Uma pesquisa quer ampliar o potencial da produção mineira de café. Muito além da bebida, a ideia é desenvolver um método de extração e processamento do óleo do café, com aplicação voltada para a produção de cosméticos, dermocosméticos, farmacêuticos e ingredientes funcionais. Para isto, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) inaugurou a Agroindústria Piloto de Extração de Óleo de Café no Campo Experimental de Lavras, que funciona dentro do campus da Universidade Federal de Lavras (Ufla).


A engenheira agrônoma Vânia Silva, doutora em Fisiologia Bioquímica de Plantas, chefe geral da Epamig Sul e coordenadora do projeto, conta que a pesquisa foi construída a partir da demanda por ingredientes naturais e sustentáveis, principalmente para aplicação na indústria cosmética. A escolha pelo café se deu, primeiro, pela abundância, e, depois, devido à sua riqueza em bioativos, com referências relacionadas às atividades antioxidantes, antimicrobianas e hidratantes.


Mesmo sendo Minas Gerais o maior produtor de café do Brasil, que por sua vez é o maior exportador mundial do produto, a pesquisadora “esbarrou” na grande dificuldade de encontrar o óleo de café no mercado. “Fizemos um estudo de campo e vimos que, em Minas Gerais, existia apenas uma cooperativa que faz a extração, além de um pequeno produtor que comprou uma máquina para extração. Constatamos que existe uma dificuldade operacional, não na extração do óleo, mas na etapa seguinte, a clarificação, que exige um processo de filtragem muito demorado”, explicou Vânia.


Assim, a extração do óleo a partir do grão do café verde (cru) e beneficiado (seco e descascado) já é feita por meio de prensa mecânica, sem o uso de solventes químicos. Como o método não acarreta impactos para a saúde humana e para o meio ambiente, é bastante atrativo para a indústria. O “gargalo” está na filtragem, sendo que a máquina demanda o uso de um compressor e mesmo assim tem baixíssimo rendimento.

A extração do óleo a partir do grão do café verde (cru) já é feita por meio de prensa mecânica, sem o uso de solventes químicos, obtendo o produto sem impacto à saúde humana

Epamig/Divulgação


Com isso, o grande foco do início do projeto é otimizar essa clarificação. Para chegar ao resultado desejado, já foram adquiridos alguns equipamentos, mas também foi feita uma demanda para que empresas brasileiras desenvolvam um maquinário para otimizar essa etapa. Vencido esse desafio, que também passa por avançar no escalonamento da produção, Vânia conta que começa a fase de incentivar uma cadeia produtiva para o óleo de café. Essa cadeia vai contribuir para a diversificação da renda do produtor, fortalecimento da agroindustrialização, estímulo à inovação e desenvolvimento de novos mercados.

“O nosso objetivo é que Minas Gerais seja referência em produção de cosméticos e bioativos naturais. Isso tem um valor agregado incrível”


Vânia Silva - Chefe geral da Epamig Sul e coordenadora do projeto


De acordo com a pesquisadora, hoje, o óleo de café produzido em Minas Gerais é levado para fora do país. Mas, a ideia do projeto é agregar esse valor no estado, culminando no desenvolvimento de produtos por aqui, como os cosméticos. “O objetivo é estimular a indústria. O nosso objetivo é que Minas Gerais seja referência em produção de cosméticos e bioativos naturais. Isso tem um valor agregado incrível”, explicou Vânia.

A extração do óleo a partir do grão do café verde (cru) já é feita por meio de prensa mecânica, sem o uso de solventes químicos, obtendo o produto sem impacto à saúde humana

Epamig/Divulgação


Bioativos


Além do óleo do café, a pesquisadora também coordena projetos ligados ao aproveitamento dos bioativos de resíduos de toda sua cadeia de beneficiamento. No caso do café, esses resíduos são a casca, a película prateada que sai na torrefação, a borra e até o subproduto da agroindústria de extração de óleo.

50%
da produção nacional total


Essa vertente do estudo será explorada no Centro de Excelência em Cafeicultura de Montanha, projeto coordenado pela Epamig em Lavras, onde os bioativos serão obtidos por meio da extração e concentração dos resíduos. Segundo Vânia, do café é possível obter, por exemplo, a cafeína e o ácido clorogênico: “O ácido clorogênico, utilizado pela indústria cosmética, é uma matéria prima cara, mas a gente joga fora toneladas de resíduos que têm esse ativo”.


“Estamos trabalhando a otimização da tecnologia para promover esse maior valor agregado, além do aproveitamento de resíduos. Hoje, os produtores já usam as cascas de café como condicionante do solo. O pessoal já tem essa noção de que o resíduo tem valor, mas não com este valor agregado que existe nos bioativos”, argumentou a pesquisadora.

 

Para otimizar a clarificação, são necessárias máquinas que ainda estão sendo desenvolvidas por empresas brasileiras

Epamig/Divulgação


Outros frutos


A pesquisa com bioativos e óleos naturais também vai se estender a outros frutos. Já existe um projeto em andamento com a equipe do Programa Estadual de Vitivinicultura da Epamig em Caldas, na Região Sul de Minas Gerais, para o aproveitamento de resíduos agroindustriais oriundos da produção de vinho. “A uva tem uma sementinha que fica após o processo de vinificação, aquilo ali é riquíssimo. Também não existe hoje uma máquina que separa aquela casca que fica aderida à semente após a vinificação. Mas, estamos avançando nisso também”, relata Vânia.


A pesquisa também engloba análises de resíduos agroindustriais da casca da uva, visando ampliar as possibilidades de aproveitamento sustentável de recursos agrícolas.


Outro fruto que será estudado é o cacau, cuja propriedade hidratante é amplamente conhecida na indústria cosmética. O fruto tem sido tema de pesquisas desenvolvidas pela Epamig no Norte de Minas.

33,4 milhões
de sacas de café arábica devem ser produzidas em Minas em 2026


“Algumas empresas de cosméticos naturais nos relatam justamente esse ‘gargalo’ que existe hoje, que é conseguir ingredientes naturais sustentáveis acessíveis. Minas Gerais é um estado riquíssimo em biodiversidade, a agricultura tem disponibilidade de matéria-prima, mas obter esses bioativos exige uma pesquisa e uma demanda de equipamentos que encarecem muito. Então, essas empresas acabam comprando ingredientes na indústria por preços que inviabilizam a produção de cosméticos naturais”, resume ela.


Parcerias

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O projeto do óleo da Epamig é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), em parceria com a Ufla – principalmente com os departamentos de Química e Engenharia Química e de Materiais. Além da Fapemig, os projetos sobre bioprospecção de bioativos naturais em resíduos de café possuem fomento do Consórcio Pesquisa Café, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e envolvem ações do INCT Café MIC (Mitigação dos Impactos Climáticos na Cafeicultura) e do Centro de Excelência em Cafeicultura de Montanha. 

compartilhe