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Vídeo: moradores fazem viagem virtual a Bento Rodrigues, com o Google Street View

A convite do Estado de Minas, alguns dos antigos moradores do povoado revisitaram a memória por meio de uma viagem virtual ao passado

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postado em 21/11/2015 06:00 / atualizado em 21/11/2015 07:44

Fred Bottrel

Mariana – Diante das imagens do que um dia foi Bento Rodrigues, a voz da cozinheira some. Nem parece a mesma Terezinha Custódio Quintão Silva, de 49 anos, que, antes de tomar nas mãos o tablet com os registros do Google Street View, falara por quase cinco minutos ininterruptos, destacando como enfrentou a onda de lama de dois metros para escapar da destruição que veio com o rompimento da barragem da Samarco no subdistrito de Mariana, na Região Central de Minas. Mas, diante das imagens que registraram a casa onde cresceu, as árvores que escalou na infância, o bar onde trabalhava, a saudade mais doída entra no lugar das palavras.


A convite do Estado de Minas, alguns dos antigos moradores do povoado – o mais impactado com o desastre da mineradora – revisitaram, por meio de uma viagem virtual ao passado, a memória afetiva dos ‘causos’ vividos entre as ruelas hoje devastadas por lama. As câmeras do serviço do Google cristalizaram uma ensolarada tarde de julho de 2012, com imagens que, depois do acontecimento que varreu a história do local, soam doces e amargas ao mesmo tempo. Algumas beiram a morbidez: uma propaganda próximo à capela de São Bento traz o slogan “Minas Sustentável”; uma pichação em um dos muros pede “Eu quero água limpa”.


“Antes de ir embora, eu ainda olhei o quarto da minha mãe e pensei que aquela seria a última vez que eu faria aquilo; foi tudo muito rápido”, recorda Terezinha. Ela trabalhava no bar próximo à igreja, conhecido ponto de encontro local: no registro do StreetView, é possível reconhecer as ofertas de cerveja, publicizadas na fachada, com estacas de madeira. Só restou a história. “No último sábado, tinha umas 400 pessoas, em um campeonato de truco; parecia até que era uma despedida. Se tivesse acontecido naquele dia, ia ser uma tragédia ainda maior”, conta Terezinha.


O carteado reunia o pessoal debaixo de sombra proporcionada por José do Nascimento, o Zezinho do Bento, de 70. Ao ver a imagem da castanheira próxima ao bar, ele conta orgulhoso: “Fui eu que plantei essa árvore e ela já estava muito maior do que isso aí. Quando a gente estava escapando da cidade, no meio da correria, eu vi que ela estava ‘inteirona’ lá; fiquei com a impressão de que ela queria me dizer alguma coisa”. Ao lado do bar, na região da praça São Bento, a castanheira sobreviveu à avalanche, imponente.


O motorista Diego Henrique Alves, de 27, se emocionou com a imagem da casa que ele construiu durante três anos, na Rua São Bento, número 400: “Quando completaram dois meses que a gente tinha terminado de pagar, a lama veio e levou tudo. E era uma casa do jeito que eu queria, tinha uma garagem que cabia meu carro, minha moto; tinha a varandinha para minha menina brincar; três quartos, uma sala, uma cozinha, uma área de lavar, uma área coberta para secar roupa; foi tudo”.


Com os dedos trêmulos na tela do tablet, a aposentada Rosa Maurília Gomes percorreu novamente todo o caminho em que correu “até o coração quase parar”, fugindo da lama que avançou sobre a cidade. As paredes ao chão são o de menos, para ela. Dona Rosa defende que reerguer Bento só faria sentido sem dispersar os moradores, de maneira a manter, nas novas casas, o espírito que fazia a vida simples do povoado valer a pena. “Todo mundo no Bento se conhece. Todos nasceram, foram criados, se casaram, criaram famílias, casaram as famílias. A comunidade todinha quer uma outra vila igual”. Com 77 anos, ela deposita esperanças em “começar uma nova vida, mas todo mundo unido, como era no antigo Bento. Não é bom assim?”

 

Sobe número de vítimas

 

O corpo de Samuel Vieira Albino, de 34 anos, um dos nove operários que estavam na lista de desaparecidos devido ao rompimento da Barragem de Fundão, foi reconhecido, de acordo com boletim divulgado pelo Corpo de Bombeiros ontem à noite. No informe, também foi confirmado o encontro de mais um corpo. O total de mortes agora já soma 12, dos quais oito corpos identificados. Além de oito trabalhadores ainda desaparecidos, três moradores de Mariana estão sendo procurados pelas equipes de resgate, que a partir de hoje ganham reforço de 26 bombeiros vindos de cidades do interior de Minas.

 

e mais...

 

Água saudável em Governador Valadares


O ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, afirmou ontem em Governador Valadares que a água captada no Rio Doce está em condição de normalidade e pode ser consumida pela população da região,
após o tratamento feito pelas companhias locais de saneamento. “Não há risco de contaminação do rio, não há metais pesados no rio. Queremos garantir à população que a água tem qualidade normal e está
sendo abastecida de maneira normal”, afirmou o ministro. Gilberto Occhi também disse que a mineradora Samarco se comprometeu a elaborar um projeto para a construção de uma adutora nos rios Suaçuí Grande e
Suaçuí Pequeno. Isso será alternativa para o futuro da segurança hídrica dos 278 mil habitantes de Valadares.


Vaquinha protesta contra lama da Samarco


A tradicional vaquinha da Rua Leopoldina, Bairro Santo Antônio, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, amanheceu pintada de marrom em protesto contra o desastre ambiental causado pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana. Ela foi coberta de “lama” até a metade e com o texto “Vaca Atolada”, além da logo da mineradora Vale,  em uma ação de integrantes  do bloco de rua Mamá na Vaca, que desde 2010 convida diferentes artistas para pintar a estátua durante o carnaval.

 

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