O psicólogo Alexandre Lino, autor de “Reunião de condomínio”, com mais de 15 anos de experiência na área de RH e desenvolvimento pessoal, enviou um artigo que achei muito interessante e publico a seguir, na íntegra.
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“Todo indivíduo carrega três versões de si mesmo, como quem guarda chaves sem saber exatamente onde usar. Existe o que se acha que quer, geralmente são desejos embalados por expectativas alheias.
Existe o que se diz querer, polido, socialmente apresentável e ideal para o discurso público. E existe o que realmente se quer, essa parte silenciosa, incômoda e, por algum motivo, hábil em se esconder do próprio dono.
O problema é que, de perto, essas três versões parecem não se conhecer. Uma sonha com estabilidade, outra repete que busca mudança, a terceira anseia correr na direção contrária do mapa. Nesse conflito interno, a pergunta é inevitável: afinal, quem está no comando?
A resposta curta é a incerteza. A longa depende da coragem do momento.
Reconhecer a própria identidade exige trabalho. Primeiro, porque não há treinamento para isso. A educação social foca em ajustar postura, volume, ambição e até o tamanho do sonho, como se a autenticidade viesse com manual de instruções.
E admitir o desejo real envolve superar a vergonha, o medo do julgamento, crenças limitantes e a onipresente 'opinião alheia'. Essa, uma entidade que raramente paga a conta, mas insiste em escolher o prato.
Descobrir-se é apenas metade do percurso. A outra metade é a admissão. Para o mundo e para si mesmo. É neste ponto que muitos recuam: admitir o desejo real é firmar um compromisso. Implica saber que, a partir dali, nada mais será o mesmo na própria vida.
E esse é o medo paralisante. O desconhecido da mudança em muitos casos não é visto como combustível que mantém a chama da curiosidade acesa, mas sim como uma barreira intransponível.
Admitir que quer algo diferente para si é encarado por tantos como se um investimento errado tivesse sido feito: na carreira, nas relações, nas escolhas pessoais. Essa falácia do custo investido se transforma em razão para manter-se na bruma do autoconhecimento não descoberto.
Mas há um aliado subestimado que pode aliviar essa pressão: o tempo. O avanço da medicina estendeu a longevidade a ponto de transformar um recomeço aos 50 anos em mais décadas de estrada. Há tempo suficiente para desfazer nós antigos, refazer caminhos, errar, consertar e recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Talvez o grande desafio contemporâneo seja aceitar a permissão de escolher a si mesmo. Mesmo que pareça tarde, tortuoso ou assustador. Assumir a própria vontade é um ato de bravura. Ser quem se é não exige heroísmo, mas honestidade que liberta.
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Se as três versões puderem concordar em algo, que seja nisto: ninguém está atrasado para si mesmo. Que neste ano você consiga viver a própria vida, verdadeira, que sempre esteve à espera de uma chance para sair do esconderijo.”
