletas profissionais exibem suas rotinas nas redes sociais jogando videogame entre treinos e partidas. Não há nada de errado nisso. Afinal, diversão faz parte da vida. O problema é quando essa imagem reforça a ideia de que o homem pode permanecer como eterno adolescente, sem sofrer consequências sociais.

Pense na cena inversa. A mulher de 40 anos sentada no chão brincando de boneca. A reação, com certeza, seria de estranhamento e julgamento. Alguns diriam que ela precisa procurar terapia. Outros perguntariam se não tem mais o que fazer. Acredito que ninguém veria a cena como um hobby inocente.

É curioso, mas a diferença está menos no objeto e muito mais em quem está segurando o controle. As mulheres recebem desde cedo a missão de abandonar rapidamente tudo aquilo que remete à infância. Precisam parecer sérias, demonstrar competência, provar maturidade, cuidar dos irmãos menores.

Depois, precisam tomar conta da casa e, mais tarde, cuidar dos filhos. Muitas vezes acabam também cuidando dos parceiros. Há homens que chegam à vida adulta acreditando que alguém resolverá seus problemas, seja a mãe, a esposa ou a namorada.

E o pior é que sempre há mulheres convocadas para exercer esse trabalho invisível – e aceitam fazê-lo. É claro que existem homens extremamente responsáveis, sensíveis e emocionalmente maduros. Afinal, toda regra tem exceção.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

* Isabela Teixeira da Costa/Interina

compartilhe