Estudantes da Escola Técnica Estadual (Etec) Francisco Garcia, em Mococa (SP) desenvolveram uma prótese com tecnologia de impressão 3D para atender a uma demanda de uma colega da sala. Inspirados pela história de Maria Alice Francisco, que nasceu sem parte do braço esquerdo, alunos do curso técnico de Mecânica desenvolveram a prótese funcional que pode custar menos de R$ 300.

O projeto, batizado de Adaptamão, foi criado pelos estudantes Fabrício Bueno Francisco e Lucas Marques de Souza, em parceria com a própria Maria Alice, sob orientação dos professores Jayro do Nascimento Neto e Regina Destro Silva. A ideia surgiu em sala de aula, após a escola receber uma impressora 3D no fim de 2024. 

Inicialmente, os alunos foram incentivados a criar peças simples, mas a proposta evoluiu rapidamente. Segundo o professor Jayro, a turma foi desafiada a pensar em projetos com aplicação prática, momento em que a história da estudante inspirou a criação.

De acordo com reportagem do g1, a proposta começou com a produção de um único dedo. Outros grupos decidiram contribuir com novas partes, até que a ideia de montar uma mão completa tomou forma. O engajamento coletivo chamou atenção. “Quando foi falado para ajudar, todo mundo se uniu”, relembrou Maria Alice, em entrevista ao g1.

O resultado foi uma prótese mecânica articulada, feita com materiais mais leves e de baixo custo. Segundo os professores, é uma alternativa aos modelos disponíveis no mercado, que podem ultrapassar R$ 200 mil, especialmente no caso de próteses mioelétricas ou biônicas.

Durante o desenvolvimento, os estudantes enfrentaram desafios técnicos, como encontrar materiais que permitissem mobilidade sem comprometer a resistência. “Precisávamos de um material que permitisse a articulação dos dedos sem risco de fratura da peça ou de ruptura dos cabos durante o uso”, explicou Fabrício à Agência SP.

O projeto passou por diferentes versões até alcançar um modelo funcional. A primeira tentativa apresentava limitações, principalmente na movimentação dos dedos. “Só assim foi possível automatizar o movimento dos cabos responsáveis pela abertura e fechamento dos dedos”, afirmou Lucas também à Agência SP, ao explicar a necessidade de reposicionar o sistema acima do cotovelo.

Na versão atual, a prótese usa fios que funcionam como tendões, acionados pelo movimento do braço. O avanço já trouxe impactos concretos na vida da estudante. “Com esse segundo modelo, consegui segurar copos, objetos e realizar atividades simples do dia a dia que antes não conseguia, como prender os meus cabelos”, relatou Maria Alice.

Prótese foi criada com impressão 3D

Divulgação

Além da funcionalidade, o projeto teve impacto direto na vida pessoal da jovem. Antes mais reservada, ela afirma que a experiência ajudou a lidar com a própria condição. “Quando eu vi todo mundo se propondo a ajudar, eu vi que eu não estava sozinha”, disse. 

O processo de desenvolvimento durou cerca de nove meses ao longo de 2025 e envolveu também estudantes do curso técnico de Química, que auxiliaram na escolha de materiais adequados para a impressão 3D.

Atualmente, o grupo trabalha em uma terceira versão da prótese, com melhorias estruturais e maior flexibilidade. Há também planos de incorporar automação. A ideia é utilizar tecnologias para permitir o movimento dos dedos sem esforço físico, apenas com o acionamento de um botão.

O Adaptamão foi apresentado na 16ª edição da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps), principal evento de inovação das Etecs e Fatecs, econquistou o segundo lugar em uma competição internacional promovida pelo British Council. Mais do que um protótipo, o objetivo dos alunos é ampliar o acesso à tecnologia. A proposta é estabelecer parcerias com organizações para que a prótese possa beneficiar outras pessoas.

Ausência de membros superiores

Apesar da relevância do tema, ainda há escassez de dados específicos sobre pessoas sem membros superiores no Brasil. O Censo Demográfico de 2022, do IBGE, aponta que cerca de 14,4 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais, sem detalhar casos de amputação ou malformações congênitas.

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Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) indicam que amputações são relativamente frequentes no país, principalmente em decorrência de diabetes, problemas vasculares, traumas e infecções. Em 2022, foram registrados cerca de 31 mil procedimentos. Entre 2015 e 2020, mais de 10 mil amputações de membros superiores foram realizadas, sendo cerca de 4,3 mil na região da mão e punho.

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