The Guardian apaga trecho de matéria em que liga Flávio a máfias no Rio
Periódico britânico também afirma que a intenção de Flávio Bolsonaro é livrar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação por golpe de Estado, caso seja eleito no segundo turno, em 25 de outubro
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O jornal britânico The Guardian publicou neste domingo (4/10) que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria “ligações com membros das máfias paramilitares do Rio”. O trecho constava de uma reportagem publicada pelo periódico após o resultado do primeiro turno das eleições, mas foi retirado do ar horas depois.
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Como já havia publicado o EM, o The Guardian afirma que a intenção de Flávio, caso seja eleito, é livrar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação por golpe de Estado. Essa avaliação permanece na versão atual da reportagem.
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“Flávio Bolsonaro espera que a vitória na presidência lhe permita libertar seu pai, que cumpre pena de 27 anos por planejar um golpe fracassado após se recusar a aceitar a derrota para Lula na última eleição”, afirma o jornal.
Antes de alterar a reportagem, o The Guardian havia destacado logo no início uma fala de Flávio: “Estou mais do que pronto para liderar este país e dar às famílias brasileiras o direito de sonhar novamente”.
Em seguida, o jornal também tinha afirmado que embora Flávio prometa uma repressão implacável ao crime, o próprio senador tem “ligações com membros das máfias paramilitares do Rio”.
O EM repercutiu esse trecho da matéria do The Guardian no título de uma notícia na noite desse domingo (4). A publicação teve grande alcance nas redes sociais. Na manhã desta segunda-feira, no entanto, o EM constatou que o texto havia sido parcialmente modificado no site do The Guardian.
O jornal já cobriu em outras ocasiões a política brasileira. Em 18 de outubro de 2022, o The Guardian publicou uma reportagem extensa sobre o crescimento das milícias no Rio. Nela, afirmou que a família Bolsonaro tinha ligações bem documentadas com figuras importantes de milícias.
Relembre algumas das ações e manifestações da família Bolsonaro ligadas às milícias e ao crime organizado.
Homenagem a Adriano da Nóbrega
O ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime, recebeu, em 2005, a visita de Flávio e Jair Bolsonaro (PL) na cadeia.
Os políticos entregaram a Nóbrega a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) a personalidades que prestaram relevantes serviços à sociedade. A homenagem ocorreu a pedido de Flávio, então deputado estadual.
Em 2003, o político já havia feito uma homenagem a Nóbrega, que teria ocorrido a pedido do pai, segundo Jair afirmou à imprensa em 2020.
Nóbrega foi morto em uma operação da Polícia Militar da Bahia, em 2020, após permanecer por mais de um ano foragido. Ele era acusado de uma série de homicídios no Rio de Janeiro e de envolvimento com máquinas caça-níqueis, proibidas no Brasil.
Emprego a parentes de miliciano e 'rachadinha'
Além da homenagem, Flávio nomeou, para seu gabinete na Alerj, até 2018, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega
Elas receberam salários de mais de R$ 6 mil no gabinete do deputado e, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, estavam envolvidas em um esquema de "rachadinha", no qual parte dos salários dos assessores era devolvida ao político. O parlamentar sempre negou as acusações.
De acordo com os investigadores, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, policial militar aposentado que era assessor de Flávio. Desse valor, R$ 115 mil teriam sido transferidos por meio de contas bancárias controladas por Adriano da Nóbrega. Também foram usadas contas em nome de dois restaurantes da família do ex-policial e de Raimunda, em período anterior à nomeação dela no gabinete de Flávio.
As investigações sobre a "rachadinha" foram encerradas após o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem, em 2021, as provas coletadas.
Flávio sempre rejeitou as acusações, que, segundo ele, fazem parte de um ataque orquestrado para destruir sua reputação. "(Houve) toda essa espuma, todo esse ataque para tentar destruir minha reputação, e nunca teve início um processo criminal contra mim. Sabe quantas ligações financeiras têm com meus assessores? Zero. Sabe quantos assessores disseram que cobrei salário de volta para empregar no meu gabinete? Zero", afirmou ao podcast Inteligência Ltda. em março deste ano.
Exaltação a milícias e organizações criminosas
Jair e Flávio Bolsonaro mantiveram relações políticas compoliciais suspeitos de comportamento violento e fizeram declarações favoráveis às milícias, organizações criminosas compostas sobretudo por ex-agentes de segurança.
Em 2018, Jair defendeu esses grupos ao estabelecer uma relação entre a presença deles e a segurança. “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, afirmou.
Flávio também minimizou a gravidade das milícias, dizendo que “não raro é constatada” a felicidade dos moradores de comunidades dominadas por milicianos. Em discurso na Alerj, em 2007, chamou as milícias de “nova forma de policiamento, entre aspas”.
Jair, além disso, foi condenado pelo STF por integrar uma organização criminosa no contexto da tentativa de golpe de Estado. Durante seu mandato como presidente, de 2019 a 2022, ele também não se movimentou para classificar como terroristas grupos como o PCC.
Seguranças acusados de participar de quadrilha
Em agosto de 2018, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de participar de uma quadrilha especializada em extorsões. Entre os presos estavam os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, dois policiais militares que, naquele ano, teriam participado da segurança da campanha de Flávio ao Senado. Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL (antigo partido de Bolsonaro) na Alerj e tesoureira do partido no estado.
Na época, o senador eleito negou ao jornal O Estado de S. Paulo que os policiais integrassem sua campanha, enquanto Valdenice disse que os irmãos atuavam como voluntários. Em foto publicada em sua rede social em outubro de 2017, Flávio aparece com Valdenice e os gêmeos. Na legenda, escreveu: "Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!".
Aliança com Rodrigo Bacellar
O ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) estreitou laços com a família Bolsonaro a partir de 2024, quando almejava suceder Cláudio Castro (PL) no governo do Rio de Janeiro. Em julho daquele ano, Bacellar se encontrou com Jair, Flávio e Carlos para discutir as eleições municipais e ganhou uma medalha do clã com os dizeres “imorrível, imbroxável e incomível”.
Depois de se tornar potencial candidato da família Bolsonaro no Rio, ele perdeu o mandato e foi preso sob suspeita de participar de uma organização criminosa e de vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.
Proximidade com Daniel Vorcaro
Áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro mantinha contato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de crimes relacionados a fraudes envolvendo o Banco Master, como organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.
O site revelou que Vorcaro combinou o pagamento de R$ 134 milhões para o filme “Dark Horse” (azarão, em tradução livre), sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Depois, Flávio afirmou que o dono do Master pagou cerca de R$ 60 milhões pelo longa-metragem e reconheceu ter cobrado as parcelas restantes, sob a justificativa de que se tratava apenas de recursos privados, e não públicos. O senador também admitiu ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro para, segundo ele, “colocar um ponto final” na relação.
A fraude do Master gerou prejuízo de pelo menos R$ 41 bilhões ao sistema financeiro nacional, afetando também o BRB (Banco de Brasília).
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Com informações da Folha de S. Paulo*