Entrevista/Beto Veríssimo (Engenheiro agrônomo, pesquisador sênior e co-fundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia)
Quais são os desafios para a reversão do processo de desmatamento e degradação da Floresta Amazônica?
Trata-se daquilo que nós pesquisadores denominamos de o “paradoxo” da Amazônia. São três grandes problemas que, ao mesmo tempo, são a base para a solução. O primeiro é que a Amazônia tem desmatamento acumulado nos últimos 50 anos muito grande; 60% da área desmatada estão subaproveitados, com pecuária de baixíssima produtividade; 30% estão abandonados (desmatado mas sem uso econômico); e apenas 10% têm uso agronômico.
Então desmatamos muito e mal, para nada ou para muito pouco. A grande parte está abandonada ou subaproveitada. Isso significa que no futuro, nesta década e na próxima, não precisa desmatar nada para produzir. Ao mesmo tempo, parte do que desmatou precisa voltar a ser floresta, por razão econômica inclusive, pois existe um mercado de carbono que paga para você plantar floresta.
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A qual instituição cabe, em sua avaliação, a coordenação desse processo para a recuperação da Amazônia?
Ao governo federal, sempre. A Amazônia representa quase 60% do território nacional e é outro Brasil. Tudo o que você pensar do Brasil, na Amazônia é diferente. Na Amazônia o papel do governo é decisivo e o setor privado, por enquanto, é complementar.
Então tudo o que eu falar depende do governo. Tem de desenhar uma política, os agentes econômicos entram a partir do momento em que o governo coordena. Qualquer solução da Amazônia parte do governo, diferentemente por exemplo de Minas Gerais, em que as terras estão privatizadas, sabemos a quem pertence a maior parte de cada pedaço de chão. O papel do governo em Minas é importante, mas não é único.
Que avaliação faz da atuação do governo Bolsonaro nos últimos quatro anos na Amazônia e o que é possível esperar do atual governo?
O governo Bolsonaro foi desastroso para a Amazônia: aumentou o desmatamento, aumentou o garimpo, a extração ilegal de madeira, aumentou queimadas e a ilegalidades. O Bolsonaro tinha um projeto claramente anti-Amazônia. Ele explicou, reiterou inúmeras vezes que ele não ia combater o desmatamento. Então era inimigo da floresta.
Os problemas pioraram e pioraram muito. Acho quase impossível piorar como ele piorou. Todos os outros governos que já passaram, desde Sarney - José Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique 1 e 2, Lula 1 e 2, Dilma 1, 2 e Temer, todos os governos em diferentes intensidades procuraram combater o desmatamento. O único governo que jogou contra a floresta foi o de Bolsonaro.
Então, pelas escolhas feitas pelo governo Lula até agora, os compromissos assumidos e pelos pronunciamentos que fez nas conferências e as ações já tomadas, mostram que claramente que foi dada guinada expressiva em relação ao governo Bolsonaro. E acho que qualquer outro candidato eleito faria o mesmo em tons diferentes. Todos os governos democráticos sabem que a destruição da Amazônia é algo irracional.
Isso prejudica profundamente o Brasil, desde a imagem do Brasil no mundo, inclusive as nossas relações comerciais com o mundo corriam o risco de ser retaliadas. Inclusive boicote que começou a acontecer na produção de couro bovino: simplesmente não importa se a fábrica, o curtume está no Rio Grande do Sul ou na Amazônia. Então a Amazônia virou uma questão existencial.
Amazônia 2030
Iniciativa de pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia Brasileira. Mais informações no site amazonia2030.org.br