Jornal Estado de Minas

REINTEGRAÇÃO

Infectologista pede suspensão de despejo de acampamento no Sul de Minas


O infectologista Unaí Tupinambás, que integra o comitê de enfrentamento à COVID-19 de Belo Horizonte, é mais um a pedir a suspensão do despejo do acampamento Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio, no Sul de Minas Gerais. A ação de reintegração de posse começou na quarta-feira. 





O vídeo foi divulgado nesta sexta-feira pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), ligado ao acampamento que está no terreno há 22 anos.

“É um absurdo esta ação no meio da pandemia da COVID-19, colocando não só em risco as mais de 400 famílias que estavam em isolamento protetivo, mas toda a comunidade do Sul de Minas, bem como todos os agentes envolvidos nessa ação. Este ato vai contra todas as normas sanitárias de isolamento para enfrentamento da COVID”, comentou. 



Também nesta manhã, o MST fechou as duas pistas da BR-116, em frente ao Assentamento Oziel Alves Pereira, em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. A manifestação aconteceu como forma de protestar contra a ordem de despejo em Campo do Meio. 

Por volta de 7h, vários integrantes da entidade fizeram uma barreira com pneus velhos e galhos de árvore que foram incendiados para impedir o trânsito. A paralisação durou aproximadamente duas horas e provocou longas filas de caminhões na rodovia, nos dois sentidos. As pistas só foram liberadas com a chegada da Polícia Militar (PM), Bombeiros e Polícia Rodoviária Federal (PRF).





Persiste o impasse no Sul


Terras da Fazenda Ariadnópolis foram ocupadas desde o começo dos anos 2000: polícia e manifestantes se culpam por fogo nos arredores (foto: MST/Twitter)
A ação de reintegração de posse na área do acampamento do MST, localizado em uma área no entorno da sede da antiga Usina Ariadnópolis, persistia ontem sob impasse. Cerca de 150 policiais militares tentam, desde quarta-feira, fazer o cumprimento de ordem judicial. No local, aproximadamente 450 famílias atuam na produção de café.

Ontem, um incêndio numa mata vizinha motivou acusações de ambas as partes e ampliou a tensão. Enquanto a PM atribuía o fogo à ação dos sem-terra, esses culpavam fazendeiros da região e acusavam complacência policial. O MST informou que entrou com ação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para impedir o despejo.

Nas imagens compartilhadas nas redes sociais, uma grande coluna de fogo consome parte da mata seca. “Estamos vivendo um verdadeiro cenário de guerra. Já são mais de 36 horas resistindo à reintegração de posse. O fogo foi ateado por jagunços dos fazendeiros para encurralar os manifestantes. A PM permitiu o incêndio”, afirma Kallen Kátia da Cruz Oliveira, engenheira-agrônoma do movimento.





A corporação nega. “As imagens são claras. Um homem a cavalo, que participa da manifestação, aparece no vídeo e assim que ele passa o rastro da fumaça começa. Esse fogo vai em direção aos militares, colocando em risco a vida desses militares”, diz o coronel Nelson Rocha, da 18ª Região. Três militares, intoxicados, conforme a PM, foram socorridos num pronto-socorro local.

Em nota, o governo do estado sustenta que foi planejada uma intervenção pacífica. “Planejamos um trabalho sem necessidade do emprego de força e seguindo todos os protocolos de segurança estipulados para o período da pandemia da COVID-19, para preservar a segurança de todos os envolvidos na ação”, diz o comunicado.

O governo alega cumprir uma ordem judicial e que chegou a solicitar à Justiça sua suspensão, sem sucesso. Manifestantes gravaram mais vídeos na tarde de ontem e áudios foram compartilhados. “Atualizando a situação no local: o comando da PM já deu dois avisos e agora vem a tropa de choque. Nós seguimos na resistência”, diz um dos áudios.





Escola derrubada


Segundo o MST, a escola que havia no local, desocupada na quarta-feira, teria sido derrubada ontem. Após convocação de mobilização pelas redes sociais por parte do MST, a hashtag #ZemaCovarde ficou em primeiro lugar dos trending topics – a lista de assuntos mais comentados no Twitter – no Brasil.

O conflito fundiário na Fazenda Ariadnópolis ocorre desde o final da década de 1990, em virtude da falência da empresa Usina Ariadnópolis Açúcar e Álcool, que não teria indenizado os trabalhadores demitidos. Isso teria motivado a ocupação a partir de 2002, embora as primeiras famílias tenham se mudado para a área cinco anos antes, quando as operações da empresa já estavam suspensas.