Jornal Estado de Minas

SITUAÇÃO SE AGRAVA

Três estados declaram colapso na saúde: RS, BA e SC

Governadores e profissionais responsáveis pela saúde do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Bahia alertam para o colapso dos sistemas de saúde dos três estados. Os leitos de UTI têm ocupação recorde desde o início da pandemia e, para evitar que a situação fique ainda mais grave, autoridades decidem adotar medidas mais restritivas. O objetivo é impedir que a transmissão do coronavírus acelere e que os hospitais não consigam atender aos pacientes. 




 
 

Rio Grande do Sul


O cenário do combate à COVID-19 que se aproxima no Rio Grande do Sul é assustador e especialistas em saúde tentam convencer prefeitos e o governador do estado a adotar medidas mais drásticas para conter o avanço da doença. Nesta quinta-feira (25/2), a secretária de Saúde estadual Arita Bergmann comparou o pico de contágios e mortes pelo vírus num futuro próximo ao monte Everest, montanha de maior altura na Terra. 

“Estamos aqui apavorados”, comentou a gestora da pasta ao delinear a alta nos números antes de alertar: “Não haverá leitos de UTI”.
 
A advertência da secretária de Saúde ocorreu em reunião com prefeitos de cidades gaúchas. O governo estadual detalhou números e apontou o caos se avizinhando aos municípios no Rio Grande do Sul. 

"Não haverá leitos, especialmente de UTI, para atender a demanda, que é crescente. Crescente a ponto de nos deixar com uma lista de espera", explicou Arita. 
 
A conjuntura exposta pelo governo gaúcho é de colapso iminente. Dados estaduais apontam que a fila de pacientes com COVID-19 à espera de vaga em leitos de UTI quase dobrou na capital Porto Alegre.





Entre quarta e quinta-feira, o número de doentes aguardando nas emergências passou de 64 para 117 – um crescimento de 83%. O estado confirmou mais 120 óbitos nas últimas 24h. A apresentação da administração estadual projetou até 200 mortes por dia em março. 
 
Dessa forma, 6 mil pessoas perderiam a vida no mês. O número corresponde à metade do total de óbitos dos últimos 12 meses. Em 2020, a média diária de internações era de cerca de 20. Atualmente, são 230 admissões hospitalares causadas pelo vírus.

A ocupação das UTIs é a maior desde o início da pandemia. São 404 doentes recebendo tratamento intensivo até esta quinta-feira. 

“Queríamos mostrar um dado que, para nós, é alarmante, alarmante, que 60% dos pacientes que chegam à UTI vão à óbito. Morrem. E, hoje, parece que esse número, parece não, esse número inclusive está aumentando. Sem considerar que muitos não chegarão nos leitos de UTI, porque nós não teremos leitos de UTI”, apontou Arita.





Na reunião com os prefeitos, o governador Eduardo Leite (PSDB) afirmou que irá suspender a cogestão nas bandeiras do mapa de distanciamento controlado no estado a partir deste sábado. A medida, válida inicialmente por uma semana, obriga regiões a cumprirem regras determinadas pelo estado. 

Demanda de leitos mais que dobra

A secretária da Saúde apresentou a evolução da ocupação de leitos clínicos e de UTI nas últimas semanas no Rio Grande do Sul. No dia 24 de janeiro, o estado tinha 2.383 pessoas internadas com a doença. Um mês depois, nesta quinta, o número havia passado para 4.925 pacientes, uma alta de 206%. A estrutura estadual opera com 91,8% da capacidade máxima de ocupação de leitos críticos.

O governador Eduardo Leite citou projeções apontando a necessidade de abrir 7 mil vagas críticas para atendimento aos pacientes no estado, o que “é absolutamente inviável”, segundo ele. Diante da dificuldade em criar novos leitos, a secretária da Saúde Arita Bergmann ressaltou que solicitou aos hospitais o uso de todos os espaços possíveis nas unidades de saúde para receber pacientes.





Conselho de especialistas pressionou governo

‘Mantida a situação atual, teremos em um a dois dias o colapso do sistema hospitalar’. Em nota enviada ao governador Eduardo Leite, o conselho de especialistas no combate à COVID-19 do estado cobrou medidas mais drásticas para evitar a maior crise sanitária já vista no Rio Grande do Sul.

A nota foi publicada na noite de quarta-feira (24/2) pelo coordenador-executivo do Centro de Contingência do Coronavírus, o médico pediatra João Gabbardo dos Reis, no Twitter. O documento foi assinado em conjunto pelos médicos membros do conselho, Fernando Torelly, Januario Montone e Lucia Campos Pellanda.

"Mantidos os mesmos níveis de transmissão, além de já termos atingido o limite de ocupação em diversas regiões, chegaremos em poucos dias ao esgotamento da estrutura hospitalar disponível tanto pública quanto privada, gerando a redução da qualidade da estrutura de atendimento e aumento da mortalidade, sem possibilidade de aumento de leitos que seja capaz de acompanhar o crescimento das necessidades", detalha o texto.




 

Santa Catarina 


Um dia após a publicação de um decreto com novas restrições no estado, o governo de Santa Catarina fez um apelo aos prefeitos de cidades catarinenses, para que os gestores tomem ‘medidas emergenciais’ contra a COVID-19 e que diminuam ainda mais a circulação de pessoas. Apesar de ainda não ser uma decisão formal pelo fechamento geral chamado de ‘lockdown’, o pedido do secretário da Saúde estadual, André Motta, se assemelha às regras mais rígidas adotadas em dezembro. “Estamos entrando em colapso”, alertou.

No decreto publicado no "Diário Oficial do Estado", nessa quarta-feira (25/02), não há restrição à circulação de pessoas, assim como fechamento de serviços não essenciais. O texto, válido por 15 dias, define impedimentos ao setor de festas, bares e restaurantes. Casas noturnas e de espetáculos não podem funcionar e é proibido venda e consumo de bebidas alcoólicas em postos de combustíveis e suas lojas de conveniência entre 0h e 6h em todos os níveis de risco. Bares, restaurantes e shoppings não podem funcionar de madrugada.

No entanto, o secretário de Saúde estadual repassa aos prefeitos a demanda por restrições de ‘pessoas’ e ‘serviços’. “Solicito aos gestores municipais que tomem medidas emergenciais para diminuir significativamente a circulação de pessoas, mantendo apenas serviços essenciais. Convoquem toda a força de trabalho da Saúde para o enfrentamento", alinhou André Motta.





"Preciso informar a todos que a situação da pandemia deteriorou no estado todo e, a exemplo do que acontece nas regiões mais a oeste, estamos entrando em colapso! Todos os esforços de estado e municípios, até então, são insuficientes em face à brutalidade da doença. Infelizmente, percebe-se fenômeno similar no resto do país”, apontou o secretário catarinense.

Nessa quarta-feira, os hospitais no estado atingiram a maior taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral e de COVID-19 do Sistema Único de Saúde (SUS) em toda a pandemia: 91,18%. Em ofício enviado ao governo estadual, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) pediu que a secretaria da Saúde informe quantas pessoas esperam por um leito de UTI e em quais cidades estão os pacientes.

Relatos de profissionais que trabalham em unidades de saúde catarinenses apontam que o gargalo entre leitos disponíveis e pacientes que aguardam por internação fica cada dia mais longe de ser equacionado. A situação mais drástica no oeste do estado tende a se estender a outras regiões e o governo estadual já estuda a alteração de protocolos para a liberação mais rápida de quem está se recuperando da doença para abertura de vagas.





Bahia 


O governador da Bahia, Rui Costa (PT), confirmou nesta quinta-feira (25/02) que a Bahia está em colapso devido ao aumento do número de casos de COVID-19. A declaração foi dada durante entrevista ao canal CNN Brasil.

"Estamos entrando em colapso. Temos leitos, temos equipamento, mas não temos equipe médica”, afirmou. 

Durante a entrevista, Costa também afirmou que entrou em contato com a Pfizer. Segundo ele, caso o Ministério da Saúde não feche a compra de vacinas da empresa até março, o laboratório disse que está pronto para negociar vacinas com os estados. 
 
Lockdown 

Salvador e outros 416 municípios da Bahia terão as atividades não essenciais suspensas por dois dias, a partir das 17h desta sexta-feira (26/02). A medida, segundo o governador, é a única maneira de tentar frear o avanço da pandemia de coronavírus.





Estão suspensas todas as atividades consideradas não essenciais, a exemplo do funcionamento do comércio, bares e restaurantes. Cinema, teatro, todas as atividades culturais, e até as políticas e religiosas, também estão suspensas. O governo prefere, contudo, não denominar a medida um lockdown, que é o bloqueio da circulação de pessoas, sobretudo a locais públicos, além do funcionamento de determinados estabelecimentos, por determinação do Estado e sob punição.

À beira do colapso

A situação da Bahia começou a se agravar nas últimas duas semanas, o que elevou a taxa de ocupação de leitos de UTI para 83% nesta quinta-feira. Das 1.113 vagas reservadas à terapia intensiva para adultos, 922 estão ocupadas. Na UTI pediátrica, a ocupação é de 64%. Os leitos de enfermaria destinados aos adultos atingiram 59% do limite. São 1.028 vagas, mas 609 já estão preenchidas. Quanto aos voltados para as crianças, são 37 ocupados, de um total de 51, o que corresponde a 73% da capacidade.

Segundo o governador, 195 pessoas aguardam na fila de regulação por vagas em leitos de UTIs, o que eleva a taxa de ocupação da rede para 82%, à beira de um colapso.

*Com agências
*Estagiárias sob supervisão do subeditor João Renato Faria

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