Toda campanha de vacinação repete um roteiro já conhecido: enquanto postos e clínicas se preparam para ampliar a proteção da população brasileira, redes sociais voltam a ser inundadas por mensagens enganosas sobre supostos riscos que as vacinas trariam para a saúde.
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Para ajudar a separar mito de realidade, infectologistas explicam cinco boatos que insistem em circular — e porque eles não se sustentam
1. “Vacina da gripe causa gripe”
É provavelmente a fake news mais repetida a cada temporada. Mas a explicação científica é direta: as vacinas contra gripe aplicadas no Brasil utilizam vírus inativados ou apenas fragmentos virais. Ou seja, não conseguem provocar a doença.
O que algumas pessoas sentem após a dose são sinais esperados de resposta imunológica após a vacinação, como dor no braço, cansaço leve ou febre baixa por curto período. No Brasil, a campanha pública utiliza principalmente a vacina trivalente, que protege contra três cepas do vírus e é destinada aos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, como idosos, crianças, gestantes, puérperas, profissionais de saúde e pessoas com comorbidades. Na rede privada, também há a vacina influenza de dose elevada (influenza high-dose), indicada para pessoas 60+, que eleva a resposta vacinal nesse grupo etário.
“A vacina não provoca gripe porque não contém vírus capaz de se replicar. Muitas vezes, a pessoa já estava incubando outro vírus respiratório ou interpreta uma reação leve como doença, o que gera confusão frequente nesta época do ano”, afirma a coordenadora de vacinas.
2. “Vacina tem substâncias tóxicas”
Outro boato comum envolve nomes químicos usados fora de contexto. Um dos mais citados é o timerosal, conservante presente em algumas apresentações multidoses para impedir contaminação por fungos e bactérias depois da abertura do frasco. Segundo a Anvisa, o componente é empregado dentro de limites considerados seguros e avaliados por órgãos regulatórios.
“É comum usar nomes complexos para causar alarme, mas toda substância presente nas vacinas tem função específica, quantidade controlada e avaliação rigorosa. Segurança se mede por evidência científica, não por mensagens virais em redes sociais”, diz Guenael Freire, infectologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, em Minas Gerais.
3. “Vacina chega rápido demais ao mercado”
A ideia de que vacinas são liberadas sem testes comprobatórios relacionados à eficácia e segurança também aparece com frequência. Mas, na prática, o caminho é longo: pesquisa inicial, estudos clínicos, análise regulatória, inspeção industrial, controle de qualidade e monitoramento contínuo após o início do uso.
Mesmo depois de aprovadas, seguem sendo acompanhadas por sistemas de farmacovigilância que investigam eventos adversos reportados. “Poucos produtos de saúde passam por tantas etapas de validação quanto às vacinas. Além dos estudos clínicos, existe controle de fabricação e monitoramento permanente após o uso em larga escala”, explica Rosana Richtmann, infectologista do Exame, no Distrito Federal.
4. “Se tomei no ano passado, não preciso tomar de novo”
No caso da gripe, essa lógica não vale. O vírus sofre mudanças frequentes e, por isso, a composição da vacina é revisada todos os anos para acompanhar as variantes com maior chance de circular em cada temporada.
Para a campanha de 2026, a vacina foi atualizada para ampliar a proteção contra as versões mais recentes em circulação, entre elas, o H3N2. Essa revisão anual funciona como um ajuste para manter a imunização mais alinhada ao cenário epidemiológico.
O H3N2 é uma variante que costuma preocupar mais por estar associada a quadros respiratórios mais intensos, principalmente em idosos e pessoas com a saúde mais fragilizada. Neste ano, o avanço desse vírus já acendeu alerta no país.
Dados do boletim InfoGripe indicaram 187 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave entre 4 de janeiro e 28 de março relacionadas a casos confirmados desse grupo viral, além de crescimento recente nos registros.
Os sintomas costumam incluir febre alta, dor no corpo, cansaço intenso, tosse e dor de garganta. Em pacientes vulneráveis, porém, a evolução pode ser mais rápida, com risco de pneumonia, falta de ar e internação. “A dose anual não é repetição desnecessária. Ela acompanha a mudança do vírus e atualiza a proteção da população diante das cepas que realmente estão circulando naquele momento”, afirma Alberto Chebabo, infectologista do Alta Diagnósticos no Rio de Janeiro.
5. “Gripe é uma doença simples e não precisa de vacina”
Tratar a gripe como algo banal é um erro comum. Embora muitos casos sejam leves, a doença pode provocar febre alta, dores no corpo, tosse intensa, exaustão e complicações como pneumonia, piora de doenças cardíacas e respiratórias, além de internações.
Os grupos de maior risco incluem idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e imunossuprimidos. “Quando se banaliza a gripe, ignora-se seu potencial de gravidade. Todos os anos vemos internações e descompensação de doenças pré-existentes que poderiam ser reduzidas com vacinação adequada”, ressalta Maria Isabel.
Além da prevenção, o diagnóstico laboratorial tem papel fundamental na condução adequada dos casos. “A confirmação da influenza por meio de testes laboratoriais permite diferenciar a gripe de outras infecções respiratórias com sintomas semelhantes e possibilita a indicação mais assertiva de antivirais, especialmente nos pacientes de maior risco. Esse direcionamento reduz complicações, evita uso desnecessário de antibióticos e contribui para melhores desfechos clínicos”, destaca Annelise Correa Wengerkievicz Lopes, patologista clínica e diretora médica do Laboratório Santa Luzia, de Florianópolis (SC).
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A recomendação é consultar fontes oficiais, como Anvisa, Ministério da Saúde e sociedades médicas reconhecidas. Em tempos de excesso de conteúdo, checar a procedência da informação pode ser tão importante quanto lembrar da próxima dose. “Vacinar-se é uma escolha que protege o indivíduo e reduz a circulação do vírus na comunidade. Quanto maior a cobertura, menor o impacto da doença nos serviços de saúde e nos grupos vulneráveis”, conclui Rosana Richtmann, infectologista do Exame
