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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Medeia 'pandêmica' de Bete Coelho dialoga com o Brasil contemporâneo

Teatrofilme da atriz mineira e da Cia. BR116 retoma texto de Consuelo de Castro sobre ódio, traição e tragédia


07/02/2021 07:00 - atualizado 07/02/2021 12:48

Bete Coelho diz que montagem utiliza recursos do cinema, 'mas o teatro está lá, vivo' (foto: Gabriel Fernandes/Divulgação)
Bete Coelho diz que montagem utiliza recursos do cinema, 'mas o teatro está lá, vivo' (foto: Gabriel Fernandes/Divulgação)
Em 1997, Bete Coelho subiu ao palco para interpretar uma das grandes personagens femininas da mitologia grega. Medeia, mulher carregada de amor e ódio, ganhou uma versão muito pessoal da atriz mineira radicada em São Paulo. Medeia – memórias do mar aberto, texto escrito por Consuelo de Castro (1946-2016), recebeu naquele ano uma leitura dramática.

Mais de duas décadas depois, Bete retorna ao texto de Consuelo para uma montagem teatral, ou melhor, um teatrofilme, como o projeto da Cia. BR116 vem sendo chamado. Codirigido pela atriz em parceria com Gabriel Fernandes, o projeto Medeia, de Consuelo de Castro estreia neste domingo (7/2), no canal do grupo no YouTube. As sessões on-line, gratuitas, serão transmitidas até 12 de março.

EXÉRCITO 


Sobre o formato, Bete comenta que foi a “solução pandêmica” encontrada para que a companhia, fundada há uma década, voltasse a atuar. “O texto dialoga com o momento atual do país, pois traz várias questões urgentes.” Jasão (Flávio Rochaa) troca Medeia por Glauce (Luiza Curvo), filha do rei Creonte (Roberto Audio). A traição lhe garante um posto de chefia no Exército. Machucada, Medeia trama a morte dos filhos com Jasão. Mas a versão brasileira subverte o mito grego.

Quando a pandemia começou, a Cia. BR116 iniciava os ensaios de A gaivota, de Tchekhov. O projeto parou, assim como os atores, que ficaram meses sem trabalhar. “No meio do ano, começamos a pensar em algum projeto razoável para fazer. Entre setembro e outubro, quando a pandemia melhorou um pouco, conseguimos nos encontrar”, diz Bete.

Mantendo o texto de Consuelo na íntegra – “com alguns cortes, porque a imagem às vezes fala no lugar dele” –, o grupo fez uma adaptação filmada da montagem. Integrante da BR116, Gabriel Fernandes tem formação em cinema, mas muita experiência com teatro – trabalhou durante sete anos com o Teatro Oficina, filmando as montagens de Zé Celso Martinez.

Dessa maneira, Medeia se tornou um projeto híbrido. Com elenco enxuto (seis atores), foi rodada durante 10 dias, com internas realizadas numa sala da Oficina Cultural Oswald de Andrade. Houve também algumas externas nas proximidades de São Paulo.

“Com duas câmeras, montamos um teatro e filmamos em um cenário como se fosse o de uma peça. Já as externas foram na natureza, para que não houvesse qualquer referência de época. As externas se parecem mais com um filme, enquanto a parte interna é como o teatro”, conta Gabriel.

Tudo foi rodado em preto e branco. “Chegamos à conclusão de que isso nos ajudaria a desvincular a história de uma época e um espaço específicos. Queríamos sair um pouco do tempo atual”, acrescenta Bete. “Há instrumentos cinematográficos, mas o teatro está lá, vivo. Não usamos truques de cinema. Você vê suor, saliva. Inclusive o fato de estarmos distanciados fez com que a direção de arte trabalhasse com filtros, vidros.”

A outra atividade teatral de Bete durante os 10 meses da pandemia foi a live, sozinha, de Mãe coragem, versão enxuta do espetáculo de Bertolt Brecht que a BR116 havia montado, com muito êxito, em 2019. Fazer teatro em meio à pandemia não é fácil, ela admite. “Teatro existe ao vivo. A emoção, o poder dele, está no presencial. Tentamos levar isso para a linguagem das imagens.”

O processo de ensaio, por videoconferência, foi bastante cansativo. “É horrível, pois tem delay, você tem de olhar para a câmera e não para a tela. Para mim, foi um pouco esquizofrênico, perdi a paciência. Mas como todos os atores são experientes e profissionais, entenderam onde a gente queria chegar. Quando nos encontramos, foi um encontro abrupto, pois não havia tempo para descobrir muita coisa. Mesmo que não tenha havido aquela maturação, a montagem ganhou (pela falta do tempo) surpresas.”

GALPÃO 


Bete diz que um dos exemplos de como fazer teatro na pandemia veio do Grupo Galpão. “Foi a primeira coisa que vi do teatro, entendi que poderia entrar na linguagem do vídeo. Eles trataram de maneira delicada e poética, bonito de se ver. Foram uma grande inspiração para nós.”

A despeito das dificuldades, a atriz e diretora não esmorece. “Minha luta é de resistência, pois estamos aí sem eira nem beira. O que nos salva é a criatividade, a força e a cumplicidade. O teatro preciso do corpo, da respiração, do outro. Precisamos estar perto. Essa é a primeira grande dificuldade da pandemia. E não só entre os atores, mas entre atores e plateia. A segunda é que nós nunca fomos tão desprezados. Desde que me entendo por gente, nunca vi um desprezo tão grande pela nossa área”, finaliza.

MEDEIA, DE CONSUELO DE CASTRO
Montagem da Cia. BR116. Direção: Gabriel Fernandes e Bete Coelho. Estreia neste domingo (7/2), às 20h, no canal da BR116 no YouTube. Temporada até 12 de março, de quarta a domingo, às 20h. Gratuito.


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