{"id":278511,"date":"2026-11-04T11:27:00","date_gmt":"2026-11-04T14:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/?p=278511"},"modified":"2026-11-03T23:55:32","modified_gmt":"2026-11-04T02:55:32","slug":"machado-de-assis-colocou-um-narrador-morto-para-falar-com-o-leitor-em-memorias-postumas-a-frase-que-muda-o-sentido-de-uma-autobiografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/2026\/11\/04\/machado-de-assis-colocou-um-narrador-morto-para-falar-com-o-leitor-em-memorias-postumas-a-frase-que-muda-o-sentido-de-uma-autobiografia\/","title":{"rendered":"Machado de Assis colocou um narrador morto para falar com o leitor em Mem\u00f3rias p\u00f3stumas: a frase que muda o sentido de uma autobiografia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagine receber uma autobiografia escrita por algu\u00e9m que j\u00e1 morreu. Em <strong>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/strong>, <strong>Machado de Assis<\/strong> entrega a narra\u00e7\u00e3o a um homem que come\u00e7a pelo pr\u00f3prio funeral. A estranheza ganha outro sentido quando o personagem relembra a vida com humor e exp\u00f5e, sem perceber, suas pr\u00f3prias vaidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como um homem morto come\u00e7a a contar a pr\u00f3pria vida?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cap\u00edtulo primeiro, chamado <strong>\u201c\u00d3bito do autor\u201d<\/strong>, <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/2026\/09\/12\/machado-de-assis-deixou-uma-frase-para-quem-sente-que-os-dias-passam-rapido-demais-matamos-o-tempo-o-tempo-nos-enterra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Br\u00e1s Cubas<\/strong><\/a> explica que <strong>preferiu come\u00e7ar pela morte<\/strong>, e n\u00e3o pelo nascimento. O narrador descreve o pr\u00f3prio funeral e relembra a vida que levou, fazendo uma escolha imposs\u00edvel para uma autobiografia comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do <a href=\"https:\/\/www.gutenberg.org\/cache\/epub\/54829\/pg54829-images.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Project Gutenberg<\/strong><\/a> conserva a <strong>grafia antiga do romance<\/strong> de <strong>1881<\/strong>. O ponto decisivo \u00e9 a diferen\u00e7a entre ter escrito um livro e estar morto ou, como acontece aqui, ser um morto que s\u00f3 depois conta a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-278521\" srcset=\"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-750x421.jpg 750w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/frase-3.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A escolha permite que o personagem conte sua hist\u00f3ria de uma maneira pouco comum<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A express\u00e3o defunto autor muda o ponto de vista<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Br\u00e1s Cubas afirma que n\u00e3o \u00e9 propriamente um \u201cautor defunto\u201d, mas <strong>\u201cum defunto autor\u201d<\/strong>. A invers\u00e3o parece simples, por\u00e9m muda a regra da narrativa: ele n\u00e3o escreve antes de morrer. Na fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 a <strong>morte j\u00e1 ocorrida<\/strong> que lhe permite contar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase \u00e9 do <strong>personagem Br\u00e1s Cubas<\/strong>, criado por <strong>Machado de Assis<\/strong>. Ela n\u00e3o descreve a vida do escritor. O recurso tamb\u00e9m ajuda a entender por que o narrador interrompe lembran\u00e7as, comenta pessoas e fala diretamente com quem acompanha sua vers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que essa autobiografia n\u00e3o segue a ordem comum?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de apresentar uma vida desde a inf\u00e2ncia, o personagem come\u00e7a pelo fim e depois percorre acontecimentos anteriores. A hist\u00f3ria foi publicada em cap\u00edtulos na Revista Brasileira em 1880 e virou livro em <strong>1881<\/strong>, conforme explica a <a href=\"https:\/\/www.uffs.edu.br\/uffs\/editora-uffs\/memorias-postumas-de-bras-cubas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Editora da Universidade Federal da Fronteira Sul<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div>Essa estrutura aparece em escolhas concretas:<\/div>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Come\u00e7o:<\/strong> primeiro v\u00eam a morte e o enterro.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Mem\u00f3rias:<\/strong> a inf\u00e2ncia e os amores s\u00e3o contados depois.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Interrup\u00e7\u00f5es:<\/strong> Br\u00e1s Cubas comenta a forma de narrar.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Ironia:<\/strong> suas justificativas revelam interesses pr\u00f3prios.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas escolhas fazem o livro parecer uma conversa cheia de desvios. Quem conta o passado n\u00e3o \u00e9 um juiz imparcial: \u00e9 o pr\u00f3prio protagonista, que <strong>seleciona cenas, valoriza conquistas<\/strong> e tenta orientar a <strong>imagem que deixar\u00e1 de si<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O narrador exp\u00f5e vaidades e privil\u00e9gios<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Br\u00e1s Cubas pertence a uma fam\u00edlia rica do Rio de Janeiro e fala de amores, ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e <strong>vontade de ser lembrado<\/strong>. Ao contar essas experi\u00eancias, deixa aparecer a <strong>vida de uma elite<\/strong> que convivia com grandes diferen\u00e7as sociais no Brasil do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Suas rela\u00e7\u00f5es e atitudes tamb\u00e9m mostram a presen\u00e7a da escravid\u00e3o na sociedade retratada. \u00c9 importante n\u00e3o tomar suas opini\u00f5es como verdades do romance: a <strong>dist\u00e2ncia entre o que ele pensa<\/strong> e o que suas a\u00e7\u00f5es revelam faz parte da cr\u00edtica constru\u00edda por Machado.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-278522\" srcset=\"https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-750x421.jpg 750w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/www.em.com.br\/emfoco\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/velorio.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O humor e a ironia aparecem desde as primeiras p\u00e1ginas e ajudam a definir o tom da obra<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como o romance de 1881 mistura humor e desconforto?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mem%C3%B3rias_P%C3%B3stumas_de_Br%C3%A1s_Cubas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>hist\u00f3ria de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/strong><\/a>, aparecem tanto a publica\u00e7\u00e3o original quanto o lugar do romance na literatura brasileira. A linguagem mistura observa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas com epis\u00f3dios dif\u00edceis, e a liberdade do narrador torna as duas sensa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 a dedicat\u00f3ria \u00e9 incomum: Br\u00e1s Cubas se dirige ao <strong>verme que primeiro consumiu seu corpo<\/strong>. A imagem prepara um mundo em que <strong>morte e humor<\/strong> convivem. O exagero n\u00e3o apaga o peso das desigualdades e das rela\u00e7\u00f5es humanas apresentadas no decorrer da obra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A primeira frase importante continua provocando d\u00favidas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de um <strong>defunto que escreve<\/strong> ajuda a entender por que o livro n\u00e3o funciona como relato fiel de uma vida real. O narrador escolhe o que mostrar, <strong>faz coment\u00e1rios inconvenientes<\/strong> e d\u00e1 ao pr\u00f3prio passado uma forma que pode favorec\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao trocar a ordem das palavras, Machado cria uma diferen\u00e7a enorme entre duas posi\u00e7\u00f5es: um escritor morto e <strong>um morto que escreve<\/strong>. \u00c9 essa voz, ao mesmo tempo pr\u00f3xima e <strong>dif\u00edcil de confiar<\/strong>, que sustenta a ironia de <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em> at\u00e9 o fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine receber uma autobiografia escrita por algu\u00e9m que j\u00e1 morreu. Em Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, Machado de Assis entrega a narra\u00e7\u00e3o a um homem que come\u00e7a pelo pr\u00f3prio funeral. A estranheza ganha outro sentido quando o personagem relembra a vida com humor e exp\u00f5e, sem perceber, suas pr\u00f3prias vaidades. 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