Jornal Estado de Minas

MENOS LUZES, MAIS RAZÃO

Pandemia impõe 'novo espírito natalino' na Praça da Liberdade

Os olhares encantados e o mar de smartphones apontados para o alto - marcas da Praça da Liberdade durante o mês de dezembro - deram lugar a sorrisos melancólicos e suspiros resignados neste ano. "Nem parece Natal", comenta a auxiliar administrativa Débora Santos Pires, que foi ao tradicional espaço da Região Centro-Sul nesta quinta-feira (3/12) contemplar a decoração temática de fim de ano.



“Faltou brilho”, observa a jovem, acostumada com os pinheiros, sinos, estrelas e papais noéis que, até o ano passado, eram montados no local com centenas de milhares de lâmpadas de LED. Para evitar aglomerações, a ornamentação tradicional foi substituída por um roteiro de luzes, com imagens projetadas em 14 prédios - os nove do circuito cultural da Praça da Liberdade e mais seis espalhados pelo Centro de BH. 

Débora faz da visita natalina à praça um programa romântico com o namorado, o supervisor de operações Roberto Senra. O casal diz que a nova proposta de ornamentação não chegou a estragar o passeio. “Apesar do pouco brilho, as projeções nos prédios estão muito bonitas. Gostamos muito dos temas das imagens, que abordam os 300 anos de Minas. É o Natal possível, é o novo normal. O importante é celebrarmos que estamos chegando perto  do fim dessa batalha. Continua valendo a pena sair do Barreiro para vir aqui”, reflete Senra.

Para Débora Pires e Roberto Senra, a visita natalina à Praça da Liberdade é uma espécie de roteiro romântico. 'É o Natal possível, é o novo normal', comentou Senra sobre a decoração deste ano (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
Para Fábio e Daniela Klein, a Praça da Liberdade é uma espécie de roteiro cotidiano. O casal frequenta o espaço quase diariamente para praticar exercícios físicos . Nesta sexta, ao fim da caminhada, o advogado e a servidora pública aproveitaram para contemplar a iluminação de Natal. “Há pouco, estávamos comentando que a decoração ficou muito criativa. As projeções estão lindas. É claro que não é a mesma coisa dos natais passados, mas não é o momento de priorizarmos as tradições. O foco é a preservação da saúde e da vida. Esse é o verdadeiro espírito natalino de 2020”, afirma o advogado. 

O empresário Emerson Guimarães não demonstra nostalgia ao falar da nova proposta de ornamentação. Ele diz que prefere a versão mais sóbria adotada este ano. Por ele, as lâmpadas exuberantes podem continuar guardadas na caixa para sempre. “Eu gosto de Natal, mas gosto mais de economia! Precisamos pensar nisso. Não é tempo de esbanjar, é tempo de ter consciência”, observa o mineiro, que percorreu de bicicleta os 14 prédios do roteiro de luzes esta noite. A Praça da Liberdade foi sua parada final. 





O empresário Emerson Guimarães diz que prefere a versão 'clean' do roteiro de luzes: 'Gosto de Natal, mas gosto mais de economia'. (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
A pequena Cecília Rodrigues, no entanto, não esconde sua decepção com a decoração da praça. “Os prédios estão bonitos, Cecília?”, pergunta a reportagem à garota de quatro anos. Sem papas na língua, ela responde: “Não, queria ver o Papai Noel. Gostei só do meu balão”.  Este sim, coberto de luzes de LED. 

O 'novo Natal'

O tradicional circuito de luzes da Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da Capital,foi inaugurado na noite de quarta-feira (2/12) e permanecerá montado até 6 de janeiro. Para evitar as aglomerações normalmente geradas com a atração, a decoração foi descentralizada. Moradores e turistas poderão conferir projeções de imagens, luzes e arranjos distribuídos por diversos pontos da cidade. Além dos equipamentos culturais da Praça da Liberdade, o percurso inclui a Praça da Estação e o Palácio das Artes. Segundo a prefeitura, a ideia é que as pessoas possam apreciar as obras em movimento, a pé ou de carro.

As projeções são de autoria do artista Ricardo Cançado, que misturou elementos da rica paisagem mineira com símbolos da herança colonial do estado. A narrativa visual percorre a história de Minas desde o período pré-colonização, quando o território ainda era predominantemente habitado por povos indígenas, até os dias atuais, passando pela Inconfidência Mineira e a escravidão. 

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