No primeiro trimestre de 2026, a inteligência artificial passou a ser utilizada por 17,8% da população mundial em idade ativa, segundo o relatório global AI Diffusion Report, da Microsoft. Em um cenário de crescimento acelerado da tecnologia, o Dia Mundial do Cérebro, celebrado em 22 de julho, convida à reflexão sobre os impactos desses novos hábitos no funcionamento cerebral.

No Brasil, o uso da IA também avança rapidamente. De acordo com um estudo divulgado pela OpenAI em 2025, o país está entre os três que mais utilizam o ChatGPT semanalmente, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. Os brasileiros enviam cerca de 140 milhões de mensagens por dia à plataforma, de um total superior a 2 bilhões de comandos diários em todo o mundo.

 

IA reduz esforço mental 

Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial aumenta a produtividade e simplifica tarefas cotidianas, pesquisas recentes indicam que seu uso excessivo pode reduzir o esforço mental quando a tecnologia passa a substituir — e não apenas apoiar — o raciocínio.

Um estudo conduzido pelo MIT Media Lab, nos Estados Unidos, acompanhou voluntários durante atividades de escrita realizadas de três formas: sem qualquer auxílio, com mecanismos de busca e com inteligência artificial. Os participantes que utilizaram IA apresentaram o menor nível de atividade cerebral, com redução de aproximadamente 47% no engajamento neural.

Segundo Philipe Marques da Cunha, neurologista e professor da Afya Educação Médica de Belo Horizonte, o uso frequente da IA pode favorecer um fenômeno conhecido como descarga cognitiva, em que parte do processamento mental é transferida para ferramentas externas.

"Isso reduz o esforço necessário para resolver tarefas e, quando ocorre de forma excessiva, pode limitar a aquisição de novas habilidades e enfraquecer competências já consolidadas. A maior dependência da IA está associada a menor capacidade de pensamento crítico, principalmente quando há aumento da fadiga cognitiva. O impacto, entretanto, depende da forma como a tecnologia é utilizada."

Outro dado observado pelos pesquisadores foi que mais de 83% dos usuários da inteligência artificial não conseguiram recordar trechos dos próprios textos poucos minutos após concluí-los. Já os participantes que escreveram sem o auxílio da tecnologia demonstraram melhor capacidade de lembrar e compreender o conteúdo produzido.

Apesar disso, Philipe ressalta que a redução da atividade cerebral não significa, necessariamente, pior desempenho. "Estudos de neuroimagem mostram que usuários de IA recorrem menos à recuperação ativa de informações e mais ao processamento orientado pela ferramenta. Isso pode reduzir o exercício da memória e do pensamento crítico quando há dependência excessiva. Por outro lado, quando usada como apoio, a IA pode favorecer a aprendizagem, a metacognição e a persistência na resolução de problemas. Portanto, a IA, quando bem utilizada, não atrapalha nossa função cerebral."

Tecnologia deve ampliar, e não substituir

O estudo do MIT também identificou uma redução gradual da conectividade cerebral à medida que aumentava o nível de suporte tecnológico. O grupo que realizou as atividades sem qualquer assistência apresentou as redes neurais mais ativas. Os participantes que utilizaram mecanismos de busca ficaram em posição intermediária, enquanto os usuários de inteligência artificial registraram o menor acoplamento neural.

Mesmo quando esse grupo deixou de utilizar o ChatGPT em uma etapa posterior da pesquisa, a ativação cerebral permaneceu inferior à observada entre os demais participantes.

Para Evandro Júnior, coordenador de Engenharia da Computação da Afya Montes Claros, a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta para ampliar as capacidades humanas, e não para substituir o pensamento.

"A principal forma de evitar a dependência é utilizá-la para reduzir tarefas mecânicas e repetitivas, preservando para o usuário as decisões, análises e julgamentos mais importantes. Uma reflexão prática que considero útil é perguntar: se a IA ficasse indisponível por uma semana, eu ainda conseguiria realizar meu trabalho, apenas de forma mais lenta? Se a resposta for sim, provavelmente a IA está funcionando como um acelerador de produtividade. Se a resposta for não, talvez seja o momento de revisar como essa tecnologia está sendo utilizada e quais competências precisam continuar sendo exercitadas."

Os pesquisadores também observaram que a utilização da inteligência artificial reduziu em cerca de 60% o tempo necessário para a realização das tarefas. Em contrapartida, houve uma queda de aproximadamente 32% na carga cognitiva durante o processo de aprendizagem.

Segundo Evandro, esse cenário torna ainda mais importantes competências essencialmente humanas, como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, comunicação, colaboração, ética e tomada de decisão baseada em contexto.

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"A IA pode contribuir significativamente para o desenvolvimento dessas competências quando utilizada para ampliar perspectivas, simular cenários, fornecer feedback rápido e automatizar atividades de baixo valor agregado. Assim como ocorreu com a internet, os mecanismos de busca e outras tecnologias, a vantagem competitiva continuará sendo das pessoas capazes de formular boas perguntas, interpretar criticamente as respostas e tomar decisões fundamentadas."

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