Sob tutela judicial, jornal turco de oposição adota linha pró-governo

Crítico ao presidente Erdogan, periódico Zaman publicou elogios ao governo em sua primeira edição desde que foi colocado sob tutela

AFP

Capa da edição deste domingo do jornal de oposição Zaman traz elogios à gestão de Erdogan na Turquia - Foto: ADEM ALTAN / AFP PHOTO


O jornal turco Zaman, crítico ao presidente Recep Tayyip Erdogan, publicou neste domingo sua primeira edição desde que foi colocado sob tutela judicial, adotando uma linha editorial totalmente pró-governamental. Na primeira página deste domingo, um artigo sobre um ambicioso projeto do governo de construção de uma ponte que unirá as partes asiática e europeia de Istambul substituiu as habituais críticas. "Não temos internet e não podemos utilizar nosso sistema", disse à AFP um dos jornalistas da publicação. "A edição deste domingo não foi feita pelos funcionários do Zaman", acrescentou.

Também ocupava a primeira página uma foto de Erdogan dando a mão a uma idosa, e abaixo dela era anunciado que o chefe de Estado receberá mulheres na próxima semana, por ocasião do Dia da Mulher.


O jornal de oposição Zaman foi alvo de uma intervenção na noite de sexta-feira e foi colocado sob tutela judicial, em um novo caso de repressão na Turquia contra os meios de comunicação.  A nova administração nomeada pelas autoridades turcas demitiu o chefe de redação do grupo, Abdülhamit Bilici, segundo vários meios de comunicação.

A tomada de controle deste jornal gerou preocupação nos Estados Unidos e na União Europeia, que pediram que Ancara respeite a liberdade de imprensa. "Não se trata de um ato político, mas jurídico. A Turquia é um Estado de Direito", declarou, no entanto, o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu.

O grupo Zaman, também dono da agência de notícias Cihan e do jornal em inglês Today's Zaman, é conhecido por suas posições próximas ao imã Fethullah Gulen, inimigo número um de Erdogan desde a explosão de um escândalo de corrupção que atingiu as altas esferas do Estado, no fim de 2013. O presidente turco acusa Gulen, de 74 anos, de estar por trás das acusações de corrupção que enfrentou há dois anos e de ter criado um "Estado paralelo" para derrubá-lo. Os partidários de Gulen negam as acusações.

Desde este escândalo, as autoridades turcas multiplicaram as punições, especialmente dentro da polícia e da justiça, e realizaram ações judiciais contra os partidários de Gulen e seus interesses financeiros.

E, há vários meses, tanto a oposição turca quanto ONGs de defesa dos meios de comunicação e outros países expressam sua inquietação diante da crescente repressão de Erdogan e de seu governo da imprensa.

Dois jornalistas do jornal opositor Cumhuriyet, Can Dundar e Erdem Gul, serão julgados no fim de março por terem informado sobre fornecimentos de armas de Ancara a rebeldes islamitas na Síria. Os dois repórteres foram libertados há uma semana depois de passarem três meses na prisão, mas correm o risco de ser condenados à prisão perpétua.

.