A amamentação é um processo natural, mas isso não significa que aconteça da mesma forma para todas as mulheres. Dificuldades na produção ou na retirada do leite podem surgir por diferentes motivos — e, muitas vezes, não têm relação com uma suposta incapacidade do corpo materno.



Segundo a ginecologista Ana Paula Fonseca, é importante evitar a ideia de que toda mulher deveria conseguir amamentar sem obstáculos simplesmente porque a produção de leite é fisiológica.


“Amamentar é natural, mas não necessariamente é fácil. A produção de leite depende de uma série de fatores hormonais, fisiológicos e também da própria dinâmica da amamentação. Quando existe uma dificuldade, isso não significa que o corpo da mulher ‘não funciona’”, explica.



A produção de leite depende de estímulos


Um dos principais mecanismos envolvidos na produção de leite é a retirada frequente e eficiente do leite das mamas. Quanto mais efetiva é essa retirada, maior tende a ser o estímulo para a produção.


Por isso, questões como pega inadequada, dificuldade de sucção do bebê, mamadas pouco frequentes ou problemas na transferência do leite podem fazer com que a mãe tenha a impressão de estar produzindo pouco.


“É muito comum a mulher interpretar qualquer dificuldade na amamentação como falta de leite. Mas precisamos avaliar o conjunto. Às vezes, existe leite sendo produzido, porém o bebê não consegue retirar adequadamente, ou a mama não está recebendo o estímulo necessário”, afirma.


Estresse e cansaço também podem atrapalhar


O período após o parto costuma envolver privação de sono, mudanças hormonais, ansiedade, dor e uma intensa adaptação à nova rotina. Esses fatores podem interferir principalmente na ejeção do leite, tornando mais difícil para o bebê obter o leite disponível.


“O estresse não deve ser usado para culpabilizar a mãe, como se ela tivesse que simplesmente ‘relaxar’. O puerpério é uma fase de muitas mudanças. A mulher precisa de acolhimento, descanso possível e apoio para que consiga estabelecer a amamentação”, ressalta a médica.


Alterações hormonais e condições de saúde


Algumas condições maternas também podem estar associadas a uma produção insuficiente de leite. Alterações da tireoide, síndrome dos ovários policísticos, diabetes, algumas alterações hormonais e determinadas cirurgias mamárias, por exemplo, podem interferir no processo em algumas mulheres.


Além disso, hemorragias importantes após o parto, retenção de restos placentários e outras intercorrências obstétricas podem, em situações específicas, comprometer a produção hormonal necessária para a lactação.


“Quando existe uma dificuldade persistente, é importante investigar. Não devemos resumir tudo à frase ‘você não tem leite’. É necessário entender se há uma causa materna, uma questão relacionada ao bebê, à pega, à frequência das mamadas ou à transferência do leite”, orienta Ana Paula.


Nem toda mama cheia significa mais leite e nem toda mama macia significa pouco leite


Outro motivo de preocupação entre as mães é perceber que, depois de algumas semanas, as mamas ficam menos cheias do que nos primeiros dias.


Isso, por si só, não significa que a produção tenha diminuído.


Com o estabelecimento da lactação, o organismo passa a ajustar a produção de acordo com a demanda do bebê. Assim, a sensação de mamas muito cheias ou de vazamento constante pode diminuir sem que isso represente necessariamente falta de leite.


“Uma mama mais macia não significa automaticamente que esteja produzindo pouco. A avaliação precisa considerar sinais objetivos, como o ganho de peso do bebê, a frequência das mamadas, a deglutição e a eliminação adequada de urina e fezes, de acordo com a idade”, explica a ginecologista.


A culpa pode ser um problema à parte


A pressão para que toda mulher amamente exclusivamente e sem dificuldades pode transformar um desafio fisiológico em uma experiência marcada por culpa e frustração.


Para Ana Paula, informação e suporte são fundamentais para evitar que a mãe interprete a dificuldade como um fracasso pessoal.


“A mulher precisa saber que ter dificuldade para amamentar não faz dela uma mãe melhor ou pior. O objetivo deve ser cuidar da saúde da mãe e do bebê e, quando houver desejo de amamentar, oferecer suporte adequado para identificar e tratar os obstáculos”, afirma.


Quando procurar ajuda?


Se houver dor persistente, fissuras, dificuldade de pega, bebê que não ganha peso adequadamente, mamadas muito prolongadas ou muito frequentes sem aparente satisfação, redução importante da eliminação de urina ou preocupação com a quantidade de leite, a orientação profissional é importante.


A avaliação pode envolver o pediatra, consultor ou profissional capacitado em amamentação e, quando necessário, o ginecologista ou obstetra, especialmente diante de suspeita de fatores maternos que possam interferir na lactação.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


“A dificuldade para amamentar merece ser investigada, não julgada. Quanto mais cedo identificamos o que está acontecendo, maiores são as possibilidades de oferecer uma estratégia individualizada para aquela mãe e aquele bebê”, conclui a ginecologista.


compartilhe