O vídeo divulgado na última terça-feira (11/8) pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos conta, em pouco mais de cinco minutos, uma história que atravessa dois séculos de poder americano nas Américas. Os episódios escolhidos são reais. A seleção é que não conta a história inteira.
Nesse mesmo período, Washington enviou tropas a países vizinhos, participou de operações clandestinas, pressionou governos e, durante a Guerra Fria, manteve relações com regimes autoritários considerados úteis no combate ao comunismo.
Nem tudo pode ser colocado diretamente na conta da Doutrina Monroe. Há contextos, interesses e decisões diferentes em cada episódio. Mas um fio atravessa boa parte dessa história: a convicção de que as Américas ocupam um lugar especial na segurança dos Estados Unidos e de que Washington deve reagir quando considera seus interesses na região ameaçados.
Antes mesmo de projetar seu poder sobre a América Latina, os Estados Unidos expandiram as próprias fronteiras. Entre 1846 e 1848, travaram contra o México uma guerra que mudaria definitivamente o mapa da América do Norte.
O conflito ocorreu depois da anexação americana do Texas e em meio a uma disputa sobre a fronteira. As tropas dos Estados Unidos avançaram até a Cidade do México. Derrotado, o país assinou o Tratado de Guadalupe Hidalgo e cedeu uma imensa extensão territorial.
Para Washington, a vitória significou chegar ao Pacífico e consolidar-se como potência continental. Para o México, a mesma guerra deixou outra marca: a perda de aproximadamente metade de seu território.
CUBA, ENTRE MADRI E WASHINGTON
Cinquenta anos depois, o poder americano já ultrapassava suas fronteiras. Em 1898, os Estados Unidos entraram na guerra de independência de Cuba contra a Espanha. A derrota espanhola encerrou séculos de domínio colonial, mas não significou que Washington simplesmente deixaria a ilha.
Cuba tornou-se formalmente independente em 1902, depois de uma ocupação militar. A retirada ocorreu sob as condições da Emenda Platt, que permitia intervenções americanas e abriu caminho para a instalação da base naval de Guantánamo.
Décadas mais tarde, Washington manteve relações com o governo autoritário de Fulgencio Batista. Quando Fidel Castro o derrubou, em 1959, e aproximou Cuba da União Soviética, a ilha passou a representar exatamente aquilo que os Estados Unidos historicamente procuravam evitar: a presença de uma potência rival a poucos quilômetros de seu território.
O vídeo recorda a Crise dos Mísseis de 1962. Deixa de fora, porém, a Baía dos Porcos. Um ano antes, exilados cubanos treinados e financiados pelos Estados Unidos desembarcaram na ilha para tentar derrubar Castro. A operação fracassou e contribuiu para aprofundar a aproximação entre Havana e Moscou.
DEZENOVE ANOS NO HAITI
No Haiti, a presença americana foi direta e prolongada. Em 1915, tropas dos Estados Unidos desembarcaram no país depois de uma grave crise política e do assassinato do presidente Vilbrun Guillaume Sam. Washington temia que a instabilidade abrisse espaço para potências europeias em uma região estratégica do Caribe. Os americanos permaneceram 19 anos.
Até 1934, autoridades dos Estados Unidos controlaram finanças, supervisionaram a arrecadação alfandegária e participaram da reorganização das instituições haitianas. Houve construção de estradas e outras obras, mas também resistência, repressão de revoltas e trabalho compulsório.
A ocupação terminou durante a Política da Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt, quando Washington começou a substituir parte das intervenções militares diretas por outras formas de influência.
A NICARÁGUA E UMA HISTÓRIA QUE VOLTOU
A Nicarágua conheceu uma trajetória semelhante. Tropas americanas permaneceram no país durante grande parte do período entre 1912 e 1933. Washington buscava proteger interesses econômicos e impedir que outra potência conquistasse influência sobre uma possível rota de canal pela América Central.
A resistência ganhou um nome: Augusto César Sandino. Depois da retirada americana, ele seria assassinado por integrantes da Guarda Nacional.
O comandante daquela força, Anastasio Somoza García, chegou ao poder e iniciou uma dinastia que governaria o país por mais de quatro décadas.
A história deu outra volta em 1979. Os sandinistas derrubaram os Somoza e, durante o governo Ronald Reagan, os Estados Unidos passaram a financiar os Contras, que eram grupos armados que combatiam o novo governo.
O velho temor da presença de uma potência rival no Caribe reaparecia, dessa vez sob a lógica da Guerra Fria.
MAIS DE 20 MIL SOLDADOS
Na República Dominicana, a intervenção voltou a ser aberta. Em 1965, mais de 20 mil militares americanos desembarcaram no país em meio a uma guerra civil.
Grupos constitucionalistas tentavam restaurar Juan Bosch, presidente eleito em 1962 e derrubado no ano seguinte. Washington afirmou inicialmente que precisava proteger cidadãos estrangeiros. Depois, passou a sustentar que grupos comunistas poderiam assumir o movimento e estabelecer no Caribe outro governo semelhante ao de Fidel Castro.
Não era a primeira vez. A República Dominicana já havia sido ocupada pelos Estados Unidos entre 1916 e 1924.
QUANDO A CIA ENTROU
Na Guatemala, em 1954, não houve desembarque de tropas americanas. O instrumento foi outro.
Jacobo Árbenz havia chegado à Presidência com um programa de reforma agrária e modernização econômica. Parte das propriedades atingidas pertencia à United Fruit Company, poderosa empresa americana. Ao mesmo tempo, o governo Dwight Eisenhower considerava que o país se aproximava perigosamente do comunismo.
A CIA organizou então a Operação PBSUCCESS. Propaganda, pressão diplomática, contatos militares e apoio às forças de Carlos Castillo Armas fizeram parte da ação.
Árbenz renunciou. Anos depois, documentos divulgados pelo próprio governo americano confirmariam a participação da CIA. A Guatemala entraria em um longo período de instabilidade e violência.
O BRASIL E A BROTHER SAM
Dez anos depois, o Brasil entrou no radar de Washington. O governo americano acompanhava com preocupação João Goulart, suas reformas, a proximidade com sindicatos e aquilo que enxergava como risco de expansão da influência comunista.
Quando tropas brasileiras se movimentaram contra o presidente, em 1964, o governo Lyndon Johnson preparou a Operação Brother Sam. Navios, combustível, armas e munições poderiam ser enviados para apoiar as forças contrárias a Goulart caso houvesse resistência e o confronto se prolongasse.
Não foi necessário. Goulart deixou o poder sem organizar uma reação armada. Os Estados Unidos reconheceram rapidamente o novo governo e mantiveram relações próximas com o regime militar brasileiro.
O CHILE ANTES DE PINOCHET
A vitória eleitoral de Salvador Allende, em 1970, provocou nova preocupação em Washington. O socialista defendia a nacionalização de setores estratégicos da economia, inclusive empresas americanas ligadas à exploração do cobre.
Documentos oficiais mostram que os Estados Unidos empregaram recursos clandestinos para tentar impedir sua chegada ao poder e, depois da posse, apoiaram forças e campanhas contrárias ao governo.
Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas derrubaram Allende e Augusto Pinochet assumiu o poder. Não há prova de que Washington tenha organizado diretamente o golpe daquele dia. Há, contudo, ampla documentação sobre a atuação americana para enfraquecer Allende antes de sua queda.
QUANDO O ALIADO NÃO ERA DEMOCRÁTICO
A Guerra Fria produziu alianças que revelam outra face dessa política. Washington manteve relações com governos autoritários como os de Rafael Trujillo, na República Dominicana, Somoza, na Nicarágua, Alfredo Stroessner, no Paraguai, e Augusto Pinochet, no Chile, além dos regimes militares do Cone Sul.
Essas relações não foram iguais nem permanentes. Houve apoio econômico e militar, cooperação de inteligência e treinamento de forças de segurança, mas também momentos de afastamento e pressão por direitos humanos.
Durante boa parte da Guerra Fria, porém, prevaleceu uma escolha pragmática. Na disputa contra Moscou e Havana, um governo anticomunista podia ser tratado como aliado mesmo quando não era democrático.
É esse lado da história que não aparece no vídeo. A gravação apresenta os episódios que sustentam a visão de Washington sobre seu papel nas Américas, mas deixa de fora ocupações, operações clandestinas e alianças com ditaduras.
A Doutrina Monroe nasceu para impedir que potências estrangeiras determinassem o destino das Américas. Ao longo de dois séculos, porém, sua lógica também acompanhou uma realidade bem mais contraditória: enquanto procurava manter seus rivais afastados, Washington ampliava a própria influência sobre seus vizinhos.
VEIAS ABERTAS
1954 (Guatemala)
Uma operação organizada pela CIA ajudou a derrubar o presidente Jacobo Árbenz. Os Estados Unidos acusavam seu governo de aproximação com o comunismo e temiam os efeitos de uma reforma agrária sobre interesses empresariais norte-americanos.
1964 (BRASIL)
Os Estados Unidos acompanharam e apoiaram o movimento que derrubou João Goulart. A Operação Brother Sam preparou navios, combustível e armamentos para auxiliar os militares brasileiros caso houvesse resistência ao golpe.
1973 (cHILE)
O governo norte-americano trabalhou para enfraquecer Salvador Allende antes do golpe militar. Ações de inteligência, pressões econômicas e apoio a opositores contribuíram para desestabilizar o governo chileno.
1975 (OPERAÇÃO CONDOR)
Ditaduras do Cone Sul criaram uma rede para perseguir opositores além das fronteiras nacionais. Os Eua conheciam a cooperação repressiva, mantinham relações com esses governos e prestaram apoio político e de inteligência.
Contradições do Tio Sam
Os amigos do império
AUGUSTO PINOCHET | CHILE
Chegou ao poder após o golpe que derrubou Salvador Allende, em 1973. Sua ditadura prendeu, torturou, matou e fez desaparecer opositores. Apesar das graves violações de direitos humanos, os Estados Unidos mantiveram relações e cooperação com o regime.
ANASTASIO SOMOZA | NICARÁGUA
Último governante da dinastia Somoza, comandou um regime marcado pela repressão e corrupção. Durante anos foi aliado de Washington por seu anticomunismo. Perdeu apoio americano no governo Jimmy Carter e foi derrubado pelos sandinistas em 1979.
FULGENCIO BATISTA | CUBA
Tomou o poder por um golpe em 1952 e governou Cuba de forma autoritária, perseguindo adversários. Manteve estreitas relações políticas e econômicas com os Estados Unidos, que suspenderam a venda de armas quando seu regime entrou em crise. Foi derrubado em 1959.
RAFAEL TRUJILLO | REPÚBLICA DOMINICANA
Governou entre 1930 e 1961 por meio de uma das ditaduras mais violentas do Caribe. Durante anos foi tolerado por Washington como aliado anticomunista. No fim do regime, tornou-se um problema para os EUA, que passaram a apoiar sua saída do poder.
E os inimigos...
FIDEL CASTRO | CUBA
Após a Revolução de 1959, implantou um regime socialista de partido único e aproximou Cuba da União Soviética. Os EUA romperam relações, estabeleceram o embargo, apoiaram a invasão da Baía dos Porcos e promoveram operações clandestinas contra seu governo.
MANUEL NORIEGA | PANAMÁ
Durante anos colaborou com os Estados Unidos, mas tornou-se adversário de Washington em meio a acusações de narcotráfico e repressão. Em 1989, tropas americanas invadiram o Panamá, derrubaram seu regime e levaram Noriega aos EUA para julgamento.
HUGO CHÁVEZ | VENEZUELA
Eleito em 1998, concentrou progressivamente poderes e aproximou-se de Cuba, tornando-se um dos principais adversários de Washington na região. Os Estados Unidos pressionaram seu governo política e diplomaticamente, mas Chávez permaneceu no poder até sua morte, em 2013.
NICOLÁS MADURO | VENEZUELA
Sucessor de Chávez, aprofundou o autoritarismo em meio à crise econômica e à repressão de opositores. Os Estados Unidos ampliaram sanções e a pressão contra Caracas. Em 2026, a confrontação culminou na operação americana que capturou Maduro e o levou aos EUA.
200 ANOS EM CINCO MINUTOS
Divulgado na última terça-feira (11/8) pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, o vídeo de pouco mais de cinco minutos apresenta a visão do governo Donald Trump sobre a Doutrina Monroe. Narrada pelo embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, a gravação parte de 1823 e percorre episódios como o Panamá, a Crise dos Mísseis de Cuba e a política de Ronald Reagan contra a influência soviética. A narrativa chega a 2026 com a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, apresentada como aplicação contemporânea da doutrina. A mensagem é direta: para o governo Trump, Monroe não pertence ao passado. Ao afirmar que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, Washington reafirma as Américas como área estratégica de sua política externa.
A caricatura de Donald Trump é uma criação do ilustrador, humorista gráfico e artista de colagens espanhol Asier Sanz. Produzida em 2017 com mortadela, bananas e chouriço, a obra ganhou repercussão internacional ao transformar alimentos cotidianos em uma irreverente sátira política. A imagem tornou-se uma das criações mais conhecidas do artista e chegou a ser exibida no Design Museum, em Londres.
Doutrina Donroe
Quando Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, a Doutrina Monroe tinha mais de dois séculos e havia sido declarada encerrada pelo próprio governo americano 12 anos antes. Em 2013, o então secretário de Estado John Kerry anunciou o fim da era desse pensamento. No segundo mandato de Trump, ela voltou ao centro da política externa dos Estados Unidos.
A retomada foi formalizada em 2 de dezembro de 2025, no aniversário de 202 anos da mensagem de James Monroe ao Congresso. Em declaração publicada pela Casa Branca, Trump apresentou o “Corolário Trump”. Segundo ele, “o povo americano, e não nações estrangeiras nem instituições globalistas, sempre controlará seu próprio destino em nosso hemisfério”. No mesmo documento, afirmou: “A Doutrina Monroe está viva e bem, e a liderança americana está voltando com mais força do que nunca”.
A declaração consolidava uma mudança já em curso. Desde o início do segundo mandato, Trump colocou o Hemisfério Ocidental entre as prioridades de sua política externa. O Canal do Panamá voltou ao discurso presidencial, a Groenlândia entrou nas pretensões estratégicas de Washington e o governo adotou oficialmente o nome Golfo da América para o Golfo do México. Portos, minerais, energia e infraestrutura também passaram a ser tratados como questões de segurança nacional.
A lógica remete a Monroe, mas os adversários mudaram. Em 1823, Washington procurava afastar as potências europeias das Américas. Hoje, o principal alvo é o avanço econômico e estratégico da China, além da presença da Rússia e do Irã. Para enfrentá-los, Trump combina tarifas, sanções, pressão diplomática e poder militar.
A Venezuela tornou-se a demonstração mais contundente dessa política. Em 3 de janeiro de 2026, horas depois da operação americana que capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump concedeu entrevista coletiva em Mar-a-Lago, na Flórida.
Foi ali que relacionou a ação à Doutrina Monroe. “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos em muito, muito mesmo”, afirmou. Em seguida, adotou o apelido que sintetizaria sua política: “Agora eles a chamam de ‘Donroe’”.
Trump disse ainda que os Estados Unidos haviam deixado a antiga doutrina de lado por tempo demais. “Era muito importante, mas nós nos esquecemos dela. Não nos esquecemos mais”, afirmou, referindo-se à Doutrina Monroe. Na mesma entrevista, resumiu sua visão: “Sob nossa nova Estratégia de Segurança Nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.”
A “Doutrina Donroe” vai além do apelido. Ela combina a antiga ideia de esfera de influência com o caráter transacional da política externa de Trump. Países alinhados podem obter acordos e acesso ao mercado americano. Adversários enfrentam tarifas, sanções e pressão diplomática. A Venezuela mostrou que a força militar também permanece entre os instrumentos de Washington.
Há uma diferença fundamental em relação a 1823. Monroe governava um país que ainda não possuía força para impor a ordem hemisférica que defendia. Trump comanda uma potência que acumulou esse poder durante dois séculos e agora procura conter concorrentes em áreas consideradas estratégicas.
A América Latina também mudou. Seus países mantêm relações com diferentes centros de poder, e a China tornou-se parceira econômica fundamental de várias das principais economias da região. Preservar uma esfera de influência americana significa enfrentar um continente muito diferente daquele de Monroe.
E O BRASIL?
O Brasil está no centro dessa disputa. A China é seu principal parceiro comercial e empresas chinesas atuam em energia, mineração e infraestrutura, setores que ganharam importância na estratégia de segurança econômica dos Estados Unidos.
O país não aparece no vídeo do Departamento de Estado nem foi citado por Trump em Mar-a-Lago. Isso não significa que esteja fora do tabuleiro. Quando Washington afirma que pretende preservar sua predominância no Hemisfério Ocidental, a política alcança também a maior economia da América Latina e suas relações com Pequim.
A Doutrina Monroe sobreviveu porque soube mudar. Nasceu para manter as potências europeias afastadas, foi reinterpretada diante da expansão soviética e chega ao século XXI voltada principalmente para a ascensão da China.
Monroe formulou uma advertência em 1823. Trump a transformou em instrumento de sua política para o continente.
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Declarada encerrada em 2013, a Doutrina Monroe voltou 12 anos depois. Mudaram os adversários e os instrumentos. Permaneceu a disputa sobre até onde pode chegar o poder de Washington nas Américas.
