A vida também é feita de perdas. Perdas de sonhos que não se concretizaram, de um emprego, de uma amizade, de um amor. Perdas da juventude, de projetos idealizados, de versões de nós mesmos que imaginávamos viver. Em alguns momentos, a perda mais difícil é a de um ente querido. Ainda que a vida siga, há experiências que pedem tempo, presença e respeito para serem sentidas.

Vivemos em uma cultura que tende a suavizar essas experiências. Fala-se do 60+, da melhor idade, da liberdade e do tempo disponível, mas pouco se fala das dores provocadas pelas forças que diminuem, pelas referências que mudam, pelas limitações que surgem e pelas despedidas simbólicas que acompanham o passar dos anos. Existe um lado real do envelhecer que raramente é mostrado e que, quando ignorado, se transforma em sofrimento não reconhecido.


Grande parte da dor nasce das projeções e idealizações que não se concretizam. Da vida que imaginamos e não aconteceu. Do caminho que parecia certo e precisou ser revisto. Quando não há espaço interno ou externo para elaborar essas frustrações, o sofrimento fica sem lugar e tende a se prolongar.


Elaborar a dor exige espaço e tempo. Espaço para o silêncio ou para a fala. Para a palavra ou para a escuta. Para o reconhecimento interno ou para o compartilhamento com alguém de confiança. Porém, nem sempre esse espaço é oferecido. Muitas vezes, ele é apressado, interrompido ou silenciado em nome da ideia de que é preciso ser forte, seguir em frente e não parar no que dói.

Também me coloco nesse lugar. Sou daquelas pessoas que, ao perceber o sofrimento do outro, sinto um chamado para agir e ajudar. Como se fosse necessário fazer algo, dizer algo, aliviar de alguma forma. Não por acaso, esse movimento me conduziu ao cuidado, à escuta e à profissão de terapeuta. Existe em mim, e em muitos de nós, uma dificuldade genuína de permanecer diante da dor sem tentar resolvê-la.


Com o tempo, fui compreendendo que ajudar não é, necessariamente, intervir. Existe uma linha delicada entre o cuidado, a presença e a invasão. Encontrar esse equilíbrio é um aprendizado contínuo.


Vivemos imersos na chamada positividade tóxica, uma lógica que exige força constante, aprendizado imediato e gratidão mesmo quando a dor ainda está aberta. Frases ditas com boa intenção muitas vezes não ajudam. Elas não criam espaço para o sofrimento, apenas sugerem que ele seja superado rapidamente. Assim, o sentir vai sendo desautorizado.

Talvez seja tão difícil nos contermos diante da dor do outro porque o sofrimento alheio também nos confronta com aquilo que evitamos sentir em nós. O silêncio incomoda. A impotência assusta. A dor que não pede solução nos lembra que nem tudo está sob controle. Diante disso, agir parece mais confortável do que sentir.


Quando o sofrimento não encontra espaço para ser elaborado, ele não desaparece. Os sintomas surgem, os comportamentos se repetem, o corpo fala.


Falar, no entanto, não basta se não houver escuta. A escuta reconhece e valida a experiência vivida. Quando alguém testemunha a nossa dor, ela deixa de ser apenas interna e passa a ter um lugar no mundo. Sem esse reconhecimento, o sofrimento fica suspenso, como se não tivesse permissão para existir.


O ser humano precisa ser reconhecido, não apenas pelo que faz ou conquista, mas também pelo que sente. Quando a dor é ignorada, minimizada ou invalidada, ela não se elabora. Permanece como uma ferida aberta, invisível, que continua doendo no escuro. 

Negar o sofrimento, próprio ou do outro, é perigoso. A negação costuma gerar invisibilidade, somatização e vergonha silenciosa. Aos poucos, a pessoa passa a acreditar que há algo errado com ela por sentir o que sente.  


Nem sempre ajudar é animar, orientar ou resolver. Há momentos em que o mais respeitoso é apenas estar. Estar ao lado, em pensamento, em oração, em bem-querer. Sem ter o poder ou a obrigação de fazer algo. Sem precisar ir para a ação. Às vezes, apenas assistir e consentir o sofrer já é um ato profundo de ajuda, amor e de respeito à privacidade e ao tempo do outro, que também é o nosso.


Há momentos em que é legítimo permitir a presença de sentimentos intensos, como a ira, a revolta, a indignação, a dúvida e o medo, sem a urgência de compreendê-los ou transformá-los. Tudo precisa de um tempo para ser sentido, elaborado e, aos poucos, ressignificado dentro de nós.


Embora nem tudo sejam flores, mesmo em meio aos espinhos elas, em algum momento, insistem em surgir. Não como promessa de felicidade imediata, mas como sinal de que a vida segue pulsando quando o sentir encontra espaço.


E você? Como elabora o seu sofrimento? Costuma permitir que ele seja sentido, nomeado e compartilhado ou tenta apressar sua superação? Talvez valha se perguntar, com gentileza e honestidade: tenho dado espaço ao que sinto ou tento silenciar minhas dores? Com quem consigo falar quando algo dói de verdade? Consigo escutar o sofrimento do outro sem precisar intervir?   

 

Tenho respeitado o meu tempo interno ou cobrado de mim respostas imediatas? Às vezes, o primeiro cuidado não está em resolver, mas em reconhecer. Não em agir, mas em se permitir sentir.


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