Eles não usam cruzes em chamas.
Não aparecem com túnicas brancas.
Quase nunca gritam palavras de ordem.
Marcham em silêncio.
Vestem calças cáqui, camisetas azul-marinho, bonés, máscaras e óculos escuros. Caminham em formação, carregando bandeiras e escudos cuidadosamente padronizados. A estética lembra uma tropa disciplinada. O anonimato faz parte da estratégia.
É assim que o Patriot Front procura apresentar sua imagem pública.
Fundado em 2017, poucos dias após a violenta manifestação "Unite the Right", em Charlottesville, Virgínia, o grupo nasceu de uma dissidência da organização supremacista Vanguard America. Naquele protesto, milhares de extremistas marcharam para contestar a retirada de um monumento ao general confederado Robert E. Lee. O ato terminou em confrontos e ganhou repercussão mundial quando um simpatizante neonazista atropelou manifestantes antirracistas, matando Heather Heyer e ferindo dezenas de pessoas. A repercussão negativa levou parte dos integrantes do Vanguard America a reorganizar o movimento.
À frente da nova organização estava Thomas Rousseau, então com apenas 18 anos.
Desde o início, a estratégia foi clara: abandonar a estética tradicional da Ku Klux Klan e dos grupos neonazistas para construir uma imagem mais organizada, disciplinada e visualmente menos associada ao extremismo clássico.
Em Washington, integrantes do grupo supremacista branco Patriot Front entram na estação Eastern Market antes de embarcarem no metrô da capital americana
Os símbolos mudaram.
A ideologia, segundo especialistas, não.
O Patriot Front defende uma visão ultranacionalista baseada na ideia de que os Estados Unidos foram fundados por europeus brancos e que essa identidade estaria sendo ameaçada pela imigração, pela diversidade racial e pelo multiculturalismo. O grupo rejeita o conceito de sociedade plural e sustenta que apenas descendentes dos colonizadores europeus seriam os legítimos herdeiros da nação americana.
Embora seus integrantes frequentemente evitem declarações públicas explícitas de superioridade racial, organizações como o Southern Poverty Law Center (SPLC) e a Anti-Defamation League (ADL) classificam o Patriot Front como um grupo de supremacia branca, destacando que sua propaganda promove nacionalismo étnico, exclusão racial e ideias incompatíveis com os princípios democráticos.
A atuação também mudou.
Em vez de grandes manifestações permanentes, o grupo aposta em ações rápidas e altamente planejadas. Integrantes chegam de caminhão ou ônibus, marcham durante poucos minutos, exibem bandeiras e faixas, registram tudo em vídeo e deixam o local antes que ocorram confrontos. As imagens são então divulgadas nas redes sociais como ferramenta de propaganda e recrutamento.
Segundo levantamentos da ADL, o Patriot Front tornou-se, nos últimos anos, uma das organizações extremistas mais ativas dos Estados Unidos em número de ações públicas. Cartazes, pichações, panfletagens e marchas foram registrados em dezenas de estados.
Foi durante uma dessas mobilizações que surgiu uma das fotografias mais marcantes de 2026.
No dia 4 de julho, enquanto os Estados Unidos comemoravam os 250 anos da Independência, integrantes do Patriot Front marcharam por Washington. Horas depois, já no metrô da capital, o fotógrafo Cheney Orr, da Reuters, registrou uma jovem negra sentada sozinha enquanto dezenas de homens mascarados do grupo permaneciam em pé ao seu redor.
A imagem percorreu o mundo.
Não mostrava violência.
Não havia confronto.
Mas sintetizava um paradoxo da sociedade americana.
Setenta anos depois de Rosa Parks desafiar uma lei segregacionista, outra mulher negra voltava a ocupar o centro de uma fotografia que expunha a permanência do extremismo racial.
As leis mudaram.
Os uniformes mudaram.
As estratégias mudaram.
A pergunta, porém, continua a mesma.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Até onde uma democracia consegue impedir que antigas ideias encontrem novas formas de sobreviver?
