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Estado de Minas

Sonho de ser prefeito vira realidade de tirar o sono

Com pouco mais de sete meses de governo, gestores municipais confessam que estão frustrados no cargo: sem dinheiro, endividados e pressionados pela população e pelos órgãos de controle


postado em 24/08/2013 00:12 / atualizado em 24/08/2013 07:21


A decisão do prefeito de uma cidade paulista de renunciar ao cargo por considerar o salário baixo e, mais recentemente, a possibilidade anunciada pelo prefeito de Teófilo Otoni, Getúlio Neiva (PMDB), de trocar o mandato por uma vaga na Assembleia Legislativa não são situações isoladas. Embora não cheguem ao extremo da renúncia, muitos prefeitos de cidades mineiras já admitem a frustração nos primeiros seis meses de mandato. Reclamam da falta de dinheiro para executar projetos e atender os anseios da população, das dívidas herdadas de gestões anteriores, da difícil convivência com a câmara municipal, da pressão popular e dos órgãos de controle, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas. Para muitos, especialmente os que encaram o primeiro mandato, os sonhos de campanha já se convertem em pesadelo.

“Com os recursos próprios não conseguimos fazer nada”, avisa Thiago Levy Araújo Pimenta (PMDB), prefeito de Angelândia, no Vale do Jequitinhonha, que também é presidente da Associação dos Municípios do Alto Jequitinhonha. Aos 28 anos, o cirurgião-dentista trocou o consultório particular pela prefeitura com a expectativa de transformar a cidadezinha, que tem orçamento anual de R$ 14 milhões e uma população de pouco mais de 8 mil habitantes. “Infelizmente é frustrante. Há muitos problemas de infraestrutura, sociais e nas instâncias de governo só ouvimos não”, desabafa o prefeito, que está às voltas com mil quilômetros de estradas de terra cortando a zona rural. “O quadro é desanimador, mas não penso em desistir. Vou continuar lutando. Mas dificilmente disputaria de novo”, afirma o prefeito de Angelândia.

Na vizinha Minas Novas, a toada é a mesma. O prefeito Gilberto Gomes de Sousa (PPS) reclama das condições em que se encontra a cidade e das perspectivas. “É mais difícil ser prefeito do que pensei, pois os recursos são mal distribuídos. Nós, do Vale do Jequitinhonha, estamos abandonados. Não temos estradas e a água está acabando. Não conseguimos atrair investimentos e a prefeitura é a maior empregadora da cidade”, afirma Gilberto Gomes, comerciante da cidade, que resolveu candidatar-se pela primeira vez para “fazer algo” pelo município.

Assim como os prefeitos de Angelândia e de Minas Novas, para muitos a experiência do primeiro mandato tem sido decepcionante. “Setenta por cento dos prefeitos eleitos no ano passado são em primeiro mandato”, afirma Antônio Andrada (PSDB), presidente da Associação Mineira dos Municípios de Minas Gerais (AMM). “Governar está muito difícil. São inúmeras limitações de financiamento para os investimentos, além da cobrança da sociedade e a burocracia e o regramento ,que emperram a máquina”, afirma Andrada. Ele observa que 600 dos 853 municípios mineiros são pequenos, com menos de 10 mil habitantes, extremamente dependentes do FPM, que é suficiente apenas para pagar a folha de pessoal e o custeio do dia a dia. Com isso, diz, as prefeituras viraram meras executoras de programas de governo estadual e federal que muitas vezes estão desconectados com as necessidades locais. “O prefeito não consegue elaborar uma política própria pois não sobra nada”, acrescenta.

Politicagem Em Janaúba, Norte de Minas, o prefeito Yuji Yamada (PRP) conta que tomou posse em 1º de janeiro com entusiasmo e a intenção de levar para a área pública a sua experiência como empresário – ele é o maior produtor individual de banana do país. No entanto, com pouco tempo na chefia do Executivo municipal, Yamada percebeu que, bem diferente da área privada, na gestão pública são outros quinhentos. A decepção foi grande e nos primeiros meses do seu mandato chegaram até a circular boatos em Janaúba de que ele poderia renunciar. Yamada desmente que tenha sequer cogitado essa hipótese. Mas admite a frustração com os problemas e com a “politicagem” que encontrou na gestão pública. O empresário diz que sua meta é mudar esse panorama. “Não é com politicagem que se constrói uma cidade, mas com trabalho e honestidade”, afirma Yamada, que nasceu no Japão e veio para o Brasil ainda na juventude.

Para o prefeito de São João da Ponte, Sidnei Gorutuba (PSD), o sentimento de frustração diante da coleção de problemas da cidade começou logo nos primeiros momentos de sua gestão. Ao assumir o cargo, em janeiro, ele afixou uma faixa na porta da prefeitura com pedido de desculpas à população pela paralisação de diversos serviços públicos. A medida foi tomada para fazer frente a uma dívida da ordem de R$ 40 milhões, que teria sido herdada da gestão anterior. Passados oito meses, a situação continua caótica e Gorutuba já fala em fechar parcialmente a prefeitura durante 30 dias, a partir de 1º de setembro, a fim de resolver os problemas financeiros. “A nossa intenção é manter somente os serviços essenciais de saúde, educação e limpeza pública”, afirma.

Sem festa O desapontamento dos chefes de executivos municipais é observado por Carlúcio Mendes (PSB), presidente da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (Amams), que congrega 85 municípios do Norte de Minas. “Conversando com os colegas prefeitos, vejo que tem muitos deles sérios e comprometidos, com vontade de fazer as coisas, mas as dificuldades são muitas e acabam provocando um desânimo entre os prefeitos”, afirma Carlúcio.

O presidente da Amams lembra que ele próprio sofre com as dificuldades para fazer as obras e serviços reivindicados pela população na cidade que administra, Mirabela – de 12,8 mil habitantes. “Já tenho uma certa experiência, pois neste ano estou exercendo o quarto de mandato na prefeitura. Esta é a situação pior que estamos enfrentando”, revela Carlúcio. Devido à falta de recursos, a Prefeitura de Mirabela suspendeu a realização da tradicional Festa de Agosto, que existe há mais de meio século e aconteceria neste fim de semana. “A festa iria custar em torno de R$ 200 mil. Se gastasse esse dinheiro, a prefeitura ficaria sem dinheiro para pagar a folha de pagamento.”

 


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