Na Alemanha, Olga Benário deixou de ser a estrangeira que o Brasil decidira expulsar e passou a ser uma prisioneira da Gestapo. Grávida, foi levada para a prisão feminina da Barnimstrasse, em Berlim. Ali, em 27 de novembro de 1936, nasceu Anita Leocádia Prestes.
Olga pediu autorização para enviar um telegrama ao Brasil e avisar Luiz Carlos Prestes. Depois, escreveu uma carta com a notícia. Nenhuma das mensagens deixou a Alemanha. O pai continuou sem saber que a filha havia nascido. Olga tentou ainda registrar Anita como brasileira, mas as autoridades alemãs e brasileiras não permitiram.
A correspondência era vigiada. Cartas podiam ser copiadas, retidas ou incorporadas aos arquivos policiais. Mesmo sob censura, Olga escrevia a Prestes e à família. Pelas respostas e fotografias que recebia, acompanhava o crescimento da filha.
Do lado de fora, Leocádia Prestes e a filha Lygia lideravam uma campanha internacional pela libertação dos presos políticos brasileiros e pela proteção de Olga e Anita. Mobilizaram organizações, advogados e grupos de mulheres.
Leocádia procurou autoridades e organismos humanitários. As visitas foram recusadas, mas a pressão impediu que a existência da criança fosse escondida.
A família enviava alimentos, roupas e dinheiro para manter Anita saudável. O tratamento não significava benevolência nazista. Resultava de uma mobilização internacional. “Minha salvação se deveu à solidariedade internacional; razão por que me considero filha da solidariedade internacional”, afirmaria Anita.
Olga viveu com a filha durante 14 meses. Em janeiro de 1938, foi informada com poucas horas de antecedência de que as duas seriam separadas. Anita foi entregue à avó paterna. A campanha conseguira salvar a criança, mas não libertar a mãe.
A entrega produziu uma das contradições mais dolorosas da história. Olga desejava ver a filha fora da prisão, mas sabia que talvez nunca mais a encontrasse. A partir daquele momento, acompanhou Anita apenas pelas cartas e fotografias enviadas por Leocádia e Lygia.
Depois da separação, Olga foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg e, em 1939, para Ravensbrück, destinado principalmente a mulheres. Foi submetida a trabalhos forçados, fome, frio, doenças, castigos e à violência permanente do sistema concentracionário.
Sobreviventes recordaram que ela organizava exercícios, conversas e atividades de formação para ajudar outras presas a resistir. A disciplina aprendida na militância virou instrumento de sobrevivência coletiva. Olga não entregou informações sobre seus companheiros. “Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”, escreveu numa carta que não chegou a Prestes.
No início de 1942, a direção de Ravensbrück incluiu Olga entre as prisioneiras selecionadas para morrer. Ela foi transferida para Bernburg, centro de assassinato onde as vítimas eram mortas com monóxido de carbono numa câmara de gás.
Olga Benário Prestes foi assassinada em 23 de abril de 1942, aos 34 anos. Não morreu em Ravensbrück, como repetem algumas versões, mas em Bernburg, depois de ser transportada do campo.
O mundo só conheceria a dimensão do extermínio depois da derrota da Alemanha. Em 1945, uma sobrevivente descreveu Olga como “a mais corajosa de todas nós em Ravensbrück”. Segundo ela, Olga “nunca perdeu a fé e por isso foi massacrada pelos carrascos de Hitler”.
Antes de ser levada para a morte, Olga Benário escreveu uma última carta para Anita e Prestes. Não há no texto um pedido de vingança. Há medo, saudade, amor e a decisão de conservar a dignidade quando já não podia escolher o próprio destino. Ao falar com a filha, imaginou uma rotina que nunca existiria: pentear seus cabelos, fazer tranças e correr ao ar livre.
“É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos”, escreveu. Logo percebeu que voltava a sonhar: “Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha carta de despedida”.
A Prestes, confessou o desejo de viver um único dia ao lado da família: “O que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei”.
Depois, reuniu a força que ainda possuía para deixar uma espécie de testamento:
“Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte. Beijo-os pela última vez.”
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Olga Benário Prestes
