Time de várzea domina clube de 'rolê'

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postado em 31/01/2014 08:49

Agência Estado

São Paulo, 31 - Para usar clubes da comunidade (CDCs) da Prefeitura de São Paulo, jovens da periferia pagam mensalidades de até R$ 86. Quem recebe o dinheiro são patronos de times de futebol de várzea que mandam e desmandam em espaços públicos. Em regiões carentes e sem opções de lazer, esses times transformaram clubes reformados recentemente pelo governo em franquias de escolinhas do Corinthians e do Santos. Alguns têm bares com shows de pagode nos fins de semana. Só entra quem pode pagar.

Pela primeira vez em três décadas, o governo municipal quer reassumir os CDCs e transformar alguns deles em “rolezódromos” para jovens e adolescentes realizarem bailes funk. Ao todo, são 298 clubes da comunidade na capital. Em pelo menos sete deles, o governo de Fernando Haddad (PT) quer colocar iluminação e permitir os “rolezinhos” que jovens passaram a fazer em parques e shoppings desde dezembro.

A tarefa não vai ser fácil. O atual modelo de gestão em vigor desde 1980 não tem quase nenhuma supervisão da Prefeitura e, para acentuar o problema, há brechas legais que permitem a exploração dos espaços.

Nos últimos cinco anos, as entidades que comandam os CDCs receberam, com a ajuda de emendas de vereadores, grama sintética paga pela Prefeitura - o custo médio para um terrão ganhar a grama é de R$ 180 mil. A Prefeitura já gastou mais de R$ 5 milhões para aplicar a grama sintética e construir vestiários nos CDCs desde 2008. Só que, após as reformas, os clubes continuaram geridos por associações e sem nenhum tipo de fiscalização. Parte deles passou a funcionar como empresas que alugam campos de futebol society, com bar, campeonatos fechados, shows de samba e churrasco.

No CDC do Jaçanã, na zona norte, por exemplo, o preço da hora custa R$ 50 - pagos para o “coordenador” do campo Elson Ribeiro, de 50 anos, do time Jaçanã Futebol e Samba. No CDC Anhanguera, no Bom Retiro, na região central, a hora chega a R$ 150 no campo.

Alguns CDCs da Prefeitura chegam a ser “terceirizados”. No clube Otávio Alves da Silva Neto, na periferia da zona oeste, quem manda desde 1985 são os patronos do Corinthians do Rio Pequeno. De segunda a sexta-feira, o espaço é usado pelo treinador Osvaldo de Lima Ministro, de 66 anos, que dá aulas de futebol para 40 crianças que podem pagar R$ 30 por mês. “Eu cobro só R$ 15 para quem quer ser goleiro, para incentivar a molecada a jogar na posição”, argumenta o instrutor, que paga R$ 500 por mês para o presidente do Corinthians do Rio Pequeno.

Franquia

Outro meio que os times de várzea encontraram para lucrar com clubes do governo foi transformá-los em franquias de escolinhas dos times grandes. No Morro do Piolho, favela com 30 mil habitantes na zona sul, crianças sem condições de pagar a mensalidade de R$ 50 da escolinha do Corinthians, montada no CDC Jardim Rosana, não jogam.

Do outro lado da cidade, na zona leste, o CDC Ermelino Matarazzo virou franquia do projeto Meninos da Vila, do Santos. Quem recebe as mensalidades de R$ 86 de 200 alunos, a maior parte moradores da região, são os coordenadores do time Veronia Esporte Clube. Em janeiro, os alunos precisaram pagar duas mensalidades adiantadas. O clube tem quatro piscinas vazias há 15 anos, segundo vizinhos.

Campos e bares

No Jardim Guaraú, um dos bairros mais pobres na região da Brasilândia, zona norte de São Paulo, o clube desportivo da comunidade ganhou uma quadra de futebol de areia em 2011, construída pela Prefeitura ao custo de R$ 50 mil. Mas quase ninguém joga bola ali, onde funciona um bar que permanece aberto o dia todo e tem rodas de samba aos sábados.

Na segunda-feira, a reportagem esteve no centro desportivo da comunidade (CDC) e conversou com dois coordenadores do espaço, que estavam no bar que funciona no local. Um deles construiu dois cômodos acima do bar e mora no próprio clube com a família. Não havia ninguém na quadra de futebol de areia. “Campinho de areia não ‘tá’ com nada, ninguém gosta. Ainda mais com esse calor”, disse Fábio Ferreira, de 26 anos, que tenta alugar o campo nos fins de semana.

Por volta das 11 horas, um caminhão de bebidas chegou para fazer a reposição semanal no bar. “É muita cerveja aqui no fim de semana. O samba come solto até a meia-noite no sábado”, disse Ferreira.

Não é o único caso de um CDC que virou espaço para shows de samba. O clube Senhor do Bonfim, na Vila Penteado, também na zona norte, anuncia em faixa logo na entrada rodas de pagode a partir do dia 7, às 18h, no espaço onde existe uma quadra esburacada e com o alambrado destruído.

Boteco

Na zona leste, na região de Cidade Líder, o movimento no CDC União do Morro é principalmente no Paulinho’s Bar, que funciona dentro do clube. O campo passa a maior parte do dia vazio. A Prefeitura chegou a pagar dois instrutores para dar aulas de futebol e atividades de recreação durante as férias, mas apenas 15 crianças e adolescentes procuraram o espaço entre o início de dezembro e o fim deste mês. Segundo as instrutoras, como o governo não oferece refeição, os alunos não têm como passar o dia praticando esportes no local.

No Jardim Iporanga, na zona sul, um CDC é comandado por times de várzea da região, como o Milicianos e o Bola Mais 1 Futebol Clube. Ali, os bailes funk eram frequentes até 2012, segundo vizinhos.

“O baile de sábado parou após muitas reclamações, era muito barulho de madrugada. O clube fica fechado a semana inteira, só abre quando tem rodada de fim de semana dos times do amadorzão, mas tem o aluguel do campo para quem quer usar. Como ninguém consegue juntar uma turma inteira para pagar, o campo fica vazio nos dias de semana”, conta a dona de casa Maria das Graças Ribeiro, de 56 anos, que é a favor dos “rolezódromos”.

Secretário

O secretário municipal de Esportes, Celso Jatene, admite que os clubes de comunidade estão dominados por times de futebol de várzea. Ele disse que a partir de segunda-feira o governo vai fazer um pente-fino na documentação dos 298 CDCs, mas somente uma legislação poderá mudar a gestão dos espaços.

“Queremos pedir à Câmara uma comissão de estudos para montar uma nova lei de funcionamento dos CDCs, com responsabilidades e deveres para quem assume a gestão”, afirmou Jatene. Ele, porém, disse que não quer retirar de vez os clubes de várzea. “Precisamos criar metas para serem cumpridas por quem está nesses clubes”, afirmou.

Não é a primeira vez que a Prefeitura tenta reassumir a gestão dos CDCs. Em abril de 2007, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) baixou o Decreto 48.267 determinando que a pasta de Esportes assumisse a fiscalização e supervisão dos CDCs.

A norma dizia que as atividades do programa Clube-Escola, como aulas de tênis e ioga para terceira idade, deveriam ser implementadas nos CDCs. Passados sete anos, a regra está longe de ser cumprida. As informações são do jornal

O Estado de S. Paulo.
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