Quando a ordem de evacuação foi anunciada em abril de 1986, ninguém deveria ficar. A região ao redor da usina de Chernobyl foi esvaziada às pressas, transformada em uma zona proibida. Mas nem todos aceitaram partir para sempre. Anos depois, contrariando as determinações do Estado, algumas mulheres voltaram. Hoje conhecidas como “babushkas de Chernobyl”, elas são sobreviventes de uma decisão que mistura apego à terra, resistência e desafio às regras impostas após o desastre.
“Babushka”, em russo e ucraniano, significa avó. O termo passou a identificar essas idosas que, após serem retiradas de suas casas, decidiram retornar, muitas vezes a pé, atravessando áreas contaminadas e burlando a vigilância estatal. Elas voltaram para aldeias abandonadas dentro da zona de exclusão, onde passaram a viver sem autorização, em meio à radiação, ao isolamento e à ausência de serviços básicos.
Estima-se que, ao longo dos anos 1990, cerca de 1.200 pessoas tenham retornado ilegalmente à região. Hoje, esse número caiu drasticamente. De acordo com autoridades ucranianas e pesquisadores, restam menos de 150 moradores na zona, a maioria mulheres idosas. Muitas vivem sozinhas, cultivando pequenas hortas, criando animais e mantendo uma rotina que lembra a vida antes da evacuação.
O regresso proibido
O retorno começou poucos anos após o acidente. Para muitas dessas mulheres, a vida fora da zona era mais difícil do que o risco da radiação. Transferidas para cidades desconhecidas, perderam suas casas, suas referências e seu modo de vida. A terra, para elas, não era apenas propriedade, mas identidade.
“Disseram que aqui era perigoso, que eu morreria. Mas eu morreria mais rápido longe da minha casa”, afirmou Hanna Zavorotnya aos 90 anos, uma das babushkas mais conhecidas, em entrevista à Agência Reuters em 2015.
Sem permissão oficial, elas voltaram pouco a pouco. Algumas chegaram escondidas. Outras simplesmente ignoraram as ordens e reconstruíram suas rotinas. Com o tempo, as autoridades passaram a tolerar a presença dessas idosas, em parte pela dificuldade de removê-las novamente e também pelo fato de muitas já terem idade avançada.
A vida na zona de exclusão é marcada pela precariedade. Não há hospitais, transporte regular ou infraestrutura urbana. A eletricidade é limitada, o acesso a alimentos depende de cultivo próprio ou de ajuda externa, e o inverno impõe isolamento ainda maior.
Ainda assim, elas permanecem.
“Eu planto minhas batatas, cuido das minhas galinhas. Aqui é minha casa. Não tenho medo”, disse Maria Savchenko, então 86 anos, em depoimento registrado no documentário ‘‘As Babushkas de Chernobyl, lançado em 2015.
O cotidiano dessas mulheres desafia a lógica científica. Embora estejam expostas a níveis de radiação superiores ao recomendado, muitas ultrapassaram a expectativa de vida média. Especialistas apontam que fatores como alimentação natural, rotina ativa e, principalmente, o impacto psicológico positivo de viver em seu próprio território podem ajudar a explicar essa longevidade.
“A saúde não depende apenas da radiação. O estresse, o deslocamento e o trauma tiveram efeitos tão importantes quanto a exposição”, afirmou um pesquisador ambiental em estudos sobre a região.
Mesmo com o passar do tempo, as babushkas continuam sendo uma presença viva na zona. Em reportagens mais recentes, já nos anos 2020, jornalistas que conseguiram acessar a região registraram depoimentos que mostram uma permanência marcada por convicção.
“Eu nasci aqui. Vou morrer aqui. Não há outro lugar para mim”, disse uma moradora idosa à imprensa ucraniana em entrevistas realizadas após 2020, ao ser questionada sobre a possibilidade de deixar a área.
Outra moradora, entrevistada por veículos internacionais em reportagens recentes, reforçou o sentimento de pertencimento: “As pessoas têm medo da radiação. Eu tenho medo de ficar longe da minha casa”.
Essas falas, repetidas ao longo dos anos, revelam um padrão: para essas mulheres, o risco invisível nunca foi suficiente para romper o vínculo com o território.
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Entre ciência e resistência
Do ponto de vista científico, viver na zona de exclusão não é considerado seguro. A radiação permanece presente no solo, na água e em alguns alimentos. Ainda assim, o caso das babushkas levanta debates sobre a relação entre saúde física e bem-estar emocional. Para muitos especialistas, a decisão dessas mulheres não pode ser analisada apenas sob o prisma médico. Trata-se de uma escolha que envolve identidade, pertencimento e memória.
