Lembro-me de que, há muito tempo, tive contato com o tocante Elogio ao Amor, de Alain Badiou e Nicolas Truong. Ali, eles contam que, andando pelas ruas de Paris, um deles teve sua atenção tomada por inúmeros cartazes de um site de relacionamento chamado Meetic, que tinha como campanha de marketing slogans do tipo: "Tenha o amor sem ter o acaso"; "Você pode amar sem cair de amores"; ou "É perfeitamente possível se apaixonar sem sofrer". E relatam, ainda, pasmem, que o site oferecia um treinamento amoroso para os assinantes.


Ao refletirem sobre o tema, os autores concluem que aqueles que buscam essa forma de se relacionar têm uma concepção securitária do amor: querem encontrar um parceiro amoroso, mas não querem arriscar a sorte e acabar sofrendo diante de uma decepção amorosa, como se o algoritmo fosse capaz de tal proeza. Defendem Badiou e Truong que amor com risco zero, como pretendem tais pessoas, se assemelha à possibilidade de uma guerra com risco zero, algo até teoricamente pensável, mas impossível na prática.


O que os autores viram pelas ruas de Paris há anos tornou-se um mercado bilionário, que arrecada muitos dólares ao ano. Aplicativos como o eHarmony pedem que o usuário responda a mais de oitenta perguntas sobre sua personalidade e valores, isso antes de qualquer contato humano. O algoritmo então decide quem corresponde ao seu perfil. Já o OKCupid vai muito além e exibe um percentual de compatibilidade antes mesmo de o usuário começar a conversar com o pretendente. O Hinge, por sua vez, se apresenta como sendo um aplicativo “projetado para ser excluído”, já que a relação bem-sucedida dispensaria o aplicativo.


A promessa de amar sem sofrer, por meio do encontro com o parceiro ideal, via intermediação de aplicativo, não pode ser garantida por nenhum algoritmo. Mas, ainda mais importante do que isso: o risco, a vulnerabilidade e até mesmo uma possível dor, não são acidentes evitáveis da experiência amorosa, ao contrário, são constitutivos dela.


E isso acontece porque o amor nos exige encontrar o outro de verdade, não como versão ampliada de nós mesmos. Não é com o outro do aplicativo, que passou por todos os meus filtros prévios, que terei que lidar, mas com um sujeito real, com suas delícias e suas dores. O máximo que é possível encontrar nesse tipo de aplicativo são parceiros pragmaticamente escolhidos, segundo critérios previamente estabelecidos por nós mesmos. Um parceiro forjado no delírio narcisístico do eu, sem o real para lhe atritar.


Badiou vai além e afirma que o amor sempre começa pelo acaso: o encontro imprevisível com alguém que não estava no roteiro. É esse inesperado, que acontece na vida organizada, que inaugura o processo amoroso. Ao mapear preferências e calcular compatibilidades, o que os aplicativos fazem é justamente abolir o acaso, fazendo-nos acreditar que sua ausência garantiria também ausência de sofrimento. Se é inegável que tais plataformas podem unir pessoas com gostos parecidos - como os torcedores de um time – me parece claro também que a matematização da vida amorosa transforma o amor em conveniência.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Quem aparece e transforma nossa vida de fato talvez não seja aquele sujeito escolhido meticulosamente, mas o inesperado, com sua irredutível estranheza, incapaz de se resumir em um questionário de 80 perguntas. Há uma definição que me acompanha pela vida e ela diz que amar é dar ao outro a possibilidade de te destruir e ter a certeza de que ele não o fará. Prefiro acreditar nessa máxima a matematizar o amor.

compartilhe