Há mais de duas décadas, ele atua na cirurgia pediátrica, seja na indústria farmacêutica, seja ocupando cargos de liderança estratégica focados em assuntos médicos, na gestão de equipes multifuncionais ou em iniciativas de treinamento médico. Em entrevista ao Estado de Minas, Tiago Silva fala sobre os altos índices de mortalidade materna registrados no Brasil e sobre os desafios que envolvem o tema, desde pôr um freio nos altos índices de mortes evitáveis até reduzir os níveis de complicações no pré, durante e o pós-parto. 

Mesmo com avanços na medicina e no acesso à informação, por que a mortalidade materna ainda é um desafio tão grande no Brasil?

Segundo dados preliminares de 2024, a razão de mortalidade materna no país foi de 50,57 óbitos por 100 mil nascidos vivos – número que ainda está acima da meta estabelecida para 2030, que é de 30 mortes por 100 mil nascimentos. Estima-se que nove em cada 10 mortes maternas seriam evitáveis com a implementação de medidas e recomendações eficazes, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Como a maioria dessas mortes ainda é considerada evitável, o problema está na demora para reconhecer os sinais de alerta, nos erros de avaliação clínica e na falta de protocolos bem implementados nas maternidades. Somado a isso, a desigualdade no acesso a serviços de saúde de qualidade agrava ainda mais esse cenário. O Brasil não carece apenas de conhecimento científico, carece da aplicação consistente de um conhecimento efetivo na prática diária.

Quais são hoje as principais causas de morte materna no país e como essas ocorrências poderiam ser evitadas?

As duas principais causas de morte materna no Brasil são a eclâmpsia – complicação grave da pressão alta na gravidez – e a hemorragia pós-parto – sangramento excessivo após o nascimento do bebê. Ambas lideram os índices de mortalidade materna no país e são consideradas amplamente evitáveis. A eclâmpsia, quando identificada na fase anterior,  chamada de pré-eclâmpsia, pode ser monitorada e tratada antes de evoluir para uma situação de risco de vida. A hemorragia pós-parto, por sua vez, responde bem ao tratamento quando reconhecida e manejada rapidamente, nos primeiros minutos após o parto. O que leva a desfechos fatais é a demora no diagnóstico, a falta de preparo da equipe assistente e a ausência de protocolos claros de resposta rápida dentro das maternidades. Quando esses três elementos falham, o tempo perdido pode ser fatal.

De que forma um pré-natal adequado contribui para reduzir riscos durante a gestação, o parto e o pós-parto?

O pré-natal é uma das principais ferramentas para a prevenção da morte materna, permitindo identificar precocemente condições de risco como anemia, pressão alta, diabetes gestacional e distúrbios da coagulação – fatores que, se não tratados, aumentam significativamente as chances de complicações graves no parto e no pós-parto. Um pré-natal adequado também permite planejar o local e a forma do parto de acordo com o risco de cada gestante, garantindo que mulheres com maior risco sejam atendidas em serviços com estrutura e equipe compatíveis com suas necessidades. Além disso, é no pré-natal que a mulher recebe orientações sobre os sinais de alerta que devem motivar uma ida imediata ao serviço de saúde, tanto durante a gravidez quanto após o parto. O problema é que ter acesso ao pré-natal não é suficiente – ele precisa ser realizado no número mínimo de consultas recomendado, com qualidade e continuidade. Um pré-natal incompleto ou mal conduzido oferece uma falsa sensação de segurança e pode deixar passar riscos importantes. 

Tiago Silva

Arquivo pessoal

Quais sinais de alerta na gravidez e puerpério precisam ser observados com mais atenção pelas mulheres e pelos profissionais de saúde?

Alguns sintomas exigem atenção imediata – tanto por parte das mulheres quanto dos profissionais de saúde. Durante a gravidez, é essencial ficar atento a quadros de pressão alta ou dor de cabeça intensa que não melhora, inchaço súbito no rosto, nas mãos ou nos pés e alterações visuais, como visão turva ou flashes de luz. Também demandam avaliação urgente o sangramento vaginal em qualquer fase da gestação, dor abdominal intensa e persistente, febre alta ou sinais de infecção, além da redução ou ausência dos movimentos do bebê. Já no parto e no pós-parto, os sinais de alerta passam a incluir o sangramento vaginal excessivo após o nascimento, pressão muito alta ou convulsões, além de febre, calafrios ou sinais de infecção. É crucial estar atento ainda a dificuldade para respirar ou dor no peito, confusão mental ou perda de consciência e, por fim, dor intensa e persistente no abdômen ou na região uterina.

Pré-eclâmpsia, hemorragias pós-parto e infecções seguem entre as principais complicações obstétricas. Por que essas condições ainda representam um risco tão elevado?

Essas três condições seguem representando um risco elevado porque, na prática clínica, ainda existem falhas sistemáticas que transformam complicações tratáveis em mortes evitáveis. No caso da pré-eclâmpsia, ocorre uma elevação perigosa da pressão arterial na gravidez que, quando não tratada a tempo, pode evoluir para eclâmpsia – quadro acompanhado de convulsões, falência de órgãos e risco de morte.

Como seus sinais iniciais são facilmente subestimados, a janela entre o diagnóstico tardio e um agravamento da situação pode ser muito curta. Já a hemorragia pós-parto, segunda causa de morte materna no Brasil, caracteriza-se por um sangramento excessivo após o parto que pode evoluir rapidamente para um choque grave. Embora a resposta clínica precise ser imediata, ela frequentemente é atrasada pela dificuldade em quantificar o volume de sangue perdido e pela falta de protocolos e insumos disponíveis. Por fim, as infecções puerperais, que são perfeitamente tratáveis com antibióticos, ainda matam quando o diagnóstico é tardio ou o tratamento é inadequado – um risco que aumenta significativamente em ambientes com infraestrutura deficiente e falhas no controle de infecção.

Como as desigualdades sociais, raciais e regionais impactam diretamente os índices de mortalidade materna no Brasil?

A mortalidade materna no Brasil apresenta distribuição desigual segundo raça, renda e região – e os dados evidenciam essa disparidade de forma consistente. A razão de mortalidade materna entre mulheres pretas é de 100,38 óbitos por 100 mil nascidos vivos, contra 46,56 entre mulheres brancas – diferença que reflete desigualdades no acesso ao pré-natal de qualidade, maior exposição ao racismo institucional e maior prevalência de condições de risco não identificadas precocemente. Do ponto de vista regional, as regiões Norte e Nordeste registram as maiores razões de mortalidade materna do país, associadas à menor densidade de serviços obstétricos de referência e à maior dificuldade de acesso à assistência qualificada. Baixa escolaridade e vulnerabilidade socioeconômica, por sua vez, estão diretamente relacionadas à pré-natal inadequado, diagnóstico tardio e menor capacidade de reconhecimento dos sinais de alerta – fatores que amplificam o risco de desfechos graves. 

O pós-parto costuma receber menos atenção do que a gestação. Quais cuidados são fundamentais nesse período para evitar complicações graves?

O puerpério, período de até 42 dias após o parto, concentra parte significativa das mortes maternas, sendo uma das fases mais vulneráveis e menos assistidas da saúde materna. Os cuidados essenciais incluem a consulta puerperal precoce (até 72 horas nas pacientes de maior risco) com avaliação ativa de sangramento, infecção, hipertensão persistente e sinais de depressão pós-parto. A monitorização da pressão arterial deve ser mantida mesmo após o parto, já que o risco de eclâmpsia não cessa com o nascimento do bebê. A continuidade do acompanhamento medicamentoso e a educação da mulher sobre os sinais de alerta –  febre, sangramento excessivo, dor intensa e alterações neurológicas – são igualmente determinantes. O pós-parto exige a mesma atenção clínica e estrutura assistencial dedicadas à gestação. Fragmentar esse cuidado é um dos fatores que contribuem diretamente para mortes evitáveis. 

Quais medidas e políticas públicas poderiam ajudar o Brasil a atingir a meta de redução da mortalidade materna?

A meta brasileira para 2030 é reduzir a mortalidade materna para no máximo 30 óbitos por 100 mil nascidos vivos – um desafio que exige atuação simultânea em múltiplas frentes. Nesse sentido, em junho de 2025, o Ministério da Saúde criou o Comitê Nacional de Prevenção da Mortalidade Materna, Fetal e Infantil, com caráter técnico-científico e consultivo, voltado ao diagnóstico da situação atual, ao monitoramento de políticas públicas e à proposição de estratégias intersetoriais. No âmbito da Rede Alyne, do SUS, o governo federal prevê um investimento de R$ 1 bilhão em 2025, contemplando um novo modelo de financiamento por nascido vivo, a triplicação do repasse para exames de pré-natal e a expansão da cobertura de média e alta complexidade com equipes especializadas em atendimento materno 24 horas. Para além dos investimentos financeiros, as medidas de maior impacto comprovado incluem a implementação de protocolos assistenciais padronizados para hemorragia pós-parto e pré-eclâmpsia em todas as maternidades, aliada à capacitação contínua das equipes de saúde para o reconhecimento precoce e a resposta rápida às emergências obstétricas.

Destaca-se também a importância da qualificação e da ampliação do pré-natal, com a incorporação de novos exames e o uso de ferramentas digitais de monitoramento. Outro ponto crucial é a redução das desigualdades raciais e regionais no acesso à assistência obstétrica de qualidade, juntamente com o fortalecimento da consulta puerperal como uma etapa obrigatória e estruturada do cuidado materno. Por fim, a literatura científica reforça que as intervenções para a redução da mortalidade materna não são responsabilidade exclusiva do setor de saúde – a promoção da maternidade segura exige atenção aos determinantes sociais do problema.

Quais avanços nos exames laboratoriais e nos métodos de diagnóstico têm contribuído para identificar complicações obstétricas de forma mais rápida e segura nos últimos anos?

Hoje, já é possível identificar, ainda no primeiro trimestre, gestantes com maior risco de pré-eclâmpsia por meio da combinação de exames de sangue, medição da pressão arterial e ultrassonografia com Doppler. Na hemorragia pós-parto, tecnologias como a tromboelastometria rotacional (Rotem) avaliam em tempo real como o sangue da paciente está coagulando – orientando o uso preciso e individualizado de hemoderivados. Biomarcadores específicos no sangue permitem detectar distúrbios de coagulação, infecções graves e o risco de pré-eclâmpsia antes mesmo da manifestação clínica. E a disponibilização de testes laboratoriais no próprio ponto de atendimento reduziu drasticamente o tempo entre a coleta e o resultado, acelerando decisões críticas em emergências obstétricas. Em conjunto, esses avanços representam uma mudança fundamental: da reação tardia à resposta precoce, precisa e baseada em evidências.

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