A sobrecarga materna não é destino biológico, é construção social, como aponta o livro “O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna”, da Editora Appris. Escrita pelos pesquisadores Laura Elisa Nascimento Vieira e Cláudio Márcio do Carmo, a obra mostra como a desigualdade de gênero se cristaliza nas relações parentais, inclusive na própria legislação brasileira. A obra conecta história e ciências sociais, e reflete como o discurso jurídico contribui para manter desigualdades nas relações parentais no Brasil. “Ao conceder à mãe determinados 'benefícios' em função dos filhos, a legislação reconhece que tal obrigação é materna e não parental”, diz Laura, mestre em letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
Para os autores, há uma dupla interpretação da situação, sendo uma que reconhece a importância de leis que promovam e garantam o direito à empregabilidade das mulheres, “e outra que oculta, a partir da própria lei, a manutenção da dupla jornada de trabalho e sobrecarga”, acrescenta Cláudio, que é professor de linguística e língua portuguesa da UFSJ.
O livro inclui uma análise não apenas do texto da lei, mas das manchetes e notícias que repercutiram sua publicação. O resultado revela um dado simbólico: a ausência de estranhamento público diante da associação direta entre mulher e maternidade. “A forma como nomeamos as coisas importa. Maternidade não pode ser substituta de parentalidade. Utilizar um termo em troca do outro não faz as pessoas assumirem responsabilidades que culturalmente não lhes são designadas”, afirma Laura.
A obra cita situações aparentemente banais, mas reveladoras, como fraldários instalados apenas em banheiros femininos ou símbolos gráficos que associam o cuidado exclusivamente à figura da mulher. “Cito também os elogios desproporcionais que alguns pais recebem por serem participativos nas rotinas dos seus filhos, como se isso não fosse da sua responsabilidade”, diz Cláudio.
Para ele, esses sinais reforçam a centralidade materna e ajudam a sustentar a chamada “dupla jornada”. Mais do que um livro acadêmico, “O filho é da mãe” se apresenta como um convite ao debate público, dirigido a mães, pais, profissionais do direito e formuladores de políticas públicas. “A transformação social só acontece quando o incômodo é nomeado. Para mudar a cultura, precisamos discutir a desigualdade nas relações parentais e repartir, de fato, a responsabilidade pelas próximas gerações”, diz Laura.
Serviço
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• Livro: O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna
• Autores: Cláudio Márcio do Carmo e Laura Elisa Nascimento
• Editora: Appris
• Páginas: 156
• Preço: R$ 58
• Onde encontrar: editoraappris.com.br/; Amazon
