Entre os dias 12 e 18 de março de 2026, a cidade de Austin, no Texas, Estados Unidos, volta a se transformar em um dos epicentros mundiais da criatividade, da tecnologia e da cultura com mais uma edição do South by Southwest.
Em 2026, o evento completa 40 anos. Um marco relevante para um festival que nasceu em 1987 como um encontro da cena musical local e se transformou em um dos principais pontos de observação da economia criativa global.
Esta será minha sétima vez no SXSW. E talvez isso diga algo importante sobre ele.
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O festival nunca é o mesmo. E é justamente por isso que continuo voltando.
A cada edição surgem novos temas, formatos e ativações de marca. Também surgem conversas inesperadas em corredores, cafés e filas de sessões. Mais do que um evento, o SXSW funciona como um radar cultural que capta, quase em tempo real, os sinais sutis do futuro.
Um festival espalhado pela cidade
A edição de 2026 marca também uma mudança simbólica na geografia do evento. Pela primeira vez em décadas, o Austin Convention Center deixa de ser o epicentro do festival. O prédio passa por uma grande reforma e o SXSW se distribuiu ainda mais pela cidade.
Hotéis, teatros, casas de shows e até uma igreja presbiteriana passam a funcionar como hubs de conteúdo, inovação e música. Durante alguns dias, Austin deixa de ser apenas uma cidade e se transforma em um grande campus criativo a céu aberto.
Do hype tecnológico às grandes perguntas
Minha primeira vez no SXSW foi em 2012.
Naquela época havia uma expectativa coletiva: qual seria a próxima tecnologia a nascer ali? Em anos anteriores, plataformas como Twitter e Foursquare ganharam enorme visibilidade no festival. A assistente virtual Siri também teve destaque antes de ser adquirida pela Apple.
Durante um período, participar do SXSW era quase como assistir ao nascimento público da próxima grande ferramenta digital.
Essa expectativa mudou.
Nos últimos anos, o centro das discussões deixou de ser o próximo aplicativo da moda e passou a ser algo mais profundo: as perguntas difíceis sobre sociedade, tecnologia e futuro.
De uns tempos pra cá eu tenho tido uma postura bem cética em relação ao 'aceleracionismo tecnológico'. E é bom ver como o SXSW amadureceu, assumindo também essa posição mais crítica.
O humano volta ao centro
Embora continue sendo um dos maiores encontros globais de tecnologia e inovação, o espírito do tempo do SXSW em 2026 aponta para outra direção.
Mais do que tecnologia, o debate gira em torno do humano.
Um dos temas centrais da programação é a chamada saúde social, conceito que investiga como relações humanas e redes de apoio impactam diretamente na nossa saúde física e mental.
A pesquisadora Kasley Killam retorna ao festival para discutir o tema, enquanto a jornalista Jennifer B. Wallace fará um keynote sobre pressão social, pertencimento e bem-estar.
Num mundo digitalmente hiperconectado, surge uma pergunta vital: como voltamos a nos relacionar de verdade?
Os dilemas da inteligência artificial
Se existe um assunto transversal em praticamente todas as trilhas do evento, ele atende por duas letras: IA.
As discussões vão de aspectos éticos e regulatórios a dilemas existenciais. Como manter o humano no centro de processos cada vez mais automatizados? Como lidar com a ansiedade diante da velocidade da transformação tecnológica?
Entre as sessões mais curiosas está a conversa com Aza Raskin, fundador do Earth Species Project, que investiga como a inteligência artificial pode ajudar a decodificar a comunicação de outras espécies.
Uma ideia que parece ter saído de um filme de ficção científica. Mas que enaltece algo essencial: a importância da escuta e do respeito à sabedoria da natureza.
Criatividade em tempos algorítmicos
Também vou a Austin em busca de inspiração criativa.
Entre as sessões que marquei na agenda está a conversa do artista Tom Sachs, que discutirá o caminho entre ideia, execução e exposição, além dos rituais e obsessões que alimentam a curiosidade criativa.
Outro nome aguardado é Gustav Söderström, executivo do Spotify, que refletirá sobre passado, presente e futuro da entrega criativa para o mundo.
Também estará no palco Jonah Peretti, fundador do BuzzFeed, que apresentará seu plano para algo que soa quase como um manifesto: tornar a internet divertida novamente.
A lista de palestrantes é extensa. Inclui até mesmo o incrível Steven Spielberg, que vai contar um pouco sobre seu próximo filme, Dia D, previsto para estrear em junho.
Música e cultura no DNA do SXSW
Ainda que as sessões da conferência sejam o principal atrativo para executivos irem até Austin, o SXSW continua sendo um festival cultural.
Entre os shows anunciados estão artistas como Calvin Harris, Alanis Morissette e Christina Aguilera.
Um dos momentos curiosos da programação musical deste ano tem sotaque brasileiro: o projeto Dominguinho, com participação de João Gomes.
Brasil cada vez mais presente
A presença brasileira no SXSW cresce ano após ano e hoje já figura entre as maiores delegações do evento.
Em 2026 teremos o terceiro ano da SP House e, pela primeira vez, a Casa Minas, iniciativas que apresentam ao mundo projetos culturais e criativos desses estados.
Também será lançado no festival o filme brasileiro Corrida dos Bichos, dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis.
Austin, por alguns dias, também fala português.
O valor da serendipidade
A minha palavra favorita para explicar o SXSW é serendipidade, aquelas descobertas felizes que acontecem por acaso.
Durante sete dias em Austin é impossível assistir a tudo o que gostaríamos. Mas é justamente nesse excesso que começam a aparecer descobertas que ninguém tinha planejado.
Uma conversa inesperada em uma fila.
Uma palestra em que você entrou por acaso.
Uma ideia que surge no meio de um café.
Meu objetivo quando venho ao SXSW não é saber mais. É ampliar minha superfície de contato com o desconhecido. E voltar para o Brasil com novas perguntas, novos caminhos de investigação e algumas boas histórias para contar.
Talvez por isso eu brinque que meu carnaval acontece sempre em março.
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Porque, durante uma semana em Austin, conhecimento, música, tecnologia e encontros improváveis se misturam de um jeito raro. E é dessa mistura improvável que, muitas vezes, começam a surgir os primeiros sinais do futuro.
