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Bakersfield: uma amostra dos EUA de Trump em plena Califórnia

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postado em 24/11/2016 15:52

AFP /Agence France-Presse

Bakersfield está a duas horas de carro de redutos progressistas como Los Angeles e São Francisco, mas sente que está a anos luz. A cidade é um exemplo dos Estados Unidos conquistado por Donald Trump.

Nesta pequena localidade de pouco mais de 360.000 habitantes, 54% votaram pelo magnata imobiliário diante dos 39% que optaram por Hillary Clinton, que conquistou dois terços dos votos no estado da Califórnia, tradicionalmente democrata.

"Votei em Donald Trump porque senti que ele faria algo, é um homem de negócios", explica Lane Selz, de 22 anos, sentado em frente a uma grande mesa de café da manhã no restaurante Pappy's.

São 5H30 locais e há muito movimento neste estabelecimento decorado com fotos de plataformas de petróleo, logotipos de postos de gasolina e bisões empalhados.

"Poços de petróleo e agricultura é o que mantém Kern", condado do qual Bakersfield é capital, e "estamos na seca e os preços do petróleo caíram muito. Precisamos que as coisas mudem", disse Selz, resumindo a opinião dos clientes do Pappy's.

O preço do petróleo caiu pela metade em dois anos e milhares de pessoas perderam seus empregos.

O pai de Selz, por exemplo, foi demitido "depois de 30 anos como caminhoneiro" nos campos de extração de Kern, onde as torres se perdem de vista no horizonte. Seu amigo Burt Reynolds, de 24 anos, que o acompanha à mesa, também perdeu seu emprego, igualmente relacionado com o petróleo.

Em uma mesa mais distante está Trevin Butler, de 43 anos. Este caminhoneiro de barba loira e bigode encaracolado conta como saiu da indústria petroleira após 14 anos e depois como foram cortando as horas como contratado até que o trabalho acabou.

"É difícil cuidar de uma família assim", assegura esse pai de três crianças.

E toda a culpa da crise é colocada nos democratas e suas regras anti-contaminação que julgam excessivas e que Trump considerou "restrições mortais na produção de energia" e prometeu revertê-las.

"Os liberais dizem que a indústria petroleira é diabólica enquanto andam felizes em seus carros", ironizou David Miller, proprietário de uma pequena empresa de serviços petroleiros.

Muro ou legalizar os imigrantes?

A tradição republicana de Bakersfield é antiga. Nesta população muito branca, todos vão à missa e portam armas de fogo. Se sentem mais próximos do "Círculo da Bíblia" do que dos hippies californianos que ainda protestam contra o triunfo de Trump.

"Pode pegar o condado de Kern e colocá-lo no meio do Texas e ninguém se daria conta. Estariam muito acomodados política e religiosamente", explica Mark Martínez, chefe do departamento de Estudos Políticos da Universidade da Califórnia em Bakersfield, e um fervoroso democrata.

As primeiras pessoas que povoaram Bakersfield foram fazendeiros de Oklahoma que chegaram depois da fome causada pelas tempestades de areia de "Dust Bowl" na década de 1930.

Os "Okies", termo dado para as pessoas após esse êxodo, são muitas vezes ridicularizados nos Estados Unidos como camponeses sem escolaridade, mas em Bakersfield há muito orgulho dessa ascendência.

"Nos sentimos ligados aos trabalhadores, apesar de nos chamarem de deploráveis", destaca Les Clark, presidente da Associação de Produtores Independentes de Petróleo, fazendo referência ao termo usado na campanha de Hillary, que chocou os partidários de Trump.

"Muitos de nós têm estudos, acredito que nos subestimam", acrescenta, fazendo eco do descontentamento de muitos eleitores que se sentiram desprezados por Hillary e cansados do "establishment" de Washington.

"E é por isso que confiamos em alguém que não é o político comum", indica Beatris Sanders, diretora-executiva do gabinete de Agricultura de Kern, em sua casa rodeada de amendoeiras e cerejeiras.

Esta lobista espera que o futuro presidente cumpra sua promessa e rompa com os acordos comerciais como o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, em inglês), que considera prejudicial para as exportações americanas.

Entretanto, mesmo que muitos em Kern apoiem a proposta de construir um muro na fronteira com o México e deportar milhões de imigrantes, Sanders assegura que a maioria dos agricultores aposta no caminho da legalização dos trabalhadores hispânicos.

"O setor depende deles para a colheita", insiste.



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