A Guerra da Ucrânia completa um ano nesta sexta-feira (24/2) e, diante da entrada de potências militares no conflito e de transformações geopolíticas em todo o mundo, a participação de empresas privadas chama a atenção de especialistas em segurança internacional e pode ser indício de que a rotina de mortes esteja ainda distante de um fim.
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Mendonça afirma que o apoio concedido pelas empresas passa desde questões logísticos como a criação de redes de abastecimento de alimentação e suprimento até mesmo na inteligência e ataques militares propriamente ditos.
Esse tipo de organização funciona estruturalmente como uma empresa tradicional, mas formada por pessoas com conhecimento e especializações em técnicas de confronto, muitas vezes ex-militares de diferentes países que passam a prestar serviços privados
Na Guerra da Ucrânia, a organização que concentra as ações privadas de guerra é o Grupo Wagner, como explica o professor. Com armamento e equipamento bélico de alta tecnologia, eles suprem carências do exército russo e oferecem uma resposta rápida para as necessidades de confronto.
“O principal grupo empresarial é o grupo Wagner, composto por magnatas russos. Eles têm uma grande capilaridade e disponibilidade de armamento expertise na área militar. Isso fortalece muito a Rússia, que não precisa mais contar apenas com suas forças regulares. Nós vimos que algumas cidades já foram tomadas por grupos chamados de mercenários”, comenta.
O professor ainda afirma que organizações como o Grupo Wagner costumam ser pouco transparentes, têm capacidade de ajuda em funções amplas e representam uma alternativa vantajosa para o combate. “É muito difícil obter informações sobre essas empresas e elas são formadas por pessoas com muita expertise. Além da técnica militar, elas também dão suporte logístico como distribuição de água, medicamentos e uniformes e são uma reserva muito fácil de ser acionada, são pessoas altamente capacitadas e muito treinadas”.
O emprego de mercenários em conflitos bélicos não é exatamente algo de novo no front ou uma exclusividade da Guerra da Ucrânia. Em episódios historicamente recentes como os do Iraque e Afeganistão, mostram que os Estados Unidos também já lançaram mão de estratégias similares em seus combates.
Christopher Mendonça afirma que os combatentes privados hoje no leste europeu podem, inclusive, ter atuado nas guerras americanas, bem como em conflitos no contexto da Guerra Fria. Essa espécie de retroalimentação bélica é ainda um desafio para as autoridades nacionais e internacionais para limitar e regulamentar a transferência de treinamento e tecnologia militar para organizações privadas que, essencialmente, batalham do lado de quem lhes oferecer melhores condições financeiras e políticas.
“Existe a Convenção de Genebra, de 1949, que fala sobre os militares, mas ela é muito ampla e acaba não sendo muito precisa. Existiu uma dificuldade no Iraque, por exemplo, em enquadrar suspeitos de crimes na guerra na legislação civil ou militar. Há aí uma grande margem para impunidade, como há também na definição de qual país será responsável pelo julgamento, já que essas empresas não têm uma limitação de nacionalidade para participação”, afirma.
A entrada do Grupo Wagner na Guerra da Ucrânia se deu de forma mais incisiva em outubro do ano passado, quando a única ponte que ligava o território russo à península da Crimeia foi explodida. Um dos principais revezes das tropas de Vladimir Putin desde o início da guerra.
“Hoje vivemos o auge da participação de organizações militares privadas na Ucrânia. Esse é um cenário que acirra o impasse, quanto mais equilibrados são ataque e defesa, mais há tendência de duração do conflito. Não vejo um acordo de paz nos próximos meses”, avalia Mendonça.