Quando se pensa em gravidez de risco, a atenção médica e familiar costuma se voltar para os nove meses de gestação e o momento do parto. No entanto, o Registro Brasileiro de Cardiopatia e Gravidez (REBECGA), um estudo multicêntrico publicado na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia, alerta que a prevenção de óbitos maternos deve incluir abordagens mesmo depois que o bebê nasce.
Os dados do REBECGA, que acompanhou 638 gestantes com doenças cardíacas, revelam que mais da metade dos óbitos maternos (55,5%) aconteceu no puerpério (até 42 dias após o parto) e quase 28% ocorreram ao longo dos 12 meses seguintes.
Atualmente, as doenças cardiovasculares, que afetam cerca de 4% das gestações, representam a principal causa indireta (não obstétrica) de morte materna no Brasil, estando associadas a 15% a 20% dos óbitos. No entanto, o estudo ressalta que 80% delas são evitáveis, sendo atribuídas à falta de diagnóstico precoce, à ausência de tratamento especializado e a falhas gerais no sistema de saúde.
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Outro fator de impacto é a baixa conscientização sobre os riscos cardíacos durante a gravidez. O estudo destaca que 40% dos óbitos poderiam ser evitados especificamente se houvesse uma melhor compreensão sobre os riscos que a gravidez impõe à mulher.
O que acontece com o coração na gestação?
Mas, afinal, por que o coração feminino sofre tanto impacto? Segundo o cardiologista Carlos Japhet, presidente do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a resposta está nas adaptações que o corpo precisa fazer para gerar uma vida. Durante a gestação, ocorre um aumento do volume de sangue de 40% a 50%, além da elevação do débito cardíaco, ou seja, quando o coração passa a trabalhar mais e bombear uma quantidade maior de sangue para atender às demandas metabólicas tanto da mãe quanto do feto.
"A gestação é como um teste de estresse fisiológico natural. Em mulheres previamente saudáveis, essas mudanças tendem a ser bem toleradas. Mas, se houver problemas no coração preexistentes, a mãe pode ter complicações sérias, como insuficiência cardíaca e arritmias", complementa.
O REBECGA confirmou essa sobrecarga, apontando que a insuficiência cardíaca foi a principal complicação enfrentada pelas gestantes brasileiras (16,7%), seguida pelas arritmias (10,7%).
O cardiologista destaca que identificar esses problemas no pré-natal permite uma avaliação de risco mais cedo, podendo mudar os cuidados com a mulher depois do parto. “Para reduzir a mortalidade, assim como as complicações cardiovasculares ao longo da vida da mulher, é fundamental a continuidade do cuidado no chamado 'quarto trimestre', garantindo que a mulher mantenha vínculo com o sistema de saúde após o parto", pontua.
O avanço da cardiopatia congênita
Outro dado que chama a atenção no estudo é a transição epidemiológica no país. As cardiopatias congênitas já representam 35,7% dos diagnósticos em gestantes cardiopatas no Brasil, superando os 19,1% registrados na década de 1990. A condição é caracterizada por uma malformação estrutural que afeta a funcionalidade do coração.
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A boa notícia é que, de acordo com o REBECGA, essas malformações apresentaram um menor risco de complicações durante a gravidez. O principal motivo é que a maioria delas (74,1%) já havia passado por cirurgias corretivas antes de engravidar. No entanto, a SBC alerta que a falta de intervenção precoce na infância pode ser fatal na gravidez adulta, reforçando a necessidade do diagnóstico precoce e do planejamento familiar.
