Quando os Beatles voltaram dos Estados Unidos, em agosto de 1966, não havia outra turnê marcada. Depois de anos entre aeroportos, hotéis e apresentações diante de multidões, o estúdio passaria a ocupar o centro da vida musical do grupo.

A transformação, porém, já estava em curso. Lançado em 5 de agosto, Revolver havia sido gravado entre abril e junho. Em “Tomorrow Never Knows”, fitas e efeitos ampliavam as possibilidades da música. Em “Eleanor Rigby”, os instrumentos tradicionais do rock cediam espaço às cordas. Era uma sonoridade cada vez mais difícil de reproduzir nos palcos, onde os equipamentos mal conseguiam superar os gritos das plateias.

O fim das turnês abriu espaço para aprofundar essas experiências. O público continuou acompanhando a banda. Revolver permaneceu sete semanas no topo da parada britânica e seis na americana. As fogueiras não haviam interrompido o sucesso dos Beatles.

Vieram então Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, em 1967, o Álbum Branco, em 1968, e Abbey Road, em 1969.

A religião também voltaria à trajetória do grupo. Em 1968, os quatro viajaram para Rishikesh, na Índia, para estudar meditação transcendental com Maharishi Mahesh Yogi. A temporada rendeu numerosas composições e revelou uma relação com a espiritualidade mais complexa do que sugeria a polêmica de 1966.

A frase de Lennon, entretanto, continuou atravessando décadas. Em 2008, o L’Osservatore Romano, jornal do Vaticano, classificou a declaração como uma bravata de juventude e elogiou a obra dos Beatles. A imprensa interpretou o texto como um perdão. No The Guardian, Richard Williams questionou essa leitura, argumentando que ela ainda partia de uma interpretação equivocada das palavras do músico.

Sessenta anos depois, a frase permanece na memória coletiva. O escândalo provocou boicotes, fogueiras e ameaças, mas não interrompeu a trajetória dos Beatles. Longe dos palcos, os quatro continuaram a transformar a música até a separação, tornada pública em 1970.

No fim do sonho, apenas John e Yoko

Em 1966, ao declarar que os Beatles eram mais populares que Jesus, John Lennon questionou a perda de influência do cristianismo diante da cultura popular. A frase provocou protestos, boicotes e ameaças, mas também inaugurou um debate que acompanharia o músico pelo resto da vida.

Quatro anos depois, Lennon retomou o tema em “God”, lançada em dezembro de 1970. Na canção, definiu Deus como um conceito usado pelo homem para medir a própria dor e enumerou aquilo em que já não acreditava: a Bíblia, Jesus, Buda, Elvis Presley e até os Beatles. Ao final, declarou acreditar apenas em si mesmo e em Yoko Ono.

A música representava uma ruptura com a idolatria que sustentara a Beatlemania. Se em 1966 Lennon comparava a influência dos Beatles à de Cristo, em 1970 rejeitava a própria condição de ídolo.

Em setembro de 1980, essa reflexão reapareceu na extensa entrevista concedida ao jornalista David Sheff, da revista americana Playboy. As conversas com Lennon e Yoko Ono ocorreram ao longo de várias semanas, principalmente no edifício Dakota, em Nova York, onde o casal morava.

Lennon continuava contrário à veneração de líderes religiosos, políticos e artistas. Defendia que cada pessoa encontrasse seu próprio caminho, sem esperar que outros resolvessem seus problemas. Sua posição não significava rejeitar toda espiritualidade, mas questionar a dependência de figuras tratadas como salvadoras.

Em 8 de dezembro de 1980, aos 40 anos, Lennon foi assassinado diante do Dakota. A entrevista à Playboy, publicada integralmente após sua morte, registrou uma ideia que atravessara sua trajetória: nem Jesus, nem os Beatles, nem o próprio Lennon deveriam substituir a responsabilidade de cada indivíduo pela própria vida.

1967
Sem voltar às turnês, os Beatles lançam Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e aprofundam o trabalho de estúdio.

1968
Viajam à Índia para estudar meditação e lançam o Álbum Branco.

1970
A separação da banda torna-se pública, encerrando uma trajetória coletiva que continuara por quase quatro anos após a polêmica em torno da frase de John Lennon. O fim dos shows, em 1966, não havia sido o fim dos Beatles.

 

O médico e músico mineiro Aggeu Marques durante uma apresentação no Philharmonic Hall, em Liverpool, na Inglaterra, em 25 de agosto de 2017

Arquivo


“Tiraram uma frase do contexto para crucificar John Lennon”

A declaração de John Lennon de que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo, em 1966, foi retirada do contexto, na avaliação do médico e músico Aggeu Marques, de 62 anos. Nascido em Montes Claros e radicado em João Monlevade, ele dedicou décadas à obra do quarteto britânico, integrou bandas cover em Minas Gerais e participou de um festival em Liverpool, na Inglaterra. Católico, afirma que nunca se sentiu ofendido pela comparação e considera que a repercussão do episódio acabou ofuscando um dos períodos mais importantes da evolução artística da banda.

A ligação de Marques com os Beatles ganhou força em 1988, quando se mudou para Belo Horizonte para fazer residência médica. Desde então, apresentou espetáculos no Palácio das Artes e criou o BH Beatle Week, festival realizado em sete edições. Também atuou como músico, diretor musical e organizador do espetáculo Beatles in Concert.

Marques tinha apenas dois anos quando a entrevista de Lennon à jornalista Maureen Cleave foi publicada, em março de 1966, no jornal britânico Evening Standard. Anos depois, ao conhecer a declaração, procurou ler o texto completo para compreender o que o músico pretendia dizer.

“De cara, percebi que a intenção dele não era fazer uma declaração de que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo. Ele estava comentando a situação da música, da religião e todo um contexto de mudanças profundas que o mundo atravessava nos anos 1960.”

Na interpretação do médico, Lennon se referia à popularidade alcançada pela banda em países de diferentes tradições religiosas e à influência que exercia sobre os jovens. A divulgação da entrevista nos Estados Unidos, meses depois da publicação original, provocou protestos, boicotes e queimas de discos, especialmente nas regiões mais conservadoras do Sul do país.

“Pegaram uma frase para crucificar o cara, literalmente. A intenção dele não era tripudiar da religião ou de Jesus Cristo. Ele estava constatando um fato.”

Marques lembra que, na Inglaterra, a declaração praticamente não provocou reações quando foi publicada. Nos Estados Unidos, porém, encontrou um ambiente religioso e cultural diferente. A repercussão levou Lennon a prestar esclarecimentos durante uma entrevista coletiva em Chicago, em agosto daquele ano.

Ao longo de sua trajetória, o médico encontrou poucas pessoas que ainda demonstravam resistência ao quarteto por causa do episódio. Recorda que um apresentador voltou ao assunto durante uma entrevista no fim dos anos 1990. Para ele, a importância da controvérsia diminuiu com o passar do tempo e com as transformações culturais.

Como exemplo, cita a popularidade mundial do grupo sul-coreano BTS. Na sua avaliação, afirmar que um artista é mais conhecido que Jesus Cristo em determinados lugares pode ser apenas uma observação sobre seu alcance internacional, sem representar um julgamento de importância religiosa.


O fim das turnês


Mais do que a controvérsia religiosa, Marques considera que 1966 deve ser lembrado pela transformação musical dos Beatles. Em agosto daquele ano, o grupo lançou Revolver, álbum que, para ele, representa o verdadeiro ponto de inflexão na trajetória do quarteto.

“Muita gente fala que o divisor de águas foi Sgt. Pepper's. Mas eu, que acompanho e estudo os Beatles há muitos anos, vejo que o disco que começou a mudar as coisas foi Revolver.”

As novas composições exploravam recursos de estúdio que dificultavam sua reprodução ao vivo. Ao mesmo tempo, os músicos enfrentavam o desgaste das viagens, das apresentações curtas e da gritaria das plateias, que frequentemente os impedia de ouvir os próprios instrumentos.

“Eles já estavam cansados de ser aqueles bonequinhos que ficavam ali enquanto o povo gritava e ninguém ouvia nada. Quando você toca e praticamente não consegue se ouvir, isso incomoda.”

Segundo Marques, a insatisfação já vinha crescendo entre os integrantes, especialmente George Harrison. A falta de liberdade durante as viagens, a repetição do repertório e as limitações técnicas dos equipamentos tornavam as apresentações cada vez menos satisfatórias do ponto de vista artístico.

A repercussão da declaração de Lennon agravou o ambiente da turnê norte-americana, encerrada em 29 de agosto de 1966, em San Francisco, mas não foi determinante para o abandono dos palcos.

“Não acho que essa frase tenha sido o catalisador para que eles parassem de tocar. Foi apenas mais um ingrediente de um processo que já vinha acontecendo.”
Livres das turnês, os Beatles passaram a dedicar mais tempo às experimentações em estúdio. O resultado apareceu em trabalhos como Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o Álbum Branco e Abbey Road, que consolidaram a transformação iniciada com Revolver.

Para Marques, a decisão permitiu que a banda alcançasse um novo nível de criatividade e construísse um legado que ultrapassou a própria geração. “Os Beatles mudaram de patamar. É interessante que foram uma banda que se tornou ícone da cultura pop e também da contracultura.”

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Depois de décadas interpretando as músicas do quarteto, ele continua convencido de que essa trajetória reúne uma sucessão singular de acontecimentos. “Parece até que foi tudo de propósito. Como se uma conspiração do universo tivesse criado os Beatles para serem eternos.”

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