Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Quando o ano começa a se aproximar do fim, é comum fazermos um balanço do que conseguimos realizar. Retomamos as metas estabelecidas em janeiro, lembramos dos planos que ficaram pelo caminho e, muitas vezes, sentimos uma urgência de concluir alguma coisa antes que dezembro termine.

Nesse movimento, nossa atenção costuma se voltar mais para o que ficou faltando do que para aquilo que já fizemos. Nesta semana, durante um atendimento, uma paciente trouxe uma pergunta que me fez pensar sobre esse assunto: “Qual foi a minha maior realização?”

 

Ao tentar responder, começou a revisitar sua história, procurando identificar, entre tantas experiências, aquela que mereceria ocupar o primeiro lugar. Mas como comparar realizações tão diferentes? O que faz uma conquista ser considerada mais importante do que outra?

A palavra realizar está relacionada ao sentido de tornar real, concretizar, fazer acontecer. Podemos realizar projetos, desejos, sonhos e escolhas. Mas será que tudo aquilo que conseguimos concretizar produz, necessariamente, um sentimento de realização?

Realização e conquista não são exatamente a mesma coisa. Podemos alcançar objetivos importantes e, ainda assim, não nos sentirmos realizados. Também podemos encontrar uma profunda satisfação em experiências que dificilmente apareceriam numa lista de grandes conquistas.

Para algumas pessoas, a realização está associada ao desenvolvimento profissional ou à independência financeira. Para outras, pode estar na maternidade, na construção de uma família, no cultivo de um jardim, em aprender algo novo, cuidar de alguém ou preservar uma amizade ao longo dos anos.

Não existe uma única forma de nos sentirmos realizados, assim como uma área da vida não precisa carregar a responsabilidade de nos realizar por inteiro. Podemos estar satisfeitos com aquilo que construímos profissionalmente e, ao mesmo tempo, sentir falta de uma relação afetiva. Podemos encontrar realização na vida familiar e desejar mudanças no trabalho. Sentir-se realizado em uma área não elimina as insatisfações que podemos experimentar em outras.

Nossos critérios de realização também não surgem isoladamente. Desde cedo, aprendemos o que significa ter sucesso ou construir uma boa vida. A família, a cultura, a geração e o ambiente em que vivemos influenciam aquilo que passamos a considerar importante.

Uma promoção pode representar o reconhecimento de anos de dedicação, mas também pode ser desejada porque corresponde às expectativas da família ou oferece prestígio e aprovação. Em algumas situações, passamos anos perseguindo uma ideia de sucesso sem perceber que ela foi construída muito mais pelas expectativas dos outros do que pelos nossos desejos.
Isso não diminui o valor da conquista, mas nos convida a observar a diferença entre aquilo que realmente desejamos e o que aprendemos que deveríamos desejar.

Aquilo que nos realiza também pode mudar ao longo da vida. Uma mulher pode ter encontrado grande realização na maternidade e, quando os filhos crescem, descobrir novos interesses e necessidades. Alguém que dedicou décadas à carreira pode perceber, ao se aposentar, que deseja investir seu tempo em outras experiências.

O que nos realizava em determinada fase pode deixar de ocupar o mesmo lugar. Isso não retira o valor do que vivemos, nem significa que aquela realização tenha sido insuficiente. Nossos interesses, necessidades e prioridades mudam, e podemos encontrar novas fontes de satisfação ao longo da vida.

Também costumamos associar a realização ao momento em que alcançamos um objetivo. Entretanto, ela pode estar no percurso, no resultado ou em ambos. Alguém que decide organizar um encontro de família pode encontrar satisfação não apenas em reunir as pessoas, mas também nos preparativos, nas conversas e na participação de cada um. O encontro representa o resultado, mas os momentos que o antecedem também podem ser uma importante fonte de realização.

Existe ainda a dificuldade de reconhecer aquilo que já conseguimos realizar. Algumas pessoas alcançam uma meta e imediatamente estabelecem outra. A satisfação dura pouco, porque a atenção já está voltada para o próximo objetivo.

Continuar desejando, planejando e buscando novas experiências faz parte da vida. Mas, quando estamos sempre concentrados naquilo que falta, corremos o risco de transformar nossas realizações em etapas que rapidamente perdem importância.
É possível passar anos construindo uma vida e, ao olhar para ela, enxergar principalmente aquilo que ainda não aconteceu.

Reconhecer nossas realizações não significa estar satisfeito com tudo ou deixar de desejar outras experiências. Podemos valorizar aquilo que construímos e, ao mesmo tempo, reconhecer o que ainda queremos mudar. Uma coisa não precisa anular a outra.

Quando o ano se aproxima do fim, podemos olhar para aquilo que ainda queremos realizar, mas também para tudo o que já conseguimos tornar real. Nem todas as realizações estavam previstas em janeiro. Algumas surgiram das circunstâncias, das mudanças de planos e das escolhas que fizemos ao longo do caminho.

Antes de começar uma nova lista de metas, vale reconhecer o que já construímos, o que continua fazendo sentido e aquilo que deixou de ter importância. Afinal, nossos critérios de realização também podem mudar. E você? O que tornou real neste ano que merece ser reconhecido?
 
compartilhe