Jornal Estado de Minas

PRECONCEITO ESTRUTURAL

Gordofobia: entenda o que é e como afeta o dia a dia de pessoas gordas

56% da população brasileira apresenta sobrepeso, mas a gordofobia ainda não é discutida como deveria (foto: MART PRODUCTION)


Mesmo sendo o Brasil um país com 56% de pessoas acima do peso, segundo o Ministério da Saúde, apenas recentemente ganhou visibilidade o debate sobre gordofobia, preconceito tão enraizado na sociedade brasileira. O corpo padrão é, muitas vezes, ditado pela própria indústria da moda e pela mídia, que valorizam corpos magros, e o relaciona diretamente à beleza e à saúde.



A gordofobia é um preconceito estrutural que afeta toda a sociedade, tanto pessoas gordas quanto pessoas magras, em diferentes graus. Se manifesta pela aversão ao corpo gordo, ao medo de engordar e aos fatores limitantes ao corpo gordo, como ser impedido de utilizar serviços e acessar espaços.

 “Se a gente for resumir, a gordofobia é uma violência institucionalizada contra corpos gordos. Quando eu digo institucionalizada contra corpos gordos, porque está presente em tudo, hospital, empresa, repartição pública, e não é criminalizada como o racismo e a LGBTQIA+fobia”, afirma Jéssica Balbino, colunista do Estado de Minas e pesquisadora da gordofobia.

Caminhos legais no combate à gordofobia



Apesar de ainda não ser criminalizada, a gordofobia pode se encaixar em outras leis e ser combatida juridicamente. O Gorda na Lei é um projeto ativista que discute gordofobia juridicamente e se tornou referência no assunto. 



Por exemplo, a gordofobia pode ser interpretada na esfera criminal como ofensa ou injúria. Na esfera trabalhista, um funcionário que sofre bullying no ambiente de trabalho ou é excluído no exercer da atividade devido ao peso, pode ser interpretado como assédio moral. Na internet, as imagens usadas indevidamente para a criação de memes ou com comentários que menosprezam por conta do peso muitas vezes se reverte em indenização de danos morais.



“A gordofobia vai se encaixando dentro de situações que já existem no ordenamento, por isso mesmo não havendo uma lei especifica, ela pode ser punida. E hoje, com essa discussão com olhar jurídico, os tribunais e os juízes já estão enxergando a gordofobia como um preconceito especifico punível”, explica Rayane Souza, ativista e criadora do Gorda na Lei.

Há também projetos de leis, em todo o Brasil, em busca de criminalizar a gordofobia. Um exemplo é o projeto de lei 1786/22, proposto pelo deputado federal José Guimarães (PT), que visa incluir a discriminação ou preconceito em razão do peso corporal relacionado à obesidade nos crimes previstos na Lei 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

Outras formas de combate à gordofobia

Além da criminalização da gordofobia como forma de combate a esse preconceito estrutural, outros movimentos estão sendo feitos para normalizar a existência de corpos gordos na sociedade. Um exemplo é a moda, que cada vez mais inclui modelos e coleções plus size. O debate sobre o assunto, como faz Jéssica aqui no Estado de Minas, e tantas outras pessoas em diversas plataformas, também é uma forma de expor o problema e buscar formas de resolvê-lo.



Jéssica é colunista do Estado de Minas e pesquisadora de temas ligados à gordofobia (foto: ©xuuuaaoo)

 
Outro exemplo é o movimento “Body Positive”. Uma vez que existem corpos diversos, o movimento trabalha a autoestima e a aceitação do próprio corpo, deixando de lado a pressão de encaixar em um padrão de beleza pré-estabelecido. Esse movimento prega que todo corpo é bonito à sua maneira. 

“É possível entender o que é autoestima e amor próprio, e nada tem a ver com se conformar ou não cuidar da saúde. Estamos falando de um estado em que você escolhe não se odiar e não se colocar como inferior, como as pessoas querem que você se sinta”, explica Rayane.

Rayane, que mora no litoral do Espírito Santo, deixava de ir à praia e inventava desculpas quando os amigos a convidavam. Quando ia, usava blusa larga e legging. Por volta dos 25 anos voltou a ir à praia e usar biquini, e foi uma virada de chave. Ela percebeu o que estava deixando de viver por medo de colocar uma roupa.





Além de atuar no Gorda na Lei, Rayane também atua como influenciadora digital e modelo plus size. “Hoje eu uso absolutamente tudo o que eu quero, do cropped ao short colado. Eu entendi que não tem nada no mundo que possa me parar, a não ser eu mesma, e essa consciência eu só tomei com nesse processo de aceitação”, afirma Rayane.

Invisibilização dos corpos gordos

A sociedade, em sua construção mais básica, não considera a existência das pessoas gordas. Isso passa desde catracas de ônibus, brinquedos de parque de diversões, poltronas de aviões, banheiros químicos, cadeiras de plástico comum em bares a tantas outras situações que surgem no dia a dia.  

“A sociedade está preparada para um determinado tipo de padrão, que não passa pelo padrão do corpo gordo. Quase tudo é inadequado para uma pessoa gorda existir nesse mundo, como se disessem ‘ou você se adequa ou você não consegue existir aqui’”, conta Jéssica.

Até mesmo hospitais, que deveriam dar assistência à toda a população, se tornam um espaço hostil e locais em que a pessoa gorda pode passar por situações constrangedoras. Em especial hospitais que estão fora dos grandes centros urbanos, nem sempre estão equipados devidamente.



“Passa por não ter equipamento hospitalar para exames, desde um medidor de pressão à uma maca que não suporta o peso, até equipamentos mais sofisticados como de ressonância, fazendo com que pessoas gordas, por exemplo, sejam examinadas em hospitais veterinários, o que é totalmente desumanizante e afeta totalmente a vida pessoa dessa pessoa e impede o acesso digno e legitimo à saúde”, afirma Jéssica.

O corpo gordo e a saúde

Existe uma crença generalizada de que todo corpo gordo é doente e todo corpo magro é saudável. Entretanto, a saúde não pode ser medida simplesmente pela aparência, assim como não existe nenhuma doença exclusiva de corpos gordos.

Sobrepeso pode aumentar as chances de problemas cardíacos e diabetes, por exemplo, mas são doenças que também acometem pessoas magras, ou seja, apenas um exame clínico pode identificar possíveis problemas de saúde. 



Um exemplo foi uma conversa que Tiago Abravanel participou no BBB22 em que explicava para os colegas de confinamento que, mesmo tendo um corpo gordo é uma pessoa saudável e seus exames estão em dia. 
 
Além disso, a gordofobia também afeta as pessoas magras. Algumas têm um medo tão grande de engordar e se tornar uma pessoa gorda que desenvolvem doenças como anorexia e bulimia, o que coloca a vida dessas pessoas em risco.

E a saúde mental?

Por conta do preconceito institucionalizado, a saúde mental das pessoas gordas é extremamente afetada. Devido à pressão da sociedade, a pessoa gorda pode não ter vontade de sair de casa para evitar julgamentos, piadas, ou comentários desagradáveis. 

Até no mercado de trabalho podem sofrer essa pressão estética. Uma pesquisa do Grupo Catho identificou que 65% dos presidentes e diretores de empresas tinham alguma restrição na hora de contratar pessoas gordas.



A dificuldade de sociabilização e até de conseguir um emprego afeta diretamente a autoestima e a saúde mental. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30% dos pacientes que buscam tratamento para a perda de peso apresentam depressão. 

Em busca de uma solução rápida e eficaz, muitos recorrem à cirurgia bariátrica, entretanto, uma pesquisa divulgada no Journal of the American Medical Association (JAMA) aponta que pessoas que fizeram essa cirurgia apresentam um índice de suicídio 50% maior do que a média da população em geral.

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