O Juntô – iniciativa no Brasil do Global Center da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute (CMI) – e o Instituto Felipe Neto anunciaram esta semana, os vencedores do concurso Bem na Rede: Competição para o Uso Saudável da Tecnologia, que convidou jovens brasileiros de 16 a 20 anos a criarem intervenções digitais escaláveis, com o objetivo de promover um uso da tecnologia mais saudável e intencional.


Os jovens premiados, que verão suas criações ajudando jovens em todo o país, são: João Marcos Almeida dos Santos, de Arapiraca (AL); Lindaiane de Souza Santos, de Fortaleza (CE); e Larissa Thomas Martins de Siqueira, de São José dos Campos (SP). Eles receberão prêmios de R$ 5 mil, R$ 4 mil e R$ 3 mil, respectivamente.

De regulação emocional e autoestima à navegação pelo universo digital com limites saudáveis, os projetos inscritos cobrem um espectro vasto dos temas relacionados à saúde mental das pessoas jovens. Todo esse trabalho foi viabilizado e desenvolvido na plataforma digital Curious, do Child Mind Institute.

A tecnologia como lugar bom

“Quando criança eu era apaixonado por jogos digitais, trends e tudo que o algoritmo me mandava. Na pandemia, me isolei ainda mais. Ficava no celular o dia todo, noites sem dormir, mal-estar, sem conversar de verdade com ninguém. Quando as aulas voltaram, foi um choque: eu não era mais a mesma pessoa”, conta João Santos.

“Meu projeto fala dos principais desafios do uso excessivo das redes e desses algoritmos que nos prendem por horas sem a gente perceber. Espero que meu projeto ajude outros jovens a terem o mesmo autoconhecimento que eu tive, mudarem seus hábitos online, saberem pedir ajuda quando precisam e a entenderem que é possível transformar a tecnologia num lugar bom”.

Lindaiane de Souza Santos, de Fortaleza (CE)

Arquivo pessoal

Carolina Costa, gerente do Global Center no Brasil, destaca a qualidade das intervenções inscritas. “Recebemos projetos excelentes, o que demonstra o imenso potencial dos jovens para criar soluções reais para a sua própria geração. As propostas foram avaliadas tecnicamente por especialistas em Intervenções de Sessão Única e em experiência do usuário, além de passarem pelo crivo de outros jovens que analisaram as chances de adoção do projeto pela juventude. A exigência por evidências científicas foi um diferencial, garantindo que os finalistas apresentassem estratégias sólidas e validadas”, afirma Costa.

“Muitas vezes, a capacidade de realização dos jovens é subestimada, mas este processo de seleção provou o contrário: quando recebem a oportunidade de criar, eles entregam excelência. Selecionar os melhores foi uma tarefa difícil para o nosso painel."

Estímulo à reflexão positiva

A competição segue o modelo da Intervenção de Sessão Única (SSI, na sigla em inglês). As SSIs são encontros estruturados e pontuais, criados para oferecer apoio ou tratamento significativo em apenas uma sessão. São intervenções baseadas em evidências, flexíveis, acessíveis e capazes de reduzir significativamente o sofrimento ou melhorar a saúde mental, pois estimulam a pessoa a dar um próximo passo concreto.

Larissa Thomas Martins de Siqueira, de São José dos Campos (SP)

Arquivo pessoal

O desafio é simples e o produto final é uma experiência guiada, em que o usuário responde a perguntas e vê vídeos e imagens que estimulam reflexão positiva ou ações concretas para melhorar sua saúde mental.
“Nosso objetivo é incentivar a criatividade e o poder transformador das novas gerações na construção de um futuro digital mais saudável e humano”, afirma Camilo Coelho, diretor de comunicação do Instituto Felipe Neto. “Essa competição faz parte de um esforço para engajar os jovens em iniciativas de saúde mental que reflitam suas experiências e atendam às necessidades em constante evolução de seus pares”.

Sobre as intervenções 

Libélulas

Este projeto criado por João Marcos Almeida dos Santos, de Arapiraca (AL), funciona como um formulário interativo com perguntas profundas, feitas para fazer a pessoa pensar, se autoanalisar, se autocriticar de forma gentil, sem julgamento, de um jeito que acolhe, convida à reflexão honesta, tocando nos medos reais (comparação, ansiedade) e também na esperança. Ao final, o sistema gera um relatório personalizado, que traz uma análise das respostas, aponta padrões, vulnerabilidades, mas principalmente forças e possibilidades de mudança, com um plano simples, concreto, adaptado à realidade da pessoa. É educação pelo exemplo, pela empatia, pela metáfora viva da libélula que, mesmo ameaçada, voa livre e brilha. É um convite para que paremos de ser apenas usados pela internet e passemos a usá-la de forma consciente, positiva, criativa.

Troca de piloto

O projeto aborda como as redes sociais podem parecer exaustivas — e muitos acreditam que isso é proposital, já que o vício nelas tem sido comparado a sistemas de recompensa baseados em dopamina. O que Lindaiane de Souza Santos, de Fortaleza (CE), criou é um guia para sair desse ciclo. Ela acredita que os aplicativos de redes sociais acionam dois botões no cérebro dos adolescentes: o botão do pânico (o medo de estar perdendo algo ou de não estar à altura) e o buscador de recompensas (sempre em busca da próxima curtida, notificação ou rolagem de tela). Em vez de ficar preso em um loop interminável, o aplicativo ensina os usuários a acionar o modo de calma. O objetivo central é ensinar os usuários a acessar deliberadamente o sistema de autorregulação responsável pela sensação de segurança. O projeto busca cultivar a autocompaixão: ao serem convidados a aconselhar um amigo em uma situação semelhante à sua, os participantes praticam a transição do crítico interior para o aliado interior.

Transforme

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O projeto de Larissa Thomas Martins de Siqueira, de São José dos Campos (SP), tem como ponto central a ideia de estimular o jovem a refletir sobre quem é ele, quais são suas emoções, interesses, e como as redes sociais podem ser usadas nessa busca pelo autoconhecimento. À medida que o usuário vai navegando pela intervenção criada por ela, ele se depara com dados sobre os preocupantes índices de saúde mental no Brasil, perguntas sobre o tempo gasto em redes sociais e informações sobre como o algoritmo atua para nos viciar. Tudo para estimular reflexões e perguntas sobre como o uso das redes afeta os jovens e desenvolver hábitos online saudáveis.

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