As displasias esqueléticas formam um grupo heterogêneo de mais de 450 condições genéticas que comprometem o crescimento e o desenvolvimento de ossos e cartilagens. Elas podem provocar baixa estatura desproporcional, deformidades ósseas, complicações ortopédicas e neurológicas ao longo da vida.


Apesar do número expressivo de variantes descritas, muitas displasias esqueléticas ainda seguem desconhecidas pela sociedade – e até de parte da comunidade médica, o que retarda encaminhamentos e o início do cuidado especializado.


A mais frequente entre as displasias é a acondroplasia, causada por uma mutação no gene FGFR3 que reduz a velocidade do crescimento ósseo. A doença afeta aproximadamente 1 a cada 25 mil crianças nascidas vivas1 e cerca de 80% das crianças nascem de pais com estatura média2, em decorrência de uma mutação espontânea, ou seja, a condição pode surgir em qualquer família.


“Por muito tempo, tivemos pouco a oferecer além do manejo das comorbidades. A chegada de terapias que atuam na origem da doença muda esse paradigma e reforça por que o diagnóstico precoce é tão decisivo: quanto antes identificarmos a condição, mais cedo é possível intervir no curso do crescimento ósseo”, explica Wagner Baratela, geneticista e especialista em displasias esqueléticas, que coordenou um  simpósio sobre o tema, em junho, em São Paulo. 


Manejo para além da estatura


Durante décadas, o manejo da acondroplasia se concentrou em tratar sintomas e complicações, com poucas opções farmacológicas. Esse cenário mudou com a chegada de terapias específicas para a doença. O vosoritida, aprovado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2021, atua justamente no ponto em que o crescimento ósseo é freado na acondroplasia, estimulando a formação de osso e ajudando a reequilibrar a sinalização ligada ao gene FGFR3.


Essa melhora estrutural previne e alivia a dor crônica nos membros superiores e inferiores, além de evitar sintomas graves, como dormência. Adicionalmente, o desenvolvimento esquelético facial mais harmônico favorece o funcionamento da tuba auditiva, reduzindo significativamente as infecções e otites de repetição que ameaçam a audição na infância. Comorbidades muito comuns em pessoas que vivem com a acondroplasia.


Contudo, esse avanço ainda está distante de quem mais precisa, já que o tratamento não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Recentemente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) manteve a decisão de não incorporar na rede pública o único medicamento aprovado no Brasil - no caso, o vosoritida - para o tratamento da acondroplasia, mesmo depois que a consulta pública (CP) nº 12, obteve 14.266 contribuições em 20 dias corridos, uma das mais expressivas mobilizações sociais em torno do tema. 


“O benefício do tratamento não se restringe ao ganho de estatura. Ao favorecer um desenvolvimento esquelético mais harmônico, observamos reflexos diretos nas comorbidades que mais afetam o dia a dia, como as otites de repetição e as dores crônicas nos membros. É aí que enxergamos o verdadeiro impacto na qualidade de vida do paciente”, completa o geneticista.


Para além do aspecto puramente físico, os resultados dessa terapia reverberam de forma profunda no bem-estar emocional e na independência do paciente. Com o ganho de mobilidade e proporcionalidade, atividades cotidianas básicas tornam-se acessíveis, devolvendo a autonomia no autocuidado e reduzindo a frustração diária. Esse resgate da funcionalidade, combinado ao alívio das dores persistentes, diminui drasticamente a sobrecarga emocional crônica. Como resultado direto, há um suporte essencial na mitigação das repercussões psicossociais, como a ansiedade e a depressão, consolidando o tratamento como um pilar que transforma a qualidade de vida e complementa o acompanhamento multidisciplinar.

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“Quando o paciente recupera mobilidade e autonomia nas tarefas cotidianas, o ganho é também emocional. Reduzir a dor e devolver independência tem um peso enorme na saúde mental e na forma como a pessoa se relaciona com o próprio corpo”, destaca Baratela.


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