Um dispositivo ‘made in Minas’ de extrema relevância para a medicina, mais especificamente para o coração. Em Belo Horizonte, próximo a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a multinacional norte-americana Abbott, tem uma unidade em cujas dependências funciona uma empresa que confecciona e distribui produtos médicos para o mundo inteiro.

Das mãos de profissionais ultra qualificados são produzidas e suturadas válvulas biológicas cardíacas, capazes de prolongar a vida de pacientes com problemas cardiovasculares, como insuficiência aórtica ou regurgitação (quando a válvula não fecha perfeitamente, permitindo que o sangue bombeado retorne para dentro do coração de forma ineficiente) e estenose aórtica (quando a válvula fica rígida e estreitada, dificultando a abertura total e impedindo que o sangue saia do coração para o resto do corpo), alguns deles com sintomas como cansaço, falta de ar e dor no peito.

Foi o caso do primeiro paciente brasileiro a receber a nova válvula. Um homem de Santa Catarina fez o procedimento no último dia 27 de maio. De acordo com o cirurgião cardiovascular Sérgio Lima de Almeida, coordenador do Hospital SOS Cardio, de Florianópolis (SC), o primeiro implante no Brasil da válvula Epic Max foi em um policial militar, de 57 anos. 

SEM ANTICOAGULANTES

“Ele optou pela colocação do dispositivo biológico devido à sua profissão, evitando assim o uso de anticoagulantes. O que podemos dizer é que ele recebeu uma tecnologia extremamente moderna, que vem a se incorporar ao arsenal das próteses brasileiras com uma característica bastante significativa: o tamanho externo foi reduzido e o interno foi acrescido, fazendo com que o orifício seja mais efetivo e que a válvula seja mais longeva”, explica o médico. “O paciente apresentou uma ótima evolução pós-operatória, foi extubado nas primeiras horas de UTI humanizada, estava com sua família e teve alta esta semana, retornando às suas atividades normais nos próximos 30 dias.” 

Parte dos materiais utilizados para a confecção de válvulas cardíacas precisa permanecer submersa em soluções para hidratação e controle de carga microbiana. Suturas exigem técnica e concentração

ABBOTT/Divulgação

Sérgio Lima acrescenta que, no futuro, quando houver a necessidade de uma nova intervenção, não haja mais a necessidade de “abrir” novamente o paciente. Nesse caso, o termo utilizado é o “valve-in-valve” (válvula dentro de válvula), ou seja, caso a prótese apresente calcificações, por ser biológica, o procedimento será minimamente invasivo, já que uma nova prótese cardíaca é implantada percutaneamente (através da pele), dentro da válvula biológica já implantada. 

Para Túlio Magno de Melo Caldonazo, membro do Departamento de Cirurgia Cardio-Torácica do Hospital Universitário de Jena, na Alemanha, e que acompanhou o colega Sérgio Lima no procedimento, foi um caso bastante interessante. “Essa válvula tem uma nova geometria entre abertura e eficácia - o orifício geométrico que ela proporciona está diretamente ligado a baixos gradientes, o que concede a ela altas taxas de durabilidade, fácil manuseio e melhor sobrevida dos pacientes, independentemente do tamanho da válvula.”

CONFECÇÃO DAS VÁLVULAS

O processo de confecção das válvulas é longo e envolve etapas restritivas de controle para evitar qualquer tipo de contaminação. O treinamento de cada uma das fases dura, em média, quatro meses e cada um dos profissionais passa por testes que atestam a aptidão. Quem é habilitado nos treinamentos, recebe uma certificação, que é atualizada anualmente, quando são feitos novos testes. 

Válvula Epic Max é confeccionada à mão, a partir de amostras de porcinos (porcos) e bovinos

ABBOTT/Divulgação

Segundo Letícia Amorim, engenheira de manufatura da Abbott, as pessoas que foram treinadas - os operadores - precisam reproduzir o que aprenderam, ou seja, montar várias válvulas de tamanhos diferentes. Geralmente, a confecção da válvula demora cerca de dois meses até sair da fábrica e ser distribuída para fornecedores, entre clínicas e hospitais no Brasil e no exterior. 

Michelle Pedrosa, gerente do setor de engenharia de manufatura, explica as principais funções anatômicas das válvulas cardíacas. “Temos duas válvulas do lado esquerdo do coração: a mitral e a aórtica. A válvula mitral faz a ligação entre o átrio e o ventrículo. Já a válvula aórtica faz a abertura para que o sangue já oxigenado seja enviado para todo o corpo. O lado esquerdo do coração possui uma musculatura mais desenvolvida, mais hipertrofiada, porque é ele que precisa gerar a pressão necessária para enviar o sangue para todo o organismo”, comenta.

“Do outro lado, o direito, temos as válvulas tricúspide e pulmonar. A musculatura é menos desenvolvida, porque o sangue precisa percorrer apenas o caminho até os pulmões. Como o percurso é mais curto, a pressão necessária é menor. Por isso, as válvulas do lado esquerdo são mais exigidas e a maior parte das disfunções valvares ocorre justamente nas válvulas mitral ou aórtica.”

No caso da válvula Epic Max, sua atuação é na posição aórtica. “A válvula faz a ligação entre as câmaras cardíacas. Quando o sangue chega ao átrio, ela precisa fechar completamente para controlar o fluxo sanguíneo. Depois, ela se abre para permitir a passagem do sangue para o ventrículo, responsável por bombear o sangue para o corpo. Nesse processo, as válvulas precisam abrir e fechar continuamente para garantir que o sangue siga na direção correta. É esse mecanismo de abertura e fechamento que permite a circulação adequada.

A engenheira explica que, com o avanço da idade, por exemplo, as válvulas podem sofrer calcificação, ficando mais rígidas e perdendo a elasticidade. “Quando isso acontece, elas podem não abrir ou fechar completamente, permitindo que o sangue passe de forma inadequada entre as câmaras cardíacas.” É aí que entra a substituição da válvula.

FIXAÇÃO DE COLÁGENO

O material utilizado no dispositivo envolve partes de porcinos (porcos) e bovinos, que passam por um processo de fixação de colágeno para que possam ser manuseados, 100% do tempo em solução líquida, na etapa de produção.  

Unidade da Abbott, em BH, funciona próximo a UFMG, após incorporar o grupo St. Jude Medical

Nelson Kon/ABBOTT/Divulgação

Murilo Franco, diretor de operações da unidade BH da Abbott, explica que a válvula cardíaca remonta aos anos 1980. “A origem da válvula Epic que fabricamos hoje surgiu em 1981, quando o doutor Mário Vrandecic, fundador do Biocor Instituto, criou a Biocor Indústria de Implantes e também o hospital. Foi ele que desenvolveu a válvula Biocor, que deu origem à linha Epic. Em 1996, a Biocor Indústria foi adquirida pelo grupo norte-americano St. Jude Medical e em janeiro de 2017 a instituição foi incorporada ao grupo Abbott.”

Tecnicamente, a Epic Max é uma válvula biológica cardíaca feita de tecido animal, que substitui válvulas da aorta doentes ou que por quaisquer motivos não funcionam adequadamente. A válvula da aorta tem a função de controlar o fluxo sanguíneo que sai do ventrículo esquerdo do coração em direção à artéria aorta. Ela funciona como uma espécie de porta, que se abre para permitir a passagem do sangue para o resto do corpo, fechando-se em seguida para impedir que o sangue retorne ao coração. 

Ao longo das décadas, com as evoluções tecnológicas, a durabilidade da válvula atualmente é maior, assim como o fluxo de passagem do sangue, além de terem sido feitas melhorias na parte hemodinâmica e no design do produto, o que facilitou a implantação da válvula por parte dos médicos e, consequentemente, mais qualidade de vida para o paciente.

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