Doze meses depois da fumaça branca que surpreendeu o mundo na Capela Sistina, Leão XIV chega ao primeiro aniversário de pontificado como uma das vozes morais mais influentes da atualidade. Americano moldado pelas periferias do Peru, o sucessor de Francisco transformou prudência em método, silêncio em estratégia e cautela em instrumento de poder. Sem rupturas bruscas, mas também sem repetir o estilo explosivo do antecessor, o novo papa recolocou o Vaticano no centro das grandes tensões globais, da guerra no Oriente Médio à crise migratória, da inteligência artificial ao avanço do nacionalismo político. Em um ano, enfrentou ataques de Donald Trump, ampliou a presença da Igreja no debate internacional e aproximou Roma do Brasil como não se via há décadas. Aos 70 anos, Leão XIV inicia a chamada “era leonina” tentando reconstruir a unidade interna da Igreja enquanto prepara uma nova batalha moral: o confronto entre dignidade humana, tecnologia e radicalização do século XXI.

Durante audiência no Salão Paulo VI, em dezembro de 2025, Papa Leão XIV cumprimenta funcionários da Santa Sé e do Vaticano

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Depois da fumaça branca

O missionário americano moldado pelo Peru apareceu na sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano, em 8 de maio de 2025, e pronunciou as palavras iniciais de um pontificado que ainda tenta ser decifrado.
Um ano depois, Leão XIV se mostra como líder moral mais ouvido do planeta e talvez o mais cauteloso

Na última sexta-feira , 8 de maio de 2026, enquanto o papa Leão XIV celebrava missa no Santuário de Pompeia e recitava a tradicional Súplica a Nossa Senhora do Rosário, o Vaticano atravessava um marco carregado de simbolismo: o primeiro aniversário de um pontificado que começou sob surpresa genuína e, ao longo de 12 meses, encontrou um caminho próprio dentro de uma Igreja ainda marcada pela longa sombra de Francisco.

Exatamente um ano atrás, às 18h07 de 8 de maio de 2025, a fumaça branca saiu da chaminé da Capela Sistina. Os sinos da Basílica de São Pedro confirmaram o que poucos esperavam tão cedo. Em apenas quatro votações,um ritmo considerado rápido para um conclave daquele tamanho, os 133 cardeais eleitores haviam chegado a um acordo sobre o sucessor de Francisco, morto 16 dias antes, na segunda-feira de Páscoa.

O escolhido não estava entre os nomes mais repetidos pelas casas de apostas italianas nem aparecia com frequência nas análises dos vaticanistas. Quando o nome começou a circular entre jornalistas posicionados na Praça São Pedro, houve alguns segundos de hesitação. Robert Francis Prevost, de 69 anos, nascido em Chicago, filho de pai de origem francesa e italiana e de mãe espanhola, Mildred Martínez, passara grande parte da vida longe dos centros tradicionais de poder da Igreja.

Missionário no Peru durante décadas, falava cinco idiomas, havia dirigido a Ordem dos Agostinianos em todo o mundo entre 2001 e 2013 e retornado depois à América Latina como bispo de Chiclayo, cidade onde acabaria recebendo cidadania peruana. Em janeiro de 2023, Francisco o levou para Roma para comandar o Dicastério para os Bispos, órgão responsável pelas nomeações episcopais do planeta. Pouco mais de dois anos depois, os cardeais lhe entregavam o comando da Igreja Católica.

A primeira aparição pública de Leão XIV já continha sinais que seriam examinados durante meses.
Ao surgir na loggia central da Basílica de São Pedro, vestia a mozzetta vermelha, a capa curta de autoridade pastoral abandonada por Francisco logo no início do pontificado anterior. No Vaticano, detalhes raramente são apenas detalhes. O gesto foi interpretado imediatamente como um aceno de retomada institucional, ainda que discreta.

Depois veio a voz. Sem pressa. Sem improviso. Sem frases de efeito.“Esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e duradoura.”

A imagem daquela noite continua sendo uma das mais reproduzidas do primeiro ano de pontificado: o novo papa imóvel diante da multidão, olhando durante alguns segundos para a praça antes de começar a falar. Não havia euforia no rosto. Havia contenção.

Na missa de inauguração do pontificado, celebrada em 18 de maio de 2025, ele voltaria à mesma ideia. “Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja se fazer servo da vossa fé e da vossa alegria.”

Doze meses depois, a frase parece resumir o método que escolheu para governar.

O primeiro ano de Leão XIV foi marcado menos por rupturas do que por administração silenciosa de tensões. Durante meses, o novo papa evitou movimentos bruscos, preservou compromissos herdados de Francisco. entre eles a viagem à Turquia para os 1.700 anos do Concílio de Niceia e a publicação da exortação apostólica Dilexi Te e adiou decisões que pudessem ampliar a divisão interna da Igreja.

Somente a partir de janeiro de 2026 começaram a surgir sinais mais claros de um projeto próprio de pontificado.

O consistório extraordinário convocado no início do ano para discutir sinodalidade, governança da Cúria e liturgia foi tratado em Roma como o verdadeiro início da chamada “era leonina”. O encontro marcou o momento em que Leão XIV passou a atuar já sem a necessidade de administrar exclusivamente a herança imediata de Francisco.

A escolha do nome nunca deixou dúvidas sobre a direção que pretendia seguir.

Leão XIII, papa entre 1878 e 1903, entrou para a história como o autor da Rerum Novarum, documento fundador da doutrina social da Igreja diante das transformações violentas da Revolução Industrial. Ao assumir o nome Leão XIV, Prevost sinalizou desde o primeiro momento que pretendia posicionar a Igreja diante da grande transformação contemporânea: a revolução digital e seus efeitos sobre trabalho, poder e dignidade humana.

“Assim como Leão XIII enfrentou a questão operária”, afirmou ao Colégio Cardinalício nos primeiros dias de pontificado, “nós precisamos enfrentar a questão tecnológica com a mesma seriedade moral.”

A primeira encíclica do pontificado, Magnifica Humanitas, prevista para as próximas semanas, deverá consolidar esse eixo. O documento tratará de inteligência artificial, capitalismo digital e desigualdade tecnológica, temas que passaram a ocupar espaço central nos discursos do papa ao longo do primeiro ano.

O balanço desses 12 meses revela um pontífice que governa sem teatralidade e que parece desconfortável diante do personalismo que marcou parte da era contemporânea da Igreja. Em vez do gesto inesperado, prefere o texto cuidadosamente elaborado. Em vez da frase de impacto, a formulação lenta. Em vez do confronto aberto, a contenção.

Ainda assim, Leão XIV encerra o primeiro aniversário de pontificado numa posição improvável há um ano: tornou-se a principal voz moral do cenário internacional num momento de fragmentação geopolítica e radicalização política. Ao longo dos últimos meses, enfrentou ataques de Donald Trump, criticou escaladas militares, defendeu negociações de paz e passou a ocupar um espaço raro na diplomacia contemporânea – o de líder global capaz de desagradar simultaneamente direita, esquerda e nacionalistas sem perder autoridade pública.

Aos 70 anos, em boa condição física e cercado por um círculo interno considerado estável, Leão XIV inicia agora o segundo ano de pontificado com algo que os primeiros meses ainda não permitiam afirmar com clareza: a sensação de que o Vaticano já não vive apenas uma transição depois de Francisco. Vive o começo de outra era. A “era leonina’’.

Os primeiros 12 meses

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8 de maio de 2025
• Eleição na quarta votação. Robert Francis Prevost torna-se Leão XIV, primeiro papa americano e primeiro agostiniano da história.

18 de maio de 2025
• Missa de inauguração do pontificado na Praça São Pedro.

 

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7 de setembro de 2025
• Canoniza Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati, primeiros santos do pontificado.

Outubro de 2025
• Canoniza São Bartolo Longo, fundador do Santuário de Pompeia.

 

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Novembro e dezembro de 2025
• Primeira viagem apostólica: Turquia, pelos 1.700 anos do Concílio de Niceia, e Líbano.

Janeiro de 2026
• Consistório extraordinário de cardeais marca o início mais claro da “era leonina”.

Fevereiro de 2026
• Papa pede que sacerdotes não usem inteligência artificial para escrever homilias.

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Abril de 2026
• Vigília de paz em São Pedro, crise com Donald Trump e viagem histórica à África.

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