Bruno Bucis - No último dia 19 de janeiro, a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) trouxeram à tona o debate sobre a qualidade do ensino de Medicina no Brasil e seus reflexos diretos no cuidado ao paciente. Apenas 49 faculdades atingiram a nota máxima, enquanto 99 ficaram entre conceitos 1 e 2, o que reforça as disparidades na qualidade do ensino.
O Enamed avaliou 89.024 participantes, entre estudantes concluintes (39.256) e médicos formados (49.768). Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas 67% dos alunos que estavam concluindo o curso alcançaram desempenho considerado proficiente.
Esse índice é bem menor que o de profissionais já formados, com 75% dos candidatos alcançando o mínimo indicado pelo Ministério da Educação (MEC). Agora, a pasta deve implementar sanções contra os cursos com notas insuficientes, que passarão por auditorias e terão restrições, como redução de novas vagas para vestibulares.
Entre as discussões suscitadas por esses resultados está o processo de formação de médicos brasileiros. “Nos últimos anos, o Brasil teve um aumento grande de faculdades de medicina. Algumas têm dificuldade em proporcionar aos estudantes um cenário de aprendizado na prática em hospitais e UBS [Unidade Básica de Saúde], o que leva muitos alunos a se formarem sem tanto contato com pacientes”, afirma a médica Elda Pires, coordenadora da graduação em Medicina da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, instituição que obteve nota máxima na avalição.
Além de permitir rever essa formação, os resultados do Enamed também podem servir como um ponto de partida para que o paciente faça escolhas mais informadas, sem reduzir a competência profissional a uma nota ou ao nome do diploma.
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Como escolher seu médico
Em um cenário de formação médica desigual e excesso de informações nas redes sociais, o paciente deve adotar critérios objetivos na hora de escolher um médico. O primeiro passo é verificar se o profissional possui registro ativo no Conselho Regional de Medicina (CRM) e se tem título de especialista reconhecido, o que pode ser confirmado por meio do Registro de Qualificação de Especialista (RQE), disponível no site do Conselho Federal de Medicina.
Outro ponto importante é avaliar o vínculo do médico com instituições de saúde reconhecidas, como hospitais, clínicas ou serviços públicos estruturados, que costumam adotar critérios mais rigorosos de credenciamento e atualização profissional. A experiência em residência médica e a atuação em equipes multiprofissionais também são indicativos relevantes de formação prática e continuidade do cuidado.
Além da formação técnica, a qualidade da consulta deve ser observada. Um médico confiável é aquele que escuta, explica o diagnóstico e as opções de tratamento, responde às dúvidas com clareza e considera o histórico clínico do paciente nas decisões. Relações construídas ao longo do tempo, especialmente com clínicos, médicos de família ou especialistas de referência, tendem a favorecer a coordenação do cuidado e reduzir riscos de condutas fragmentadas.
Não escolha pelos likes
A busca por um profissional de saúde tampouco deve se pautar pelo número de seguidores ou curtidas nas redes sociais. “A forma de procurar atendimento médico mudou muito nos últimos anos e talvez essa seja uma oportunidade de repensar como estabelecemos a relação médico-paciente”, reflete Elda Pires. “Temos visto cada vez mais o espaço das redes sociais ser ocupado por informações erradas e incompletas e profissionais sendo valorizados pelo seu número de seguidores.”
Em meio aos conteúdos gerados por inteligência artificial e promovidos na web de forma tendenciosa, a população deve ficar ainda mais atenta. “É preciso desviar dessas informações deturpadas e buscar médicos a partir de registros de confiança, como o RQE”, aconselha a docente. “Foque em profissionais com reconhecida competência profissional ou recomendados por médicos que já te atendem.”
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Além disso, o segredo da confiança entre médico e paciente está em estabelecer uma relação de longo prazo com um profissional que ajude a encontrar o cuidado mais adequado e individualizado. “A relação de confiança se estabelece no olho no olho. Uma vez que você tem um médico que te conhece, que é vinculado a uma instituição que você confia, é muito mais fácil receber dele as indicações de novos especialistas, quando necessários, que vão poder conduzir esse cuidado de forma adequada”, avalia a especialista.
