O adeus a Jair Rodrigues o cantor que quebrou o formalismo

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postado em 09/05/2014 11:11 / atualizado em 09/05/2014 14:32

Agência Estado

Divulgação

Sozinho na sauna de sua casa, em Cotia, enquanto todos dormiam, Jair Rodrigues sofreu um enfarte. Seu corpo foi encontrado pela empregada por volta das 9h30 desta quinta-feira, 8, e seus filhos não acreditaram que era o pai quem estava ali, sem vida. Os amigos próximos foram avisados e a notícia se espalhou. Pedro Mariano recebeu a ligação de Jair Oliveira, filho do cantor. João Marcello Bôscoli também. Wilson Simoninha chegou com um choro incontido. Nas redes sociais, as pessoas reagiam como se não acreditassem que Jair Rodrigues, o mesmo homem que dias antes comemorava as conquistas de seus 75 anos, também morria. O enterro de Jair foi nesta sexta no Cemitério Gethsêmani, no Morumbi.

A causa da morte, enfarte do miocárdio, foi confirmada hoje por sua assessoria de imprensa. Jair não sofria de nenhuma doença grave, segundo check-up realizado há cerca de três meses, e tinha na agenda uma série de shows confirmados até o fim de julho.

Um projeto que o animava foi comemorado com o amigo Pedro Mariano, enquanto almoçavam juntos, no sábado, dia 3. Jair dizia que faria uma turnê pela Alemanha com outros artistas. Estava radiante, festejava como se fosse o primeiro show. “Ele dizia como ia o lançamento dos novos discos (‘Samba Mesmo’, um álbum duplo) e falava desta turnê. Seriam 25 ou 28 shows pela Europa”, lembrou Pedro, enquanto apoiava a família, na manhã de hoje.

Jair Rodrigues era mais que o “gente boa” reconhecido na música brasileira e sua importância vai além das proezas da voz. Ele quebrou o formalismo que havia nos palcos da pós-Era do Rádio. Antes, era cantor de um lado, plateia de outro e um microfone no meio. Jair, ao libertar-se, desceu do púlpito para tocar os fãs e mostrar que eles também faziam parte do show. Algo impensável até meados dos anos 60. Jair tomava o palco por inteiro e cantava cada música como se o mundo fosse acabar naquela noite.

Elis Regina, que chegava a São Paulo, ainda tensa e burocrática, direto do Beco das Garrafas, no Rio, aprendeu o que era palco com o parceiro que lhe arranjaram para substituir o violonista Baden Powell, que viajou para a Europa às vésperas da estreia do show Dois na Bossa.

O produtor Walter Silva jantava com a mulher Deia em uma boate de São Paulo, enquanto um moço negro e alto arrebentava no palco fazendo até garçons dançarem com sua Deixa Isso Pra Lá. “Walter por que você não o leva para fazer o show com a Elis?”, propôs Deia. “Você tá louca, mulher? Ele não tem nada a ver com o Baden.” “Eu não estou louca.” A certeza de Deia convenceu Walter. “Não sei o que me deu. Foi pura intuição. Ele era diferente”, conta ela.

E, assim, tudo começou. Teatro Paramount, Avenida Brigadeiro Luis Antônio, abril de 1965. Elis Regina e Jair Rodrigues, que o letreiro apresentava como Ellis e Jayr, mais o Jongo Trio, provocaram um fenômeno de massa inédito na música popular brasileira, antes mesmo que esta nomenclatura existisse. Um dos três shows foi gravado e lançado em vinil, o Dois na Bossa. Segundo números da época, o álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias, o primeiro a atingir tal marca no País.

O relaxamento de Jair, capaz de comentar sobre o corte de cabelo da parceira no meio de um samba, mostrou a Elis que palcos eram sagrados, mas não eram um altar. E que cantor não era padre. “Ele quebrava a tensão quando tocávamos juntos. Fazia o que deveria ser feito sem formalidades e comovia todo mundo com aquilo”, afirma o pianista Amilton Godoy, do Zimbo Trio, que acompanhou Jair e Elis no programa O Fino da Bossa, da TV Record.

Quando chegou 1966, Geraldo Vandré surgiu sedento por uma vitória no Festival da Record. Sua música, Disparada, deveria ser defendida por um artista sério. “Não por Jair Rodrigues”, disse ele ao produtor Solano Ribeiro. “Pedi que ele ouvisse Jair no ensaio uma vez”, lembra Solano. Vandré ouviu e se convenceu. “Nascia ali um novo artista. Ninguém poderia imaginar que ele cantaria com tanta propriedade uma canção de origem sertaneja”, diz o pesquisador Zuza Homem de Mello. Disparada empatou em primeiro lugar com A Banda, de Chico Buarque. Mas o próprio Chico reconheceu que o homem que vinha lá do sertão era grande demais para um empate. Jair merecia a vitória.
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