Jornal Estado de Minas

MÚSICA, AFETO E TRANSFORMAÇÃO

Na batida da diversidade:escola ensina percussão pelo afeto

 

No carnaval 2023, o Bloco Circuladô sairá pelas ruas do bairro Floresta, na Região Leste de Belo Horizonte, para celebrar a cultura popular. A cada esquina ao longo do percurso, o bloco apresentará teatro, capoeira e dança. As intervenções artísticas são realizadas por alunos da Escola Musical Percussão Circular e por artistas convidados.





 

O bloco é uma iniciativa da Escola Musical Percussão Circular, que tem como norte a diversidade: alunos de todas as idades, posições e classes sociais. Atualmente, são 250 alunos, e a perspectiva é dobrar, chegando a 500.

 

Entre os alunos, parte significativa é formada por mulheres. De acordo com o músico Di Souza, idealizador e fundador da Escola de Música Percussão Circular, 80% dos musicistas são mulheres que assumem os tambores e dão o ritmo do bloco.

 

A escola de música completa dez anos em outubro. "Em 2013, quando a escola surgiu, o quadro de alunos era composto por maioria masculina. Hoje isso se inverteu. Sinal de que as mulheres estão reivindicando e conquistando protagonismo na percussão também."





 

E a chave para celebrar a primeira década é o ensino, que tem como base metodologias participativas e decoloniais. Di Souza se distancia dos padrões eurocêntricos, definidos por ele como "coloniais", e se aproxima das práticas populares.

 

"São práticas de ensino não coloniais. Partem do princípio de valorização do saber popular e do respeito ao indivíduo, que é protagonista do seu próprio processo de aprendizagem.

Escola do afeto

As aulas da Percussão Circular são dadas com base no afeto e em metodologia participativa (foto: Aldine Mara/Divulgação)


A Percussão Circular trabalha com a perspectiva de educação construída pelo afeto. Diferente do tradicional, onde os professores colocam metas para os alunos a cada período de tempo, a escola desenvolve as aulas de acordo com as potencialidades de cada aluno, tornando-os parte do processo.





 

“Eu sou uma mulher preta e periférica, participei de vários projetos sociais, mas o que me abriu portas e mudou minha vida foi a Percussão Circular, em todos os sentidos: profissional, pessoal e emocional. Muitos outros projetos deveriam surgir pensando nessa lógica do afeto”, afirma Vitória Pires, aluna e parte da equipe de comunicação da Percussão Circular.

 

Com uma equipe amplamente formada por pessoas da periferia, em postos de destaque, o projeto se torna referência no cenário belo-horizontino. Prova dessa relevância é o fato de a escola ter sido o tema de três trabalhos de conclusão de curso e foco de uma pesquisa de mestrado.

Música é para todos

Vitória Pires se apresentando no show "Tum, Pá!" da escola de musica Percussão Circular (foto: Felipe Miniz/DivulgaÇÃO)

O acesso à cultura é um direito de todos. Por isso, aproximadamente 20% dos alunos da Percussão Circular são bolsistas de baixa renda. Além disso, a escola desenvolve um projeto em parceria com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), movimento social nacional que luta pela reforma urbana e pelo direito a moradias dignas, que oferece aulas para uma turma composta apenas por moradores de ocupações desde 2019.





 

Di Souza explica que, pelo fato de ter muitas pessoas que pagam pelas aulas, a Percussão Circular conseguiu criar, com os próprios recursos da escola, esse espaço gratuito para pessoas que não teriam condições para pagar por uma aula de percussão.

 

“A gente está reivindicando o acesso à cultura para essas pessoas. Muitas vezes é negado ao povo pobre essa oportunidade, já que a cultura é vista como algo do campo do entretenimento, mas a gente sabe que o acesso à arte é um ponto muito importante na nossa existência”, afirma Di Souza.  

Transformação pela música

Vitória Pires cantou para um público de mais de 2 mil pessoas pela primeira vez (foto: Felipe Muniz/Divulgação)


Vitória Pires, de 23 anos, entrou para a Percussão Circular em 2018, depois de receber uma bolsa para estudar com a mãe e a irmã. Hoje faz parte da equipe de comunicação da escola e tem uma renda fixa de shows com a banda Amora Tropical, um grupo de amigos que se conheceram na Percussão.





 

Ela conta que através das aulas de música se percebeu capaz de correr atrás dos seus sonhos. Em dezembro de 2022 se apresentou como cantora para um público de mais de 2 mil pessoas pela primeira vez no show “Tum,Pá!”, realizado com 300 componentes da escola no Sesc Palladium.

 

“Alguns lugares parecem que não nos pertencem, mas pela cultura a gente toma isso de volta. A cultura faz eu realizar sonhos e perceber que sou capaz de fazer muitas coisas. Eu nunca viveria a experiência de tudo isso agora se eu não tivesse tido essa oportunidade”, conta Vitória.

Ouça e acompanhe as edições do podcast DiversEM




podcast DiversEM é uma produção quinzenal dedicada ao debate plural, aberto, com diferentes vozes e que convida o ouvinte para pensar além do convencional. Cada episódio é uma oportunidade para conhecer novos temas ou se aprofundar em assuntos relevantes, sempre com o olhar único e apurado de nossos convidados.

*Estagiária sob a supervisão de Márcia Maria Cruz