Depois da banheira, a reportagem conduziu Barreto Pinto para a praia. O cenário era Copacabana, então símbolo de modernidade, lazer e projeção social. Para Jean Manzon, a areia oferecia espaço, movimento e luz. Para David Nasser, oferecia a oportunidade de desmontar qualquer pretensão de grandeza do parlamentar.
A página 10 de O Cruzeiro reuniu quatro fotografias. Na primeira, Barreto Pinto tenta chutar uma bola. O corpo inclinado e a perna levantada produzem uma cena pouco elegante. A legenda começa com um ataque direto:
“O atleta de barriga mole.”
Em seguida, a revista informa que o deputado ia “de vez em quando à praia fazer ginástica” e que era “um mau jogador de futebol”. O texto não precisava avançar muito para cumprir seu propósito. O corpo do parlamentar já havia se transformado em argumento político.
Na imagem seguinte, Barreto Pinto corre carregando uma bóia. A pose parece preparada para sugerir movimento e esforço, mas a legenda reduz a cena a uma observação sobre sua aparência:
“A carne é branca.”
Abaixo, a revista ironiza a possibilidade de um naufrágio e afirma que ele saberia nadar apenas “com alguma bóia de deputado”. O jogo de palavras ligava a imagem da praia à sobrevivência política. Não se tratava mais de esporte ou lazer. O objetivo era retratar Barreto Pinto como alguém dependente de circunstâncias favoráveis para permanecer à tona.
Em outra fotografia, o deputado aparece de costas, caminhando em direção ao mar com a bóia sobre os ombros. A legenda afirma que, quando “as pequenas” viam aquele físico na praia, nem olhavam. Acrescenta que ele não ligava, pois não tinha ido ali para conquistar prestígio, mas para viver feliz, pagar suas aventuras e “viver de vida que sonhou”.
A frase mistura insinuação, moralismo e desprezo. Nasser e Manzon não limitavam a crítica à atuação parlamentar. O ataque avançava sobre a aparência, os hábitos e a vida privada do personagem.
A página seguinte apresentava uma única fotografia em grande formato. Barreto Pinto surge dentro da água, envolvido por uma bóia, com os braços apoiados sobre ela. A imagem poderia ser apenas uma cena de banho de mar. A pequena legenda inserida no canto inferior alterava completamente sua leitura:
“Ah, se a bóia estivesse furada...”
"O atleta de barriga mole... ‘‘A carne é branca... Ah, se a bóia estivesse furada...
A crueldade era parte do espetáculo. A revista não escondia que desejava provocar o riso do leitor. A fotografia deixava de ser prova documental e passava a funcionar como uma charge feita com um corpo real.
Esse tipo de construção era uma marca do trabalho de Jean Manzon. O fotógrafo não se limitava a esperar o acontecimento. Organizava posições, escolhia objetos, dirigia movimentos e buscava uma imagem capaz de sintetizar o caráter que a reportagem queria atribuir ao retratado. David Nasser, por sua vez, escrevia legendas que não descreviam as fotos: orientavam o leitor sobre como deveria interpretá-las.
A sequência também demonstra que Barreto Pinto colaborou longamente com a sessão. Ele não foi surpreendido em um único momento. Posou na banheira, caminhou pela praia, tentou chutar uma bola, correu com uma bóia, entrou no mar e permitiu retratos em diferentes posições.
Isso não resolve o debate sobre se o deputado compreendia a intenção final da matéria. Mas afasta a ideia de que tudo tenha resultado de um único clique clandestino. Havia uma produção extensa, realizada com sua participação.
O parlamentar provavelmente acreditava que a revista transformaria sua disponibilidade em popularidade. Nasser e Manzon perceberam outra possibilidade: transformar a vaidade do personagem em matéria-prima para uma reportagem demolidora.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Na praia de Copacabana, Barreto Pinto não praticou apenas exercícios. Participou, sem perceber plenamente, da construção pública de sua própria caricatura
