Há 80 anos, em 5 de março de 1946, menos de um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, um discurso pronunciado nos Estados Unidos ajudaria a definir o clima político que marcaria as décadas seguintes. Na cidade de Fulton, no auditório do Westminster College, o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill falou sobre o novo cenário geopolítico que emergia após a derrota da Alemanha nazista.

O discurso, intitulado “Sinews of Peace” (“Os Nervos da Paz”), contou com a presença do então presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, que havia convidado Churchill para a conferência e o apresentou ao público. Embora não ocupasse mais o cargo de primeiro-ministro — ele havia perdido as eleições britânicas de 1945 — Churchill continuava sendo uma das vozes mais influentes da política internacional.

Durante a conferência, ele descreveu o que via como uma crescente divisão da Europa entre duas esferas de poder. Foi nesse momento que pronunciou a frase que se tornaria uma das mais conhecidas do século XX.

“De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente”, afirmou Churchill, referindo-se ao avanço da influência soviética sobre países da Europa Oriental. A cidade de Stettin mencionada por ele corresponde hoje à cidade de Szczecin, na Polônia.

A expressão rapidamente ganhou repercussão internacional. Ela simbolizava a percepção de que o continente europeu estava sendo dividido em dois blocos distintos: de um lado, as democracias ocidentais alinhadas aos Estados Unidos; de outro, os governos que passavam a integrar a esfera de influência da União Soviética.

Churchill também alertou que Moscou buscava ampliar sua influência política e estratégica. Em outro trecho do discurso, declarou: acredito que a Rússia soviética deseje guerra. O que ela deseja são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e de suas doutrinas.”

Naquele momento, a Europa ainda enfrentava os efeitos devastadores do conflito recém-encerrado. Cidades estavam destruídas, milhões de pessoas haviam sido deslocadas e as economias nacionais lutavam para se reconstruir. Mesmo assim, já era possível perceber que a antiga aliança entre os vencedores da guerra começava a se transformar em rivalidade.

Churchill também defendeu um fortalecimento da cooperação entre os países ocidentais, especialmente entre Reino Unido e Estados Unidos. Para ele, a estabilidade internacional dependeria de uma aliança política e militar capaz de conter novos desequilíbrios de poder.

“Se as populações da Comunidade Britânica e dos Estados Unidos permanecerem unidas, não haverá equilíbrio instável de poder capaz de ameaçar a paz”, afirmou.

A reação ao discurso foi imediata. Em países ocidentais, muitos líderes passaram a considerar a União Soviética com maior desconfiança. Moscou respondeu poucos dias depois. Em entrevista ao jornal soviético Pravda, o líder soviético Joseph Stalin acusou Churchill de estimular uma política de confronto e comparou suas declarações à retórica expansionista usada antes da guerra.
Com o passar dos anos, o discurso da Cortina de Ferro passou a ser visto como um dos momentos simbólicos que anunciaram a divisão política do mundo no pós-guerra. A expressão criada por Churchill tornou-se um dos termos mais marcantes da história da Guerra Fria, representando a separação ideológica, militar e política que dividiria a Europa e influenciaria a política internacional por quase meio século.

 

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Otan: A aliança que cercou o Ocidente


A OTAN foi criada em 1949, no início da Guerra Fria, como resposta à crescente influência da União Soviética na Europa. Liderada pelos EUA, a aliança estabeleceu o princípio da defesa coletiva: um ataque a um membro seria considerado um ataque a todos. O objetivo era conter o avanço do socialismo soviético, garantir estabilidade política e proteger democracias ocidentais. Sua formação consolidou a divisão do mundo em blocos ideológicos rivais.

 

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Pacto de Varsóvia: O escudo do bloco socialista


O Pacto de Varsóvia foi criado em 1955 pela União Soviética e seus aliados do Leste Europeu como resposta direta à formação da OTAN. A aliança buscava garantir controle político e militar sobre países socialistas, além de equilibrar o poder estratégico frente ao Ocidente. Funcionava também como instrumento de intervenção soviética em nações do bloco, assegurando a manutenção de governos alinhados a Moscou e reforçando a polarização da Guerra Fria.

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“De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente” • Winston Churchill, em Fulton, EUA, 5/3/1946

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